Clube Ahab – Capítulo Dois “Bruxa?”

lamparina1

 

 

No momento em que o professor virou a esquina, o inspetor Franco se levantou e foi em direção à mulher que lhe acenara havia pouco. Tinha idade suficiente para ser chamada de senhora, mas ainda era jovem, quase sem rugas no rosto, cabelos longos castanho-claros, ondulados, presos em um coque improvisado por um lápis, com alguns poucos fios clareando. Seus olhos eram verdes, de uma tonalidade escura, muito bonitos, brilhantes, e talvez por saber disso é que ela gostava de se manter sempre fitando firmemente a pessoa com quem iniciava uma conversa. Se decidisse não piscar, seu olhar tornava-se algo agressivo.

Seu corpo era esguio e esbelto. Ela era magra, descarnada digamos, mas quando vestia uma roupa apertada – espartilho e saia longa e justa – parecia excepcionalmente bonita, mesmo não tendo a volumosa compleição a qual a maioria dos homens costuma apreciar numa mulher por aqui.

O inspetor já a conhecia de outros tempos, mas quando se encontrava com ela se sentia sempre do mesmo jeito. Dominado. Queria poder abraçá-la e levá-la pra cama sem ter de dizer uma maldita palavra para convencê-la, simples assim, aurora do homem, clava em uma das mão, “você é minha”, rasgar suas roupas e amá-la com todo amor que ele ocultava em sua pose de ex-militar solitário. Pra quem passara toda a vida lutando, esperando o momento de abater alguém com uma carabina, não era tão simples voltar a ser humano, parar em uma floricultura, tirar umas notas do bolso e comprar um ramalhete de orquídeas.

Além disso, o inspetor não precisava dela para lidar com o caso que tinha em mãos, então, talvez até mesmo sem que se desse conta, disse que necessitava se encontrar com ela para conversarem sobre um assunto importante. Podia muito bem ser um pretexto. Ele convenceu a si mesmo de que não era.

– Eles não vão tentar me expulsar de novo, não é? – disse ela, com voz lamentosa. Não era a primeira vez, e nem seria a última, que um policial viria bater em sua porta com más notícias. Quase sempre os vizinhos relatavam atividades estranhas na Pensão da Agnes, não relacionadas a suas atividades de meretrício, o bom povo da Travessa já estava acostumado, mas alguma coisa envolvendo religião. Nos arredores diziam que ela, Senhorita Agnes, praticava a arte da bruxaria, chamavam também de satanismo, e por causa da bruxaria conseguira tudo que tinha: pensão, empregados, prostitutas a seu serviço. Diziam que seu nome era Agnes Raia somente quando precisava se apresentar a um homem abastado, de renome nos círculos de Alta Classe, mas quando ela recebia os feiticeiros de seu culto demoníaco era chamada de Locusta, a Advinha.

Era um boato que pode parecer um tanto ou quanto ridículo, e que muita gente costumava levar a sério. A polícia era acionada eventualmente para fazer uma batida surpresa na pensão, procurar ossos humanos sob as camas das moças, sangue borbulhando sobre um braseiro no quintal. Com exceção de um filtro de sonhos Ojibua pendurado em um dos quartos, nada que infligisse a lei foi encontrado lá.

Franco fez que não com a cabeça, passou por ela e entrou no estabelecimento.

O que havia ali dentro eram mesas sem toalha e cadeiras viradas, o chão de madeira ainda úmido, brilhando pela cera da lavagem matinal. Longe do horário de funcionamento o bordel realmente parecia uma pensão, bem diferente de quando as cortinas vermelhas eram arriadas e o lugar virava um cabaré minúsculo para um grupo muito seleto de homens do Paço Imperial, ou de quem quer que viesse com a carteira recheada de réis. O inspetor pegou uma dessas cadeiras e se sentou. Agnes cruzou os braços e colocou-se poucos passos adiante.

– O que você quer, policial?

– Meu nome é Elias, lembra? Me chama pelo nome.

Ela sorriu, e mesmo sendo um sorriso debochado, daqueles sorrisos imagéticos dos quais o que vale é só mostrar os dentes, o inspetor teve de respirar fundo pra conseguir recompor os pensamentos. Era muito difícil olhar pra ela e não pensar tão somente nela. Toda vez que saía dali, em poucos minutos, ele a esquecia. Quando voltava, se apaixonava de novo. Já estava tão cansado dessa rotina emocional que respirou fundo e fechou os olhos por um momento.

