Star Wars / Kenobi

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STAR WARS / KENOBI

Quem tem minha idade assistiu a trilogia clássica de Star Wars quando esta já havia sido lançada há algum tempo, consolidada como uma das maiores séries de filmes de ficção científica até então (senão a maior). Mesmo assim, quando criança eu tinha uma séria dificuldade em conseguir assistir aos filmes de forma coesa: seja porque a televisão aberta não transmitia os filmes – ou transmitia num horário desproporcional para um garoto de sete anos, lá pela meia-noite – seja porque as locadoras do meu bairro nunca tinham disponível o primeiro deles, Uma Nova Esperança. Então eu só podia sonhar em um dia assistir aos três filmes em uma maratona onde toda a história fizesse sentido pra mim, e isso só aconteceu muito tardiamente, depois do lançamento do injustiçado prequel, episódios I, II e III, em uma época onde a internet tornou-se mais eficiente do que qualquer outra dessas mídias citadas.

O mesmo ocorreu com os livros. Para um fã de Star Wars como eu, um fã que já era fã sem entender muito da história mas encantado com os luminosos Sabres de Luz e seus uóns, uóns, ter disponível os livros do Universo Expandido na adolescência seria um prato cheio, embora, infelizmente, o acesso a estas obras também não fosse nada fácil. Eu ouvia dizer, quase como numa teoria da conspiração, que alguém tinha em posse os livros da famosa Trilogia Thrawn (pós Retorno de Jedi) em inglês, ou ainda que alguém possuía cópias em português, mas isso era tão improvável que me soava como lenda.

Felizmente o mercado literário no Brasil está passando por uma mudança84408a02c140d07c0a865860e6ef0d7f promissora, pelo menos no que diz respeito aos livros gringos, e muita coisa boa está sendo traduzida para o português. Se você for da minha geração, se sua infância ocorreu entre os anos 80 e os 90, deve estar antenado nos últimos lançamentos em quadrinhos e livros (muitos deles, relançamentos) perpetrados por editoras como Aleph e Darkside, e no campo dos quadrinhos as reedições de grandes clássicos como “Planeta Hulk” pela Panini, ou os títulos pulp da Dynamite, como “O Sombra” e “Vampirella”. Para nossa alegria alguns títulos de HQ’s do universo de Star Wars estão pipocando nas bancas também, vários deles ao mesmo tempo, diga-se, e é evidente que não tenho grana para comprar tudo isso, então decidi seguir o caminho mais lógico.

Vou me concentrar nos livros de Star Wars lançados pela Editora Aleph.

A minha primeira… digamos, desilusão, foi saber que todos os livros do antigo Universo Expandido foram “limados” da nova trilogia, a se iniciar em dezembro de 2015 com O Despertar da Força. Não foi bem uma desilusão, mas sim um alerta: valeria a pena ler os livros, já que na nova trilogia tudo poderia ser desconsiderado? O recurso que a Walt Disney Company criou foi tratar estes livros como “Legends”, ou seja, apenas lendas que são contadas na galáxia, nada de concreto que vá ser mencionado nos novos filmes. Foi com esse pé atrás que peguei o livro que trazia um dos meus personagens favoritos na capa. Star Wars / Kenobi.

Depois de um tempo lendo as primeiras páginas, decidi que leria sim os outros livros, não para me preparar para o novo filme mas simplesmente a fim de conhecer as histórias já escritas para o antigo universo. Kenobi, aliás, não é um desses livros do século passado como eu me enganara anteriormente. Foi lançado em 2013, pouco antes que George Lucas assinasse a venda dos direitos da franquia para a Disney, escrito pelo roteirista e colecionador de quadrinhos John Jackson Miller, e conta a história dos primeiros anos de Obi-Wan Kenobi como refugiado no Planeta Tatooine, escondendo-se do Império e vigiando, bem ao longe, a família Lars e seu mais novo membro, Luke Skywalker.

Como explica o próprio John Miller na seção de agradecimentos do livro, sua missão era a de fazer uma história western no universo de Star Wars, e eu acho que ele foi bem sucedido. Sua exposição da aridez de Tatooine, o extenso deserto que separa a populosa cidade de Mos Eisley do oásis onde maior parte da história se desenrola, tudo é muito bem definido a ponto do leitor realmente não se perder. Com a ajuda da visão que a gente tem do filme com relação ao cenário, os dois sóis, aquelas casas esquisitas que mais parecem iglus, os banthas e os tuskens, bom, assim tudo fica mais fácil. Então o grande mérito de Miller, na minha compreensão, é o trabalho que ele faz ao definir os personagens e suas personalidades de forma muito bem descritiva. Primeiro, apresentando duas famílias, os Gault e os Calwell, que são vizinhos e têm um bom relacionamento. A preocupação de Miller em nos explicar quem é quem, as individualidades de cada um, é tão grande que Obi-Wan só vai aparecer na história bem mais tarde, e a impressão que eu tive é que, apesar de ele ser o grande herói da trama, sua vida continua com uma nuvem de mistério até o final do livro, e o protagonista é quase que um pano de fundo para a novela.

