Clube Ahab – Prólogo

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O guarda usava sua casaca marrom, pois a noite era de uma ventania gelada. Carregava um candeeiro na mão esquerda, e com a direita apertava a gola da casaca ao redor do pescoço. O chapéu já tinha voado longe havia tempos.
Há dois anos havia sido convocado à Guarda Velha para integrar a patrulha dos arrabaldes da Rua da Vala. Durante todo aquele tempo, marchando todos os dias, o guarda cumprira sua função com pontualidade e até com um pouco de temeridade – sabia-se que eventualmente escravos fugiam pelo caminho do mosteiro, e perambulavam armados de porrete e facão. Alguns guardas já haviam morrido neste tipo de confronto desde que ele começara o serviço, mas ele tivera uma boa dose de sorte nos últimos vinte e três meses. O maior crime que teve que conter foi o dos vagabundos bêbados que tentavam urinar no chafariz da praça.
Naquele dia o vento estava tão forte que era difícil ouvir qualquer barulho vindo de mais que uma dezena de metros adiante. Havia apenas um poste de luz para alimentar toda a praça, que era larga e obstruída por alguns prédios antigos, então os guardas eventualmente tinham que caminhar por toda a extensão da rua com uma lanterna na mão. Quase sempre se tratava de uma vigília inútil, nunca acontecia nada demais; grande parte destes guardas, quando em pernoite, negligenciavam o serviço e se punham a dormir nas guaritas.
Egídio, o guarda daquela noite, prezava a retidão em seu trabalho.
Por isso saiu da guarita com o candeeiro e fez força contra o vento para chegar até o início da Rua da Vala e retornar. Era um trajeto rápido, vinte minutos no máximo, e só precisava ser feito meia dúzia de vezes durante a madrugada. Embora houvesse uma grade horária para que estas marchas fossem feitas, Egídio decidiu acelerar a próxima patrulha, porque tinha ouvido – ou acreditava ter ouvido – o barulho de rodas riscando ladrilhos ao longe.
Não precisou chegar até o fim da rua para identificar de onde viera o barulho. De uma esquina surgiu uma carroça pequena cujo arreio era puxado por um cavalo apenas e guiada por uma figura vestida em fraque negro, usando um chapéu de aba arredondada e larga. A figura trazia em uma das mãos o cinto de couro do animal, e na outra erguia uma espécie de bastão de ferro aparentemente ornamentado devido ao seu formato serpentino, mas com certeza muito enferrujado, descascado, cor de bronze. Em sua ponta havia um suporte, e ali, dependurado, um lampião cuja luz era de um azul pálido.
– Boa noite – disse a figura. Sua voz chegou bem baixinha, porque o sopro do vento entre os prédios emitia um assobio agudo e muito alto.
Nem a luz do lampião nem o candeeiro do guarda eram suficientes para identificar o rosto do carroceiro nas sombras.
– Identifique-se, por favor – gritou o guarda. Completou: – Não é permitido a civis que transitem nesta área durante a noite.
O estranho pulou da carroça e quando se eriçou, se recompondo do pulo, pareceu tão grande que Egídio por um breve momento pensou que ele fosse gigantesco. Mas não. Era só o efeito de sua sombra na parede externa de um edifício. Com o lampião ainda agitado, rodopiando depois do pulo, o estranho anexou o bastão em uma fenda de ferro que havia na lateral da carroça e o som do ferro contra ferro ecoou na encruzilhada. Daí, com o brilho estável da luz, o guarda viu que o estranho não era tão enorme quanto sua imaginação desenhou, embora fosse anormalmente grande. Podia dizer com segurança que ele devia medir uns dois metros de altura.
Imediatamente Egídio levou a mão direita ao coldre, o dedo polegar esfregando levemente o cão de seu revólver Colt.
O homem se aproximou sem pressa, e uma vez que se pusera a uma curta distância do guarda, enfiou uma das mãos dentro do fraque, revirando os bolsos, no exato momento em que Egídio sacou sua arma e apontou. Ainda de cabeça baixa, procurando, o rosto escondido pelo desmesurado chapéu, o estranho não viu que o guarda apontava um calibre 44 na exata direção do seu coração, o cão já armado e o cano prateado brilhando sob a luz do candeeiro. A ventania forte dificultava a estabilidade da mira, mas não tinha como errar àquela distância.
Para a surpresa do guarda, o homem puxou somente um envelope. Rapidamente ele guardou o revólver de volta no coldre, ainda sem ousar tirar a mão de sobre o cabo de madeira. Esperou.
– Minha identificação – disse o estranho. – Isso atesta que tenho autorização para ir e vir, em qualquer lugar da cidade.
Com muito receio Egídio tirou a mão do revólver para desenrolar o lacre do envelope. Mesmo com o homem a um metro de distância de si ainda era muito difícil ver o seu rosto, pois a aba flácida do chapéu lhe caía sobre o fronte, tapando metade da face. O guarda desembaraçou o cordame, mas subitamente um frio lhe subiu a espinha: o envelope estava aberto, e era possível ver a cera do selo do Império no flanco de abertura. O sinal estava lascado e gasto, mas o brasão do Magnânimo se fazia claro como a luz do dia.
– Merda – lamentou Egídio. Puxou o documento de dentro do envelope e leu o nome de seu portador. Seu coração bateu tão forte que ele achou que fosse desmaiar. – Olha, deve me perdoar, senhor. Eu não sabia que se tratava do senhor…
– Entendo – respondeu o estranho. Agora, estando mais próximo, era possível ouvir sua voz com clareza. Uma voz gutural, estranha, e ainda assim muito serena.
– Eu realmente peço perdão, senhor. Estava só fazendo meu trabalho.
– Eu entendi, filho. Não se preocupe.
O homem girou nos calcanhares e fez o caminho de volta, até parar na traseira do plaustro. Egídio o seguiu com os olhos. Estava nervoso demais para tomar qualquer decisão, e sentia suas pernas tremerem tanto que poderia cair no chão úmido no próximo minuto. Fizera o que se esperava de um guarda, agira corretamente com seus parâmetros de trabalho, mas mesmo assim, fosse aquele homem quem dizia ser, poderia acabar na sarjeta junto com sua esposa unicamente por não dizer boa noite a uma autoridade imperial.
Ainda não sabia o que um sujeito daquela estirpe fazia conduzindo uma carroça, e no momento em que pensava nisso, o estranho fez um gesto pedindo que o acompanhasse. O guarda levantou o candeeiro e caminhou devagar até chegar nas rodas traseiras do veículo. A figura de chapéu apontou para um saco de cânhamo volumoso, manchado e sujo, que jazia ali.
– Prossiga com seu trabalho.
– Senhor?
– Deve continuar com a conferência – respondeu o homem, tranquilamente. E apesar de toda a sua aparente calmaria, sua voz era assustadora. Egídio devia estar se perguntando se aquela pose ameaçadora era proposital. – Confira minha carga.
– Acho que não há necessidade, senhor.
De forma abrupta o homem segurou o guarda pelo cós da calça, trazendo-o violentamente para perto de si. O guarda deu de cara com o tórax do homem, e agora, olhando de baixo, podia ver seu rosto claramente. Queixo quadrado, pele branca como cera de vela, olhos horrivelmente injetados e avermelhados. Enormes e espessas costeletas lhe escorriam pelas laterais, até bem abaixo da linha do nariz. Parecia jovem, mas já estava quase completamente grisalho.
Respirava pesadamente.
– E se eu estiver trazendo um escravo dentro daquele saco? – perguntou. Ainda segurava firmemente o cinto do guarda, com uma das mãos. – Sabe quanto custa um escravo?
– Sei que é bastante, senh…
– Muito mais do que você vai ter na vida – interrompeu o homem. – Quanto é o seu salário, filho? Um mil réis?
O guarda não respondeu. Sabia que devia ficar em silêncio, e tentar fugir de qualquer armadilha. Talvez fosse preso, isso, não seria tão ruim assim! Poderia ser preso e quando saísse, meses depois, pediria ajuda a um tio comerciante e, também com a ajuda de Deus, abriria seu próprio negócio.
– Mesmo pra um homem rico, um escravo vale muito. Um crioulo saudável pode ser vendido nas feiras por pelo menos quatrocentos mil réis. Se for muito forte, talvez por um conto! Imagine se cada guarda estúpido como você decide negligenciar seu trabalho, o quanto a economia do império seria prejudicada ao se perder, quem sabe, dez crioulos em um mês. O imperador mandaria arrancar sua cabeça, sem direito a julgamento.
– Bem, veja, senhor – balbuciou o guarda. Queria que aquilo tudo acabasse de uma vez, como se estivesse preso em um pesadelo. – O senhor é uma autoridade. Sendo assim eu jamais teria a audácia de examinar seus pertences, mas caso o senhor fosse uma pessoa qualquer…
– E o que me faz melhor que os outros? – interrompeu novamente o homem, mas desta vez sua voz não passava tranquilidade. Ao invés disso vociferava, e seus gritos reprimiam o canto agudo do vento. – Um título familiar? O meu maldito sobrenome?
Egídio voltou a silenciar. Não sabia o que responder, e na verdade, qualquer coisa que respondesse poderia acarretar em sua reclusão na cadeia, ou ainda nas masmorras subterrâneas, um lugar sobre o qual as mães falavam para assustar os filhos, mas que ninguém sabia se de fato existia. Respirou fundo quando o homem o soltou, e até se afastou um pouco, mas não o suficiente para ser repreendido.
E mais uma vez o rosto voltou a cobrir-se em sombras.
– É por causa de pessoas como você que o mundo afunda na escuridão – disse o homem. – Você é um monstro. Um homúnculo corcunda que se arrasta diante de quem lhe parece superior, e assim, permite que a pequenez e a ignorância impere no subúrbio dessa cidade imunda.
– Senhor…
– Cale-se! – ordenou o homem, e apontou para a carroça. – Desamarre o saco e veja o que eu trago ali dentro. É uma ordem.
E talvez, mesmo que por alguns breves segundos, Egídio soube o que devia conter naquele saco. O tom ameaçador do homem, as manchas pontuando o saco puído, o fedor – só naquele momento se dera conta do odor absurdo que preenchia o beco, mais forte do que o odor da vala que cortava a cidade, mais forte do que o cheiro das centenas de ratos mortos que boiavam no aqueduto. Na abertura do saco uma nuvem de moscas sobrevoava, fazendo força contra as intermitentes lufadas de vento, e o zumbido era inaudível.
Aproximou-se, repousou o candeeiro na caixa de carga da carroça e da forma mais receosa possível abriu a boca do saco, cuja corda que servia de lacre já estava frouxa, sem nó. Vomitou imediatamente, quase sem ter tempo de apontar pro chão, se segurando na lateral do veículo porque as pernas já tinham perdido a força.
Se fosse um pesadelo, era o pior que já tivera na vida.
– Ah, Jesus Cristo – lamentou.
– Há seis cabeças dentro deste saco – explicou o homem, arreganhando a boca da sacola. As manchas do lado de fora, é claro, deviam ser sangue. Ele agarrou o guarda pela cabeça, segurando seus cabelos, e forçou-o a olhar para os corpos semi putrefatos empilhados de uma forma quase organizada. – Olhe para elas! Essas são as seis cabeças de serpente, traiçoeiras e venenosas. Você pode morrer apenas se respirar seu hálito.
– Você… meu Deus, você é lunático?
– Seu hálito de mentiras. O hálito da hipocrisia que sai da sua boca. Derrotando este monstro, estou curando este país. Está vendo? – apontando para cada uma das cabeças, ele explica: – Aquele é Francisco Pelágia, parente do imperador. Aquela é Libélula, uma puta, claro, uma meretriz especialmente querida pelo nosso nobre e fiel imperador. Ah, eu gostaria que o imperador estivesse aqui, a cabeça mais importante, a cabeça imortal.
Então o homem tira de um bolso interno de seu fraque um facão imenso, dois palmos e meio de lâmina, uma lâmina brilhosa e limpa. O guarda se ajoelha e começa a chorar, implorando por sua vida, mas uma última e poderosa lufada de vento, carregada de terra e do cheiro da chuva, abafa completamente o seu grito de agonia quando a arma rasga seu pescoço, e no segundo seguinte, silêncio.
Somente o som das rodas riscando os ladrilhos da capital do Império.

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