Disse:

– Você entende dessas besteiras de feitiçaria, não é?

Ela riu. Uma risada jovial e animada.

– Você é tão engraçado, Elias.

– Obrigado. Mas responda a minha pergunta: entende ou não?

Aos poucos o sorriso da mulher evanesceu e ela encarou Elias Franco, seguindo com um suspiro. Descruzou os braços para arrumar os cabelos: uns fios estavam se desembaraçando atrás da orelha. Assim como em sua individualidade, todo o seu corpo era de uma rebeldia marcante, embora prosaica. Cabelos caprichosos demais, rosto macilento demais, cintura curvilínea demais. Muita gente acreditava que Agnes fosse imigrante, a pele bem amorenada sim, mas seu rosto tinha um quê de europeu, queixo quadrado, nariz fino. De perfil, parecia algo indiana, nariz adunco, bochechas libadas como se ela estivesse sempre sugando um gole de vinho, pescoço altivo. Por algum tempo o inspetor a encarou, observando seu rosto, pensando uma dezena de coisas, quando foi despertado por um estalar de dedos dela.

– Elias. Você ouviu o que eu disse?

– Perdão. Não. Não ouvi.

– Onde estava? Na lua? Eu disse que tenho dom mediúnico, sim. Porque? Quer ficar rico? Precisa tirar alguém do seu caminho?

Franco a encarava ainda: – Vou fingir que nem ouvi isso.

Ele se levantou e caminhou até a porta. Fechou-a e passou a chave no trinco sob o olhar afrontoso e silente da dona da pensão.

– O falatório lá fora está me impedindo de pensar – disse ele, – além disso, não quero que ninguém ouça o que tenho a dizer. É assunto do governo.

Agnes riu novamente. Para tormento do inspetor, a mulher estava sempre rindo, e na opinião dele, rir era o que a deixava mais charmosa.

– E o que eu tenho a ver com o governo? Ah, claro, com exceção dos marqueses, duques, viscondes, barões e todos esses homens gordos e seus títulos idiotas que vêm procurar minhas meninas pra esquecer de seus problemas. Às vezes me pergunto porque homens ricos precisam barganhar por coito com notas de papel enquanto os bandoleiros do Ancoradouro estão cheios de mulheres disputando sua atenção.

O inspetor pensou naquilo por um momento. A maior parte dos burocratas da cidade não estava nem um pouco preocupada com a administração pública ou com o sucesso da campanha militar no Paraguai. Ao invés disso aguardavam ansiosamente pelas embarcações vindas do Oriente Médio, casco e convés lotados de ópio chinês escondido sob sacas de café, garrafas de aguardente e escravos jovens. Principalmente escravas, meninas que não fossem negras, porque os nobres e seus filhos imberbes estavam entediados em se divertir com gente de uma cor de pele já muito corriqueira, uma etnia avassalada há trezentos anos, e queriam experimentar gente nova. Então alguns bandoleiros, piratas essencialmente, traziam garotas da Ásia e do norte africano para vender aos barões, e estes, por sua vez, vendiam as meninas para os prostíbulos da capital por um preço rentável quando enjoavam delas. Algumas fugiam e pediam emprego longe do covil de seus captores, assumindo novas identidades. A Pensão da Agnes estava cheia delas, nos quartos superiores, lavando o chão, preparando a comida. Havia ali inclusive um grupo de cabaré francês, composto não por francesas, mas por três holandesas e uma mocinha das Ilhas Canárias.

Pelo menos Agnes parecia ser uma boa patroa, então, ainda que precisassem se deitar com alguns dos mais repugnantes magnatas da alta sociedade carioca, nela as moças encontravam um destino um pouco melhor do que serem exploradas e estupradas no subúrbio ou mesmo longe dali, em algum deserto da Eurásia.

– Preciso descobrir uma pessoa – explicou Franco. – Um criminoso.

– E sua capacidade de ir atrás dele é tão pequena que precisa de uma psíquica?

Elias tossiu e riu ao mesmo tempo.

– Eu vou usar todas as armas que puder pra pegar esse filho da puta. Até a sua magia negra, hehe.

– Não desrespeite meu dom, senhor – disse ela, o “senhor” saindo muito mais como um insulto do que como manifestação de respeito. Continuou: – Eu posso me comunicar com os espíritos, e isso é um fato. Posso provar para você, mas nem deveria ter que provar, depois de todos os artigos científicos que saem em Paris a respeito do assunto. Não há magia nisso, muito menos negra. É ciência natural.

