Clube Ahab – Capítulo Um “O LEÃO”

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A cor do homem era a cor do bronze.

O rosto muito fino, esquálido. Bigodes e sobrancelhas grossas.

O cabelo, liso e denso, era negro como petróleo.

Usava um terno bege sob um colete preto, desenhos sutis em branco, e indo contra o que se esperaria dele, não usava turbante. Maioria da população árabe que vinha morar na cidade costumava usar indumentária arabesca, provavelmente pra fazer chacota com o próprio estereótipo, mas algumas vezes o uso da tira de pano na cabeça era outro. Queriam exibir seus status de comerciantes turcos ou armenos, provando serem realmente turcos ou armenos, e provar que vendiam tapetes persas originais de fábrica.

Só que ele era libanês. Desembarcara no ancoradouro da Prainha havia dois anos e rapidamente aprendera a língua portuguesa. Agora era eventualmente procurado por conta de suas faculdades mentais, apesar de inicialmente não ter vindo para o Brasil em busca de dinheiro.

Ficava difícil não repará-lo enquanto ele caminhava pela cidade. Nos últimos anos navios apinhados de imigrantes aportaram ali, trazendo gente da Europa, da África e da Eurásia, e mesmo assim o povo do Oriente Médio, que a gente da cidade costumava chamar genericamente de “mouros”, fazia parte de uma pequena parcela destes estrangeiros. O libanês já estava acostumado com o olhar desconfiado das pessoas, e seu ajudante, Josué, também não parecia se importar.

Josué era um escravo alforriado. Jovem demais para ser livre, andava assim como seu patrão: terno, colete, bigode, cabelo curto.

Caminhavam lado a lado pelo Largo do Paço, as pedrinhas de ladrilho ainda molhadas pelo chuvisco da aurora, com as nuvens já se afastando no céu porém, porque ainda ventava forte e o sol do meio-dia queria aparecer. Com a brisa fresca a indumentária pesada de praxe não parecia tão sufocante como sempre.

O dia era sexta-feira.

Passaram sob o Arco do Telles em direção ao bar recomendado pelo homem com quem deveriam se encontrar. Na tarde anterior uma carta com o selo do imperador chegara no escritório do libanês no Imperial Colégio Dom Pedro II, onde ele lecionava matemática. Dizia que um assunto político gravíssimo precisava de sua atenção, e só. Abaixo, a marca d’água do selo do Império com o brasão da Casa de Bragança.

– O que um professor de contas tem a ver com isso? – disse ele mais de uma vez para seu ajudante Josué, antes de saírem àquela manhã.

O homem que enviara a carta aguardava em frente à Cantinalta, que era uma cantina de dois andares, mas ninguém era muito inclinado a ficar lá dentro do recinto, dando preferência às mesas ao ar livre. Ele estava sentado de pernas cruzadas, lendo um periódico de páginas amarelas. Na mesa, em sua frente, um copo de suco e um pratinho de porcelana com um cigarro escuro já meio apagado. A fumaça estreita do cigarro serpenteava com as refegas de vento.

Ele se levantou quando viu o professor se aproximando. Estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas não soube muito bem se deveria cumprimentar o negro que lhe fazia companhia. Preferiu fazer apenas um aceno de cabeça.

– Estou grato que tenha atendido ao meu chamado, Professor Hisab.

O libanês sentou-se, em seguida apontando um banco para que Josué também se sentasse. O homem que os aguardava ficou incomodado, olhando para os lados, e quando deu por si estava sendo observado por algumas pessoas nas mesas próximas. Um mascate ao lado de uma pilha de sacos de feno tocava uma balada em uma viola, recebendo os tostões de seu público em uma cartola velha jogada no chão, e mesmo ele acabou se distraindo pela cena que se desenrolava a sua frente.

– Algum problema? – perguntou o professor, ainda que soubesse do que se tratava o burburinho que se formou.

– Ele é um negro, professor. Não pode se sentar conosco.

– Posso saber o motivo?

O homem riu, sem graça. – O motivo é porque ele é negro.

Josué já ia se levantando, mas a ordem de seu patrão foi clara: – Fique aí, Josué – e virando-se para o seu anfitrião, disse: – Foi o senhor quem nos convocou, inspetor. Não o contrário. Diga o que quer e iremos embora o mais rápido possível, mas não humilhe meu empregado.

Dirigia-se ao homem como “inspetor”, pois Elias Franco era o Delegado de Polícia da Corte da capital, ou pelo menos um deles. Tinha quarenta anos, porte físico robusto, um pouco gordo, era careca mas ainda tinha fartas costeletas castanhas. Estava sempre bufando, respirando com dificuldade, e sua tosse era de um som rascante. Um baixo e prolongado assobio podia ser ouvido enquanto ele respirava.

– Calma, professor. Não precisamos brigar, certo? Tome um refresco de maracujá, é muito gostoso, e também ajuda com os nervos. Pra demonstrar minha boa vontade, pago uma rodada para seu negro também.

– O nome dele é Josué – disse Hisab.

– Sim, sim, claro. Josué. Ele tem cara de Josué mesmo. O Josué bíblico, que tal?

Nem o libanês nem seu ajudante responderam. Aguardaram que o servente trouxesse uma bandeja com mais dois copos de suco, responderam que não queriam comer nada, e esperaram que o inspetor se pronunciasse. Ele tomou um gole de suco, limpou os lábios grossos com um guardanapo, e disse: – Bem, professor, o senhor já se tornou uma figura conhecida por aqui.

– O que quer dizer?

– Digo, no Rio de Janeiro. Dois anos e já sabe a nossa língua? Não é pra qualquer um.

– Meu tempo é curto, inspetor. Então se o senhor puder…

– Certo – interrompeu Franco, pegando o que lhe restava do cigarro para dar um último trago.

Pessoas cruzavam a travessa pra lá e pra cá, carregando baldes de grãos, carroças com carne, ou cruzando a pé para a Rua da Cruz. O buchicho dos transeuntes era alto, o que levava ao inspetor a não se importar em ir direto ao ponto, um assunto no mínimo delicado: – Dizem que o senhor veio das Arábias há pouco tempo, aprendeu rapidamente a falar nossa língua e é um bom observador. Precisamos da sua ajuda em uma investigação policial. Sei que o senhor não é militar, mas foi altamente recomendado pelo diretor do seu colégio como um homem perito em… em raciocinar?

Hisab não conseguiu esconder um sorriso. Em poucos minutos de conversa ele já havia entendido que Elias Franco era um idiota retrógrado, e aquilo se confirmou com sua evidente ignorância. Dizer que um professor é perito em raciocinar seria o mesmo que dizer que um cachorro é perito em latir. A polícia fluminense não fazia a mais remota ideia de como conduzir uma investigação policial, não como os ingleses e os franceses, nem mesmo como os portugueses, mas vá lá. Aquele era um país tão rude que podia-se dizer que passava ainda pelo alvorecer da infância.

O inspetor parecia ler pensamentos, porque disse: – Nossa guarda foi montada com base no militarismo, é claro. O mesmo com o nosso aparelho de delegação a assuntos civis. Ou seja, não temos pessoas realmente aptas a inquirir pistas de qualquer maluco que queira matar os outros por aí. Principalmente se esse maluco tiver um método.

– Entendo.

– Também não há ninguém no Quartel dos Barbonos que possa me ajudar com isso. De fato, uns poucos que se atreveram a dar uma espiada no panorama criminal sequer conseguiram segurar o desjejum dentro de seus estômagos – o inspetor riu e tossiu um pouco antes de prosseguir. – Bom, eu não tive problemas. Mas sete cabeças apodrecendo em uma sacola não são páreo pra qualquer um.

O libanês tomou um gole de suco. Percebia que a pose do inspetor tinha a intenção de impressioná-lo, mas a única coisa que ele estava conseguindo era aborrecê-lo. Sim, sete cabeças decapitadas por um matador cruel eram grande coisa, uma ameaça terrível à paz cotidiana da cidade, embora fosse de se imaginar que o crime devia ser meramente político. A guerra declarada contra o Paraguai estava fervendo os nervos dos aliados do Império, enquanto outros, os que não eram militares e estavam pouco se importando com a soberania nacional, estendiam tranquilamente suas redes e liam as notícias nos periódicos. Se a notícia do crime vazasse, o que aconteceria mais cedo ou mais tarde, nem os bon vivant estariam livres do terror de sair de casa pela manhã pra tomar um gole de cachaça.

Elias Franco cumprimentou um casal que passava por ali. Apesar da rudeza, parecia ser um homem de boa convivência, até meio bonachão. Mas seu olhar vazio, pálpebras semicerradas, suspiros ansiosos, faziam-no parecer um cretino confesso. Iniciava suas sentenças com uma intensa sucção de ar: – Já vou entrar no assunto das cabeças, mas primeiro devo falar de um leão – ele toma um gole de seu copo de suco, um dos últimos goles, esperando a reação do outro. Como não há nenhuma – o libanês parecia mais frio que a brisa daquela manhã – ele continua: – Anteontem foi encontrado um leão morto perto do mosteiro.

– Não sabia que neste país existiam leões – brincou Hisab.

– São raros – respondeu o inspetor, fingindo não ter entendido a provocação. – Trazidos da África de barco e vendidos para os circos. Eles chegam aqui em péssimas condições, magros, famintos e fracos, e são vendidos por um preço até que razoável. Daí os domadores cuidam deles com rações, deixam eles um pouco mais robustos, mas no final o problema todo continua. Os coitados continuam fracos demais, porque três quilos diários de carne bovina não se equiparam a trezentos quilos de carne de zebra.

– Entendo. Mas qual seria a relação, inspetor? O que eu tenho a ver com tudo isso? Com todo o respeito, mas o senhor daria um excelente teatrólogo, contando todos esses detalhes…

– É que eu não quero ter que explicar uma segunda vez, professor – disse Franco, sem se abalar com a interrupção. – Por isso estou deixando claro os detalhes que tenho. Antes de entender o trabalho de caça e captura do assassino, preciso que o senhor entenda o contexto em que as notícias da cidade se encontram. O senhor costuma ler os periódicos?

– Sim, leio os artigos. Mas não a sessão da milícia.

– Foi noticiado no artigo principal: “leão aparece morto nos arredores do Convento de Santo Antônio”, ou algo assim. Levaram-no ao laboratório da Academia Imperial de Medicina, perto daqui e da qual espero que o senhor já tenha ouvido falar, e lá examinaram o corpo do bicho. Ficou evidente que ele não foi atacado a pauladas ou com um tiro de mosquete. Ele morreu lutando contra algum animal, porque havia marcas de mordidas e escoriações de garras em tudo que é lugar do corpo. Minha pergunta é: que animal atacaria um leão, se não fosse outro leão?

– Um cachorro bem robusto, talvez? O senhor mesmo disse que o leão estava em condições de subsistência…

– Certo, esse é o detalhe – disse o inspetor, empolgado. Parecia estar se animando a medida que Hisab se mostrava mais interessado no caso. – O leão estava tão fraco que sim, acho que seria possível que levasse uma coça de um cachorro. Mas teria que ser um cachorro com culhões grandes, hehe.

O libanês tirou um relógio do bolso e conferiu a hora. Dentro de cinquenta minutos teria que se apresentar para ministrar aula de Álgebra para uma classe nova – nova pra ele, pois se tratava de uma classe avançada, futuros doutores que logo estariam viajando com o dinheiro dos pais para estudar em Coimbra ou Paris. Não era um tipo de compromisso do qual ele quisesse arriscar um atraso, nem mesmo por uma convocação da guarda imperial.

– Inspetor, infelizmente posso ouvi-lo por mais dez minutos, e então terei que sair correndo.

– Certo. Não vou demorar mais. Estou dizendo tudo isso porque as gazetas estão adorando a história, falando que algum tipo de criatura matou o leão e pode estar ameaçando qualquer um que decida transitar a cidade durante a noite. E, como o senhor pode imaginar, aproveitaram para associar a morte do leão às sete cabeças arrancadas.

– Bem, o senhor falou do leão. Mas não falou das cabeças. Do que se trata?

– Está brincando? Qual periódico o senhor costuma ler, professor? A Gazeta de Lisboa?

O libanês sorriu. Apesar da urgência em ouvir logo o que o inspetor tinha a dizer e cumprir com seu outro compromisso, o encontro na Travessa dos Telles parecia estar divertindo-o imensamente. Josué, em silêncio, ouvia a tudo com a atenção de um estudante curioso, semblante grave e olhar penetrante.

– Os guardas que fazem a ronda no largo do mosteiro encontraram sete cabeças justapostas no rodapé do chafariz – explicou Franco. – Cabeças de verdade. Humanas. Aconteceu esta madrugada. Procuravam o guarda que devia estar de sentinela naquele turno. Egídio Fonseca, era o nome dele. Um rapazote ainda, menos de trinta anos. Deus cuide dele. Sua cabeça foi encontrada com as outras, de cinco homens e duas mulheres, tudo gente de nome.

– De nome?

– Pessoas de fama, conhecidas por algum motivo específico. Uma atriz de teatro, o filho de um rico. Bem, pra que tudo fique bem claro eu precisaria que o senhor me cedesse um pouco mais do seu tempo, professor. Assim poderíamos falar de quem são essas pessoas, eu poderia lhe mostrar suas identidades. Poderíamos elaborar nossa investigação.

– Nossa investigação? – riu Hisab. Depois olhou para seu ajudante: – Dá pra acreditar, Josué? O inspetor acha que vou sair da minha sala de aula no maior colégio deste país pra embarcar numa aventura fantasiosa de Edgar Allan Poe.

O inspetor deu de ombros, enquanto acendia outro cigarro. Tirou uns réis do bolso do colete apertado e jogou na mesa, dizendo pelo canto da boca: – Aí tem quinhentos réis, e com isso vou pagar nossa conta. O império, no entanto, separou um pequeno erário que é cinco mil vezes isto, e nos dará como recompensa se capturarmos o bandido. Acha que isso vale seu tempo, professor?

Todo homem tem suas necessidades, pensava Franco, portanto todos deviam ter um preço. Ele tentou segurar o sorriso quando viu a expressão pomposa de Hisab transformar-se primeiro em um cenho franzido de desconfiança para, logo em seguida, um brilho nos olhos. Por mais perdulário ou humilde que fosse o professor – e saltava a vista que humilde ele não era – ele devia ter algum projeto de vida que pudesse ser suprido por uma fração daqueles dois milhões e quinhentos mil réis.

– Dois contos e meio, é isso? – indagou o libanês. – Desculpe meu ceticismo, inspetor, mas duvido um pouco que o imperador possa cometer este rombo no tesouro nacional.

– Sim. Não pode. Mas, em primeiro lugar, o imperador tem profundo interesse na captura do criminoso. Além disso nossa tarefa é confidencial. Ninguém pode saber que nós dois estamos investigando os assassinatos, assim como ninguém pode saber que só nós dois embolsaremos dois contos e meio sozinhos.

– Um momento. Estamos em três. Josué, meu ajudante, também deve ser pago pelo serviço.

– Um negro? – debochou o inspetor.

Josué remexeu-se desconfortavelmente em seu banco.

– Ele não é escravo. Trabalha pra mim.

– Certo. Então você que lhe pague um salário.

Hisab fez um meneio afirmativo com a cabeça, e disse: – Sim, eu é que deveria pagá-lo, mas veja que Josué não é como os negros que o senhor já deve ter conhecido. Ele será de extrema importância para a finalização do serviço.

– Ah, sim? E o que ele sabe fazer?

Hisab não respondeu. Olhou mais uma vez para seu relógio de bolso, medindo a gravidade de seu atraso, mas com a recompensa do Império prometida pelo inspetor, levando em consideração que houvesse veracidade no valor, poderia ajudá-lo a se mudar para um lugar mais próspero, no norte, talvez. Apesar de já ter se acostumado com o Rio de Janeiro, aquela cidade sempre lhe parecia arcaica, obsoleta demais, congelada no tempo, cheia de hipócritas com ilusões de grandeza europeia mesmo estagnados praticamente na mesma atmosfera cultural e educativa da época colonial.

Ele soltou um muxoxo pensativo, e respondeu: – Confesso que quero participar disso, mas também confesso que gostaria de poder participar enquanto cumpro meu compromisso com o colégio. Acredita ser possível?

Franco tirou o cigarro da boca, e disse: – Talvez. Não posso garantir. Mas, claro, podemos tentar. O que acha de nos encontrarmos para rever o caso dentro de três horas, no salão dos vice-reis?

– Muito bom – respondeu Hisab, levantando-se. Josué fez o mesmo. – Infelizmente estou em cima da hora, senhor Elias. Não queria sair correndo, mas…

– Tudo bem, pode ir – disse o inspetor, ainda sentado. Estava confortável ali, a brisa começando a esquentar, o povo enchendo a travessa, as moças solteiras que moravam nas pensões superiores dando as caras nas sacadas. – Só que antes do senhor partir, gostaria de propor um enigma.

O libanês franziu a sobrancelha, com escárnio. Olhou de relance para Josué, que era o seu jeito de demonstrar que não podia deixar passar uma boa piada, e disse: – Gosto de charadas. Pode falar.

– Não é bem uma charada – o inspetor afastou um pouco sua cadeira e descruzou as pernas. Deu um longo trago no cigarro, e disse enquanto esbaforia uma coluna de fumaça cinzenta: – O senhor conhece mitologia grega?

– Claro. Isso é filosofia básica, inspetor. Assim como é ensinado aqui e na Grécia, aposto que é ensinado na China também. No entanto eu estudei na França, três anos. Conheço qualquer mitologia, de qualquer povo.

– Pois bem. Temos um leão morto, em seguida sete cabeças ordenadas em frente a um chafariz…

Por um momento breve o inspetor não disse mais nada. Apenas sorriu, de um jeito meio débil. Enquanto ele tossia seu convidado aguardava, acreditando que o arremate do mistério viria em seguida, após a pausa melodramática do inspetor. Como não veio nada além daquele sorriso desafiador, ele inquietou-se.

– Conclua, por favor – reclamou Hisab. – Não tenho mais muito tempo.

– Está concluído. Este é o enigma.

O professor ficou olhando para Franco por um momento suficientemente longo para que se sentisse como um idiota. Ou o enigma tinha sido contado do jeito errado ou…

– Meu Deus – lamentou o libanês.

A imagem veio num lapso, todo o espectro do problema. Como um raio cortando o céu um sentimento de aflição lhe acometera, fazendo os cabelos do braço se eriçarem. Era tão óbvio que ele quis dar um murro no próprio queixo para se punir pela lentidão de pensamento. Mas não foi só a auto censura que incomodou o libanês. Se aquela ideia correspondesse à realidade, o tal assassino ainda tinha uma extensa lista de barbaridades a serem efetuadas, coisas que numa hipótese muito realista poderiam até ameaçar a vida de um estrangeiro como ele.

– Que foi, patrão? – indagou Josué. Preocupou-se ao ver Hisab estagnado, pensativo como uma estátua, como se tivesse prendido a respiração por quase um minuto inteiro.

– Primeiro, o Leão de Nemeia – murmurou o professor, mas estava dizendo para si próprio. – Depois, a Hidra de Lerna, o monstro aquático de sete cabeças. O desgraçado quer imitar o herói mitológico Hércules, é isso?

– Muito bom, senhor Hisab – disse o inspetor, batendo palmas. – Porém, sinto dizer que pra quem tem um raciocínio rápido isto não me impressionou nem um pouco. Eu mesmo, que nem me acho tão inteligente, percebi isso assim que fiquei sabendo das mortes, hoje, nas primeiras horas da manhã.

– Bem, eu estava com meus pensamentos no meu compromisso, então não tive a calma para ponderar sobre…

– Entendi – cortou o inspetor, olhando para uma moça de vestido longo e apertado que apareceu na porta de uma pensão próxima. Como muitas outras meretrizes, no início das tardes de sexta-feira ela surgia em busca de clientes abastados, e os identificava observando homens que não tinham que trabalhar em pleno dia de semana. Ela acenou para o inspetor, e ele retribuiu com um aceno semelhante. – Vá cumprir seu compromisso, professor – disse, sem olhar pra ele. – Daqui a pouco nos falaremos novamente.

Hisab afastou-se devagar mas caminhou a passos largos em direção ao colégio, não porque estivesse com medo de se atrasar agora, mas sim porque estava irado.

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