The Witcher – Uma Breve Análise

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Eu sou um entusiasta dos video games, gosto de saber das últimas novidades desse universo e até assisto, raramente, alguns vídeos de gameplays no Youtube. Quando consigo economizar uma grana compro algum lançamento e destrincho o jogo, e no meu caso, sendo eu um escritor por hobby, dou preferência aos jogos que tenham um roteiro denso e interessante. Portanto prefiro os RPG’s. Foi assim que cheguei ao incrível trabalho da CD Projekt RED chamado The Witcher 3: Wild Hunt.

Infelizmente não tive a oportunidade de jogar os games anteriores da série, mas com a ajuda de algumas resenhas na web, onde se dizia que não era necessário ter se aventurado nestes games anteriores para entender a trama de The Witcher 3, tomei coragem e baixei esta pérola para o HD do meu Xbox One. Ainda bem, porque The Witcher 3 é um dos melhores jogos que tive o prazer de experimentar nesta última geração de consoles.

Mas calma: eu sei que esta é uma resenha de livro, não de video game. Mesmo assim é necessário explicar porque o público brasileiro teria acesso aos livros da série criada pelo polonês Andrzej Sapkowski, uma vez que as editoras desta nossa querida nação não parecem muito interessadas em lançar algo que não seja massivamente mainstream. No que diz respeito às obras de fantasia e ficção fantástica, tanto pior; os pobres livros precisam mesmo provar o seu valor! Mas vamos deixar este desabafo de lado e esclarecer que o que me levou à busca dos volumes de The Witcher já lançados no Brasil foi a consistente história apresentada no game, muito envolvente e que mostra uma simpática dualidade na personalidade de seu protagonista, o bruxo Geralt de Rivia: até os últimos momentos da narrativa eu não pude decidir se Geralt era herói ou anti-herói.

Os livros me ajudaram a entender isso.

Antes de falar sobre o primeiro volume da série, chamado “O Último Desejo”, preciso dar uma pausa breve para contar sobre como consegui comprar os quatro primeiros volumes. No bairro onde eu resido infelizmente não há livrarias (no momento em que escrevo este artigo, lembro que há uma única livraria no shopping center local, porém esta é extremamente limitada em títulos – há somente os pop best seller que, no geral, não me interessam). No centro da cidade onde eu resido, costumeiramente chamada de “maravilhosa”, existem sim maravilhosas livrarias mas, para minha surpresa, em uma viagem até lá eu acabei perdendo meu tempo porque, pasmem, não tinha nenhum volume da série. Curiosamente existem duas edições distintas da Martins Fontes para os primeiros livros, ambas com lançamento em 2015, porém encontrá-las é uma missão árdua tal qual as quests de Geralt no jogo. Meu último recurso seria comprar na Bienal do Livro, já que o serviço dos correios na minha localidade está péssimo nos últimos meses, e, claro, seria tão mais fácil adquirir os livros pela internet…

Na bienal uma nova decepção: havia somente dois livros disponíveis (“O Último Desejo”, “O Sangue dos Elfos”), e isto no stand da Saraiva. Nos dois stands da Editora Martins Fontes (sim, tinham dois!) não consegui encontrar nenhum volume da série, o que me deixou espantado. Enfim, comprei os dois livros, me decepcionei novamente porque “O Sangue dos Elfos” era o terceiro da série – ou seja, eu não poderia passar para o próximo após “O Último Desejo” até que eu conseguisse o segundo livro, “A Espada do Destino”, uma nova tarefa hercúlea em encontrá-lo perdido em alguma livraria. Não fossem as boas histórias contadas no game e o enorme interesse da minha parte em descobrir mais sobre quem era Geralt de Rivia e como haviam sido seus primeiros anos como bruxo, provavelmente os contos e romances de Sapkowski teriam passado batidos por mim e eu teria perdido a oportunidade de presenciar um dos melhores trabalhos de fantasia já feitos.

Sim, eu acho que The Witcher, como um todo, é um grande trabalho de fantasia. Embora não seja tão inovador quanto Conan, o Bárbaro e Elric de Melniboné, os precursores do gênero chamado Sword and Sorcery (Espada e Feitiçaria), ou não tenha a avançada dimensão épica dos escritos de J.R.R.Tolkien, The Witcher trabalha de forma muito inteligente com as fábulas, revisitando e repaginando conceitos arraigados na ficção, desconstruindo e recauchutando as histórias trazendo novos valores mais condizentes com o espírito da nossa época. Antes, os heróis dos romances entravam nas cavernas e desciam a lenha no monstro que se escondia lá dentro. Em The Witcher, o herói se pergunta: “este monstro merece morrer?”

“O que me faz mais digno de continuar vivo do que esta criatura?”

Eu li o primeiro livro, “O Último Desejo”, como se fosse um catálogo de revista. A escrita de Sapkowski é tão agradável e tão fácil de digerir que dificilmente alguém não quereria terminar um conto e passar para o próximo de imediato. Ah, sim, porque “O Último Desejo” é um livro de contos, que sofrem uma anexação uns nos outros por conta de um conto específico que permeia todo o livro, chamado “A Voz da Razão”. Neste conto você vê um Geralt de Rivia ferido por conta de um combate mortal contra uma Estrige, este ocorrido no primeiro conto, “O Bruxo”, e durante o livro, durante sua recuperação, Geralt vai recordando os eventos complicados que o levaram até aquela cama de hospital. Com exceção de algumas palavras um pouco mais complicadas, que têm coerência com o ambiente medieval inspirado na história e geografia da polônia, os textos são muito fluidos e agradáveis.

Além disso tudo, o sarcasmo e as piadas em The Witcher funcionam muito bem. Não é como se você estivesse assistindo a um show de stand up comedy, não nesse nível, mas em vários momentos eu me peguei rindo alto depois de ler algum diálogo ou descrição de cena. Geralt é um bruxo – na mitologia de Andrzej Sapkowski bruxos são mutantes que passaram por um árduo treinamento para, quando adultos, estarem aptos a caçar monstros usando técnicas de combate e sinais mágicos; neste caso, bruxo não é o masculino de “bruxa”, o que causa um pouco de confusão no início, mas “The Witcher” (ou Wiedźmin, em polonês), de fato, é uma palavra bem complexa para se tentar traduzir. Os personagens com quem Geralt se depara também são estranhos como ele, mal humorados e beligerantes, e alguns são divertidos, em especial Jaskier (Dandellion nos jogos), um bardo bon vivant que não se importa com nada na vida a não ser escrever poesias e conquistar mulheres. Não se engane: repito que The Witcher não é inovador, na verdade é um poço de clichês, mas somente lendo você vai entender o porquê que neste caso os clichês são ideias magníficas, paródias sobre contos que anteriormente eram levados muito a sério, moralmente falando. Posso citar como exemplo o conto “Um Grão de Veracidade”, que brinca com a clássica fábula d’A Bela e a Fera, ou “O Mal Menor”, onde vemos que uma princesa que morava com sete anões e engambelou um caçador de recompensas pode não ser tão confiável assim.

Somente o último dos contos, exatamente o chamado “O Último Desejo”, que não me agradou muito. Achei-o fraco em relação aos outros, muito direto e sem a leveza que havia me levado até ali, e que, pra piorar tudo, introduziu a feiticeira Yennefer da pior maneira possível. O principal interesse amoroso de Geralt é encantadora nos games – de presença forte, comedida, fria e segura de si. Pelo menos neste conto (e no primeiro conto do segundo livro, o qual eu terminei de ler a pouco e onde ela aparece novamente) Yennefer é uma mulher absurdamente mimada e chata, pedante pra caramba, num nível tal que o autor realmente conseguiu me fazer ter raiva dela. Será que esse foi o objetivo dele? Será que sua ânsia pela desconstrução de estereótipos fez com que desejasse que o par romântico do bruxo de Rivia fosse tão detestável assim?

Bem, este é um daqueles livros em que lê-lo é a única maneira de ter o espectro do quão boa é a obra, ao invés de se prender simplesmente a uma crítica. A principal qualidade em The Witcher, ao meu ver, é a forma magistral que seu autor nos conduz pela fantasia, quase nos levando pela mão, com paciência, mas mantendo nosso interesse até o fim. Em nenhum momento achei o livro enfadonho, em nenhum momento achei uma descrição de cenário ou de personagem algo inútil para o andamento da história, como acontece em muitos livros, inclusive, nos clássicos.

E para terminar deixo um elogio à última edição da Martins Fontes: o livro que eu adquiri é compacto, sem orelhas (o que me agrada mais), páginas de boa gramatura, ilustrações excelentes nas capas e, ainda quanto à capa, ao tateá-la tive uma percepção soft touch nela como nos últimos lançamentos da Editora Darkside. Se foi usado este recurso eu não sei, mesmo assim reforço a excelente qualidade do material.

É isso. Se você curte fantasia, sword and sorcery, RPG e tudo mais, não perde tempo. The Witcher é indispensável.

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