CLUBE AHAB – CAPÍTULO SEIS “JOSÉ ALGUMA-COISA”

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CLUBE AHAB – CAPÍTULO SEIS “JOSÉ ALGUMA-COISA”

Pela terceira vez em cinco minutos o professor limpou a testa com a palma da mão. Estava fazendo um calor no mínimo incomum, porque a noite já caíra depois de um dia nublado e chuvoso, mas o tempo abafado refutava que estivessem em 8 de Agosto, pleno inverno. Ele estava sentindo o suor descer pelo pescoço, deixando sua camisa aderente, o couro da cadeira da Chefatura de Polícia não passando de um material velho, mofado e aquecido contra suas costas. Era como se estivesse sentado em uma placa fina de ardósia sobre uma lareira.

Havia presenciado muito da violência humana quando vivia no leste, depois do Meridiano de Greenwich. Sendo de uma comunidade cristã no Líbano, viu a truculência otomana quando os soldados de elite do Sultão Aziz reivindicou  a tutela de uma centena de meninos da comunidade católica para treinar como força militar em prol do governo libanês. Os garotos eram ensinados sobre as leis do Alcorão, eram levados a admitir que Alá era seu único deus e eram instruídos em como disparar um tiro de mosquete. Mas ele tivera a sorte de jamais participar de algo assim. Antes que as forças do sultão batessem nas casas dos abastados comerciantes cristãos do sul de Beirute, ele fugiu pelo mar, sozinho, com a macabra morte dos pais em sua consciência.

Viera para o Brasil acreditando que se dirigia a um local de paz. Diziam que o povo era feliz, que a gente dali convivia bem entre si, mesmo com uma forte mixórdia étnica, e que os casos de violência – se é que existiam – passariam longe da cidade onde o imperador ditava as regras. Não pela primeira vez desde que chegara, foi decepcionante perceber que os rumores eram só balela.

Dividia a sala com outras duas pessoas. Do outro lado da escrivaninha um guarda civil mantinha-se quieto, taciturno e de cabeça baixa. Estava sentado, as pernas abertas e uma delas a balançar indicando seu nervosismo, os cotovelos apoiados nas coxas e as mãos cruzadas em punho, como se fosse fazer uma oração. Não era possível ver suas feições mas era notório que o homem devia estar muito abalado – sua respiração, pesada, vinha com gemidos baixos e paulatinos.

Logo atrás dele, em uma cadeira encostada na parede, uma mulher mostrava o mesmo estado de espírito do homem depressivo. Porém, em vez de manter a cabeça baixa, estava com o olhar erguido, conquanto mordesse as unhas descontroladamente, apreensiva. Olheiras profundas eliminavam qualquer sinal de beleza. Estava bem vestida e tudo mais, tinha uma postura ereta elegante, mas o cabelo estava desalinhado e seu penhoar de grosso tecido estava salpicado de sangue. Ela parecia ser meio louca, no fim das contas.

Esperava o Chefe de Polícia. Com tudo o que havia acontecido nas últimas horas, um atentado sinistro que vitimou um delegado de renome mediano e a morte de um pracinha, algum rumor fizera vir à tona o nome de Almachabel Hisab, e foi isso que Josué viera lhe dizer no momento em que ele discutia discriminação com o guarda do Paço. Quanto ao sigilo da investigação e o seu prêmio por consequência, agora a coisa toda tomava ares de utopia, cuja realização estava tão distante quanto a visão de uma oásis pacífico nos rochedos de Jerusalém. O libanês sequer teve tempo para decidir se devia evitar a polícia ou se devia se apresentar na delegacia, porque os homens de Lázaro Neto já haviