CLUBE AHAB – CAPÍTULO CINCO “NO SALÃO DOS VICE-REIS”

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O chamado Salão dos Vice-Reis já não era o salão dos vice-reis havia muito. Mas ainda tinha quem quisesse chamá-lo assim devido à pompa, ao peso fidalgo de relacionar qualquer edifício clássico à velha monarquia, assim como os mais velhos ainda costumavam referir-se ao local como a Casa dos Governantes.

Algumas pessoas costumavam se reunir ali, com a concessão dos guardas do Império, quando optavam pelo sossego em detrimento da balbúrdia e o vozerio, quando queriam fugir dos acordes de chorinho dos bares próximos, sempre que precisavam conversar sobre algo importante demais para ser dito aos ouvidos do populacho. Quem usava a casa para assuntos confidenciais costumava dar preferência à sala conhecida como Pátio dos Arqueiros, que era uma área relativamente larga, e mesmo assim sufocante, com uma varanda rodeada de portas de madeira brilhantes como que recém envernizadas, sem janelas. No teto havia uma claraboia abobadada por onde entrava a luz do sol, e somente por ali era possível perceber a luz do dia. Embaixo, no primeiro andar, o chão de madeira tinha um símbolo gravado bem em seu centro, um octógono com o que parecia ser, a primeira vista, uma flor. Numa segunda olhada qualquer um poderia perceber que se tratava não de pétalas, mas sim das pontas de oito fechas, divergindo de um único ponto.

Sobre este sinal estava Almachabel Hisab. Ele não sabia do que se tratava o Pátio dos Arqueiros ou que valor cultural aquela sala tinha para o palácio da nobreza, e, depois de quase uma hora parado naquele lugar, seu interesse nisso caiu vertiginosamente. Ainda podia ver um pálido raio de sol iluminar a claraboia lá no alto, enquanto a luz se refletia no vidro do seu relógio de bolso, indicando o atraso absurdo do inspetor Elias Franco para o encontro a que tinha se comprometido. Se pelo menos tivesse alguém ali dentro, junto com ele, confabular poderia ser uma boa opção para compensar a espera, mas Josué foi impedido de entrar pois, segundo o guarda, ele não tinha uma carta com o selo imperial, ao passo que o libanês tinha.

A carta nada tinha a ver com a permissão de entrada. Josué ficou para trás pela cor de sua pele, e pensar nisso junto aos outros problemas fazia com que Hisab fosse vítima de uma enxaqueca que lhe era comum. Com certeza a dor passaria com uma boa dose de cerveja na Travessa do Telles. Aquele dia não seria marcado como a primeira vez, nem a última, que ele iria para as cantinas para jogar conversa fora, não com um copo de suco de maracujá, mas com uma caneca de cerveja prussiana e um corte gorduroso de costela. Ainda que não entendesse a música brasileira, admiraria as dançarinas de maxixe rodopiando suas saias, tocando as canelas de seus parceiros de uma forma lasciva, sorrindo e entoando suas gírias que deviam ter nascido em raízes africanas. No entanto, ali dentro, enfurnado na companhia de paredes de pedra e formas argilosas grudadas sobre as portas, sua esperança de estar caminhando para um trabalho lucrativo minguava como o ar dentro do recinto.

Claro que havia ali uma antessala, que em algum momento do passado devia ter sido um lavabo, e lá era possível se sentar confortavelmente em uma das vinte cadeiras com recosto em couro, mas o libanês já não podia aguentar a espera. Estar preso naquela sala era como estar preso num conto insano de Lewis Carroll, muito diferente dos espaços arejados do colégio, o abafamento do som produzindo um zumbido fastigioso em seu ouvido. Além do mais, o ruído, o silêncio e o céu redondo e crepuscular lembravam-lhe do que passara no Líbano, poucos anos atrás, quando presenciara um horror que os brasileiros jamais poderiam compreender.

Os passos de sapatos o trouxeram de volta da mortalha da guerra otomana que caíra sobre sua memória. Ele rezou, em voz baixa, pedindo para que os passos fossem do Inspetor Franco, mas para seu infortúnio um guarda sem expressão apenas viera lhe falar: – Faltam cinco minutos para acabar o horário de visitação.

Hisab sorriu, cansado.

– Tudo bem. Pode me levar à saída?

– Certo – respondeu o guarda, mas antes de caminhar, perguntou: – Se importa em me dizer quem o senhor estava esperando? Ninguém vem conhecer o Paço sem uma companhia.

– Um inspetor de polícia. Imagino que tenha uma boa explicação para um encontro longe de tudo e de todos.

O guarda concordou.

– É porque as pessoas não estão dispostas a andar sozinhas por aí depois… – o guarda abaixou o tom de voz – depois que encontraram aquilo no chafariz da Rua da Vala.

O professor não prestou muita atenção ao que o guarda acabara de lhe dizer. Ao saírem do Pátio dos Arqueiros chegaram a uma sala onde haviam duas escadas subindo em parábola para o segundo andar, e ali, nas paredes um quadro exibia gravuras em tecido dos brasões de armas das principais famílias portuguesas, e as primeiras a se assentar no Brasil. Hisab apreciava os desenhos dos brasões, formas simples mas de um minimalismo bem interessante. A maioria dos brasões tinha o mesmo desenho: um escudo sob um elmo, uma águia sobre o elmo, uma combinação basilar de duas cores.