As duas figuras centrais do livro, além de Kenobi, claro, são Orrin Gault e Anileen Calwell, inicialmente um pretenso casal, mas nada mais do que pai e mãe de famílias distintas, com objetivos igualmente distintos. Orrin é um fazendeiro de umidade que gerencia um projeto social cujo nome é “o Chamado dos Colonos”, e serve, grosso modo, para alertar cidadãos quando ocorre um ataque de tuskens (povo da areia) a alguma casa ou estabelecimento. Anileen, por sua vez, é herdeira de um armazém ali perto, que antes pertencera ao melhor amigo de Orrin, assassinado justamente por um tusken, anos atrás. Durante os primeiros capítulos do livro, você entende a convivência destes dois personagens, uma certa insinuação romântica entre eles, uma amizade um tanto delinquente entre seus filhos, e até que você se acostume com eles Obi-Wan permanecerá oculto.

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Sem entregar spoilers, mas um determinado evento ocorre e o nosso herói sai de seu esconderijo e solidão para fazer o que um Jedi precisa fazer: salvar pessoas. Após um primeiro salvamento (dos muitos de que ele vai estar intimamente ligado), Obi-Wan, já conhecido aqui apenas como Ben, passa a ser considerado uma celebridade no oásis, exatamente o que ele não queria, e durante todo o livro ele tenta fazer parecer-se apenas com um cara comum, sem um passado digno de nota, inventando desculpas para justificar os atos heroicos que se seguem como se ele não tivesse nada a ver com isso. E o que se tem daqui em diante é uma narrativa leve, despretensiosa, enquanto uma investigação silenciosa do Jedi com referência aos ataques do povo da areia vai degringolando, e os moradores fofoqueiros do oásis tentam descobrir quem ele é. Pela primeira vez, pelo menos no que diz respeito aos filmes, há uma certa tensão sexual envolvendo Obi-Wan quando ele se torna o interesse amoroso de Anileen Calwell e, por consequência e contra sua vontade, se torna também rival de Orrin Gault, mas é melhor parar por aqui e deixar que você descubra o resto.

No fim das contas minha desilusão foi se dissipando ao pensar que, muito provavelmente, Star Wars / Kenobi tem uma história tão fechada e tão redonda que dificilmente qualquer evento da nova trilogia de filmes da Disney vá anular seu peso e valor. O livro também é interessante por dar uma consistência mais humana ao famoso Jedi, uma vez que os filmes mostram um Obi-Wan determinado e quase robótico desde jovem, e aqui podemos contemplá-lo sendo um sujeito suscetível às falhas humanas como qualquer outro. Lembra-se do final de “A Vingança dos Sith”, onde o Mestre Yoda instrui Obi-Wan a ir para Tatooine e tentar se comunicar com o falecido Mestre Qui-Gon? Bem, aqui você confere as deliberações do discípulo com seu mestre, em forma de meditação, e dá pra sacar alguns eventos do passado do velho Ben Kenobi, coisas interessantes de quando ele era um padawan adolescente, inclusive.

Sobre a edição da Editora Aleph, tenho apenas uma crítica a fazer. O livro comete vários erros de digitação e ortográficos, provavelmente por má revisão e copidesque. Então é comum passar por palavras repetidas, ou com alguma letra faltando, ou mesmo com uma ordem incoerente de palavras. Erros que, quando cometidos com frequência, prejudicam a experiência da leitura e, no meu caso, incomodam bastante. Quanto à diagramação, capa, qualidade gráfica e gramatura das folhas, tudo ok, o padrão de qualidade que a gente espera de um romance desse porte. Ah, e este livro, além dos outros da série de Star Wars, vêm com um marcador de página em forma de Sabre de Luz bem legalzinho (percebi que só os livros com protagonistas Jedi vêm com o sabre; os outros títulos, como Tarkin e Troopers da Morte, não têm marcador nenhum! Mancada, Aleph).

Kenobi tem uma história consistente, personagens interessantes, e uma proposta diferenciada, onde toda a trama, que vai ficando mais intrincada a cada capítulo, ocorre em Tatooine e tira toda a grandeza épica das galáxias de George Lucas para dar lugar a um conto mais humano, concentrado em um simples lugarejo onde as pessoas estão mais preocupadas em sobreviver, sem qualquer conhecimento de que, lá em cima, um terrível ditador dá cabo de seu plano de esmagar a liberdade e a democracia. Mas para os moradores de Tatooine, com poucos recursos, regidos não por uma lei governamental e democrática mas sim praticamente regidos pelo braço violento do Cartel dos Hutts, a ajuda de um único Jedi experiente pode ser sua última chance, até que uma nova esperança desperte e tenha coragem suficiente para dar voos mais altos.

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