– Sim, claro – disse o inspetor, zombando. – Aposto que Louis Breguet se consulta com o fantasma de Pierre Jaquet-Droz na hora em que decide construir mais um de seus belos relógios precisos e artesanais. Ciência!

Agnes franziu o cenho, enquanto tirava um pedaço de casca de pão dos dentes com a ajuda da língua. Podia ser bonita, esbelta e tudo mais, mas sua etiqueta se limitava aos hábitos vulgares das ruas. – Não sei do que está falando, policial.

– Sei que não. Olha, esse é um caso muito especial, muito específico. Se tivessem matado algum dono de armazém ou cocheiro eu poderia muito bem pensar que se trata de mais um caso de vingança, assalto e todo tipo de violência que nós temos nos dias de hoje. Mas o negócio é muito mais complicado que isso. Os jornais só noticiaram o que deu tempo de averiguar antes do sol nascer: sete mortos, suas cabeças alinhadas nas pedras do chafariz de Grandjean de Montigny.

– Que horror – exclamou Agnes, com gravidade.

– Pois é. Certamente a gente da imprensa adora este tipo de notícia. Daí tentam imitar os jornais ingleses com toda aquela emoção deliberada, e exagerada, dizendo que o assassino vai atacar novamente, dando um apelido cômico pro indivíduo. Não demoraram nada para alcunhá-lo de “o Monstro de Grandjean”. O Correio Semanal até lançou o seu periódico dois dias antes do previsto no calendário, com a matéria principal: “Quem é o carniceiro de Santo Antônio?”

– Meu Deus.

– Os ardinas ficam gritando as manchetes sanguinolentas aos quatro cantos e a população embarca na charrete deles, como dizem por aí. Todavia, por mais que eu quisesse muito que tudo isso fosse boatagem, eu mesmo vi as cabeças lá, eu vi os homens da limpeza erguendo-as pelos cabelos a fim de jogá-las num saco preto, então entendi que era tudo verdade e que o caso teria que ser resolvido o mais rápido possível. O próprio senhor Marquês de Castello Vermelho mandou me chamar no quartel depois de se reunir pessoalmente com o imperador, propondo-me o serviço. Uma das vítimas é aparentada deles.

Ela esticou os lábios num sorriso cínico. Suas expressões eram parte importante em seus rompantes de comunicação, quando tentava parecer superior, ou pelo menos quando tentava parecer uma mulher mais perspicaz do que as que o inspetor conhecia.

– Está tentando me impressionar, ou essas coisas que está dizendo são de verdade?

– Pura verdade.

– E você está me contando tudo isso assim? Sem ressalvas?

O inspetor mordeu o lábio inferior, pensativo.

– Que quer dizer com ressalva?

Agnes puxou uma cadeira para se sentar. Cruzou as pernas e deixou parte das panturrilhas pardas expostas. Na folga não costumava usar meias, nem sandálias, e havia muitos homens que gostavam desse tipo de liberdade em uma mulher. Era o caso de Elias Franco. – Não vai me passar nenhuma advertência? – ela disse, divertindo-se ao ver o esforço do inspetor em manter a conversa como fora desde o início, olho no olho. – Por acaso todos estão cientes de que uma das vítimas é parente do imperador? O que acontece se essa informação sair daqui?

– Claro que não. Estou falando com você porque quero seu parecer. Se a imprensa souber que alguém cujo sobrenome divide o brasão em armas com o imperador foi morto por um louco qualquer, vai distorcer tudo. Os canalhas bem poderão insinuar que o assassino teve motivações políticas, democráticas e todo tipo de merda. Podem dizer que o Solano Lopez entrou escondido na alcova do rapaz armado de espada e começou ali sua vingança pessoal contra o imperialismo. Sabe-se lá o que esses conspiracionistas amantes de Simón Bolívar podem pensar quando souberem que sangue real está sendo derramado na capital, sobre o piso polido do saguão dos vice-reis de Portugal.

– Pare de falar todos estes nomes – reclamou Agnes, desdenhosa, assoviando baixo. Era contumaz quando se sentia ansiosa, e isto queira dizer sempre. O inspetor estivera dando voltas, falando do general disso, do marquês de aquilo, e ainda sequer chegara ao ponto interessante: – O que você quer de mim? O nome do assassino?

– Sim – disse o inspetor. Tossiu a tosse expectorante de praxe, e repetiu: – Sim. Seria ótimo.

– Já entendi que você não acredita nas minhas capacidades. Nem com mil demonstrações de faculdade mediúnica eu poderia provar pra você que estou rodeada de espíritos. O que você veio fazer aqui, de verdade? Eu conheço uma das vítimas, não é?

Encabulado o inspetor fez que sim com a cabeça. Ser representante da polícia tinha incômodas desvantagens, entre elas a missão de levar informações trágicas para entes queridos. Não que Agnes fosse ente de uma das vítimas, mas mesmo como empregadora de uma delas talvez houvesse o pesar da notícia, levando-se em consideração que a patroa tivesse um coração. Não que o próprio inspetor precisasse levar notícias de óbito a uma cafetã, e embora ele negasse, no fundo admitia que estava ali porque precisava vê-la. Poderia ter marcado o encontro com Almachabel Hisab, o libanês, em qualquer outro ponto da cidade, do Paço Imperial ao velho Cais do Valongo, usando dinheiro do tesouro de Dom Pedro II para desfrutar dos quitutes mais saborosos dos restaurantes da Praça da Constituição, admirando as moças fidalgas em frente ao Real Teatro São João a passear de guarda-sol, sob o brilho das mais novas estátuas da virtude sob os pés da escultura do Libertador. Ao invés disso escolhera uma espelunca na travessa já meio decadente da Praça do Carmo, e apesar de submeter sua paz aos burlescos bruxedos de Agnes, a rápida oportunidade de vê-la já lhe causava uma alegria estimulante.

Devia confessar isso a ela e todas essas desculpas poderiam acabar. Mas como ele mesmo sabia sobre si, o treinamento militar lhe dera força bastante para contemplar cabeças decapitadas, manejar uma espingarda e atingir um alvo de palha com uma baioneta, porém nada sobre como dizer a uma mulher que estava apaixonado e que não conseguia tirá-la da cabeça nem por uma merda de um segundo. Nem quando estava longe e o rosto índico dela se dissipava em sua memória.

– Ludmila Silva, este é o nome – ele respondeu. – Sei que ela era conhecida por trabalhar com a companhia Le Masque, mas também trabalhava aqui à noite, usando o nome de…

– Libélula – disse a cafetã, em tom áspero. Não parecia estar chocada com a informação, ou pelo menos não chocada o suficiente. – Sei quem são minhas meninas, Elias.

O que dizer do Le Masque? Bem, aquela era uma companhia de teatro itinerante que vinha se apresentando para a nobreza, executando primordialmente ensaios e peças famosas de Paris e que estavam na moda entre os nobres apreciadores de arte. Suas apresentações haviam ganhado tal proporção, haviam se tornado tão célebres nos ditos “meios artísticos”, que um palco fora montado no pórtico da Academia Imperial de Belas Artes no intento de que o Le Masque conduzisse a tragédia Bérénice – um épico francês que tinha a Roma Antiga como cenário – para um público de burgueses e coronéis que visitavam a capital.

Todo o aparato da peça, espadas de madeira, armaduras e bigas, eram transportados lentamente para a próxima localidade com uma comitiva de uma dúzia atores e atrizes. Sua última parada havia sido no Teatro de São Pedro, programada para três apresentações, duas das quais já haviam ocorrido. Era fácil fazer vista grossa para a morte de uma prostituta, pois haviam homens ricos e descontrolados que numa noite de farra com litros de cerveja ocupando a cabeça podiam exceder os limites de violência contra uma moça daquelas, e afinal, como pensava Franco, de uma piranha ninguém daria falta, mas com uma atriz famigerada a coisa ganhava nova dimensão. Alguém importante poderia dar a falta dela quando Bérénice fosse encenada no futuro.

– Sabe quem teria a intenção de matá-la?

– Qualquer um – respondeu Agnes, dando de ombros. Quando ficava pensativa fazia bico com os lábios e mastigava um figo ilusório, como Franco gostava de imaginar. – Ela era uma das mais bonitas. Tinha uma bunda enorme, e esses branquelos aristocratas adoram isso, sabe Deus porque. Além disso você mesmo disse, ela era atriz, e o que dizem é que atrizes sabem do que os homens gostam na cama. O resultado disso é um pouco perigoso. No caso dela: uma vintena de clientes perdidamente apaixonados, que enriqueciam nossos cofres, certo, mas também acabavam com a nossa paz. Tinha gente que batia na porta, no meio da madrugada, oferecendo uma pataca só pra eu acordar a garota, rapazes muito novos, bêbados, que não tinham nem pelo no… você entende.

– Acha que um cliente desses pode ter querido matá-la por ciúme?

– Não só acho como tenho certeza.

Franco tirou um pedaço de papel dobrado do bolso interno do paletó. Sacou um lápis do bolso da calça, molhou a ponta com um pouquinho de saliva e começou a escrever. A mulher arfou, já cansada do inquérito do inspetor, porque lá fora o coração da cidade batia forte, pujante, cheia de potentados dispostos a perder altas quantias em dinheiro em troca da companhia de damas como as moças que ela gerenciava. Duas ou três, inclusive, já haviam descido as escadas e lançado um olhar interrogativo para ela, mas Agnes as dispensou com um aceno, porque afinal não seria nada sensato recusar a visitação de um homem do governo. O trabalho poderia esperar. Homens assim tinham o poder de fechar qualquer estabelecimento, ainda mais quando este homem estava caçando um inimigo do império.

Ficaram quietos por um tempo enquanto o grafite riscava as anotações do inspetor, e por fim foi ela quem quebrou o silêncio: – Está tomando nota da nossa conversa?

– Sim. Agradeço também se puder me dar a lista de todos os clientes da moça. Da Libélula.

– Ah, você deve tá brincando, só pode – Agnes se levantou, caminhando até a porta. – Quantos homens você acha que entram aqui e escrevem seu nome verdadeiro nos livros de visitas? Eu duvidaria que pelo menos um nome escrito ali correspondesse ao sujeito certo. Eu não sei o nome de nenhum frequentador daqui, Elias, a não ser o seu nome… se é que você se chama Elias de fato.

Ele se levantou também. – Sete cabeças, minha querida. Eu falei desse terrível assassinato em massa, e você nem sequer fez uma cara feia. Ou você não tem coração, ou soube do caso antes que eu lhe falasse. Ou coisa pior.

– Do que está falando agora? É claro que eu lamentei essas mortes horríveis. Lembro-me muito bem de dizer “que horror”.

– Você disse. Com a boca. Não com o rosto.

Agnes revirou os olhos. – Eu sou médium, Elias. Estou acostumada em lidar com a morte. E porque está me incomodando com isso? Eu sou suspeita do assassinato, por acaso?

– Acho que você não quer comprometer os suspeitos, está tirando o corpo fora e isso é decepcionante. Sinceramente – caminhando até a porta, o policial ainda deu uma última olhada para os fundos do salão, onde uma garota os observava, de rosto sério. Parecia estar aflita, mas pela distância e pela brevidade da troca de olhares, ficaria difícil saber. Elias tinha sim autoridade para ordenar o fechamento da pensão e forçar o interrogatório das prostitutas, mas aquele poderia ser um passo perigoso de se dar. Em retaliação Agnes poderia espalhar a notícia da morte de um homem da corte, e isso destruiria suas chances de receber o esperado galardão por parte do Império, a meta de manter tudo em sigilo. Prosseguiu, dizendo: – Sinceramente, espero não ter que voltar aqui no intuito de arrancar mais alguma informação sua. Mas eu tenho que seguir pistas, e minha próxima parada é o grupo de teatro onde nossa querida Libélula fazia um trabalho mais culturalmente importante do que o que se faz aqui.

– Com todo respeito, inspetor – ela disse, abrindo a porta com um puxão violento da maçaneta. – Vá se foder.

– Só espero não acabar sofrendo as consequências de ter que encarar esses rufiões que protegem essas bichas mambembes – ele se aproximou o máximo que pode do rosto dela, a distância de um palmo, como se fosse beijá-la, mas ao invés disso deixou que ela ficasse com suas últimas palavras carregadas de animosidade – se eu ganhar um murro na cara, um golpe que seja, volto e te dou o troco. Você tá me entendendo? Fecho essa espelunca de merda e você vai ter que se arrastar na sarjeta e implorar pra um mendigo te dar um pouco de lixo pra comer.

Ela engoliu em seco.

– Você não faria isso, Elias. Não faria isso comigo.

Era quase uma pergunta. Mas como não foi, o inspetor partiu deixando-a reticente, pensativa, escorada no umbral da porta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s