O quadro estava protegido por um vidro preso num molde de estuque. Não demorou para que o visitante percebesse que havia outros quadros como aquele, com uma infinidade de brasões e um sobrenome indicando a que família aquele símbolo pertencia. O maior deles estava em um quadro central, no alto, e era um escudo erguido por duas criaturas que pareciam ser dragões, laureado por uma coroa real enquanto de sua base pendia uma cruz romana. O emblema dos reis estava bordado por cores vibrantes – o nome da Casa de Bragança recebera linhas douradas sobre uma bandeira de fundo vermelho e azul.

Ele chegou mais perto do quadro, porque lá fora já escurecia e os lampiões ainda não tinham sido acesos. Tentou ler o que estava escrito sobre um brasão xadrezado em prata e azul.

– Estes vieram do ateliê heráldico, no início da semana – explicou o guarda. – Eu não vejo muita beleza nisso, se me perguntar, a não ser o brasão da família do imperador, que é belíssimo.

Hisab fitou-o com o canto dos olhos.

O guarda seguiu: – Este que você está vendo é dos Alcoforados. Me pergunto porque bordariam isso, se não há ninguém com esse sobrenome por aqui.

– Deve existir alguém do marquesado com este nome – respondeu o libanês, rapidamente. – Algum título menor.

O guarda pontuou a conversa com um pigarro, porque precisava dizer ao visitante que o horário para visitas já havia estourado. Em situações rotineiras ele agia com frieza, emitindo a ordem de evacuação definitiva sem direito a querelas, mas desta vez a situação era diferente. O homem de feições orientais diante de si trazia uma carta com o selo do Império – que não deixava claro se o soberano esperava que seu portador pudesse ir e vir pelas dependências do Paço –, além de ter mostrado, pouco antes de passar pelos portões, sua identificação como professor do Imperial Colégio. Nada disso servia como alvará de entrada, e mesmo sabendo disso, os guardas não tiveram coragem de impedi-lo. De vez em quando algum governante descia de um cabriolé luxuoso trazendo um convidado europeu, ou algum rajá de uma terra muito distante, pra lá da Costa Pirata, onde nem os navios portugueses tinham mais coragem de ir.

Mesmo assim, era seu dever encerrar o trânsito de curiosos quando badalava o sino da Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Desde 1850, quando um mestre em desenho da Academia Imperial de Belas Artes terminara por fim a construção da igreja, fincando as últimas torres azulejadas sobre suas colunas frontais, o som do sino finaliza o expediente de trabalho de milhares de cariocas.

– As noites estão perigosas, senhor – disse o guarda. Raciocinou rápido para inventar uma desculpa boa suficiente para expulsar o libanês dali. – Ontem a polícia encontrou pessoas mortas nas proximidades da Rua do Cano. Todos os jornais falaram disso. O distrito policial da corte bem que tentou abafar o caso, mas todos já estão sabendo.

– Estou sabendo – respondeu o professor, como se estivesse comentando sobre o clima dos últimos dias: – Sete cabeças, certo?

O guarda olhou para ele, espantado.

– Deus, não! Espero que isso seja só um boato. Como a cidade inteira transformou isso em uma grande festa, uma algazarra de disse-me-disse, estão inventando tudo que é tipo de fantasia pra dizer o que aconteceu. Chegaram a dizer que os corpos estavam costurados uns nos outros, para parecer com um único corpo humano gigantesco. Eu nem consigo imaginar isso.

– Onde quer chegar? – disse Hisab, impaciente. – Eu sei que já deu minha hora, mas veja…

– Devo recomendar que o senhor não fique aqui sozinho – interrompeu o guarda, tocando no ombro do professor. Este deu um passo para trás, afastando-se. O guarda, aparentemente não ofendido, continuou: – Em nenhum lugar é seguro circular sem uma companhia até que o assassino seja identificado.

– Meu ajudante, Josué, seria uma boa companhia – Hisab passou da impaciência à irritação. – Mas vocês fizeram o desfavor de impedi-lo na entrada.

– Ele é negro, senhor.

– Então o racismo aqui faz parte do protocolo?

Antes do guarda responder, passos vindos do corredor chamaram sua atenção. Não havia motivo para que um segundo guarda viesse ao salão, mesmo com a voz alterada do Professor Hisab ecoando pelo palácio, já que pelo menos um homem de sentinela deveria estar em prontidão nos portões da frente. Já estava relativamente escuro e ninguém tinha vindo acender as lamparinas, e o vulto que vinha ao longe também não trazia luz consigo.

Ele reagiu sacando uma garrucha que trazia presa ao cinto e apontou para o escuro. Sem saber muito bem o que fazer Hisab deu um passo para trás e protegeu-se à sombra do guarda, que era bem mais robusto e mais alto que ele. Só quando falou “patrão” em voz alta, timidamente, é que o professor identificou quem era, ainda que não pudesse vê-lo.

– Josué?

– Você não tem permissão para entrar aqui, negrinho. Quer ser preso? Aposto que o presídio é um lugar muito mais cruel do que o engenho de onde você fugiu…

– Cale a boca – disse Hisab, empurrando o guarda e andando para a frente. – Desculpe, Josué, mas o maldito inspetor não apareceu. Eu já estava indo encontrá-lo para irmos embora. Não dê ouvidos para inúteis como esse guardinha…

– Patrão – interrompeu Josué, metendo a mão nos bolsos. Tirou dali um palito de fósforo de fricção e o acendeu. O artefato chiou até que se tornasse uma grande chama, a qual Josué protegeu de uma leve brisa com uma das mãos. A luz iluminou seu rosto grave quando ele deu a notícia, sem sequer tentar suavizar sua declaração: – O inspetor Franco está morto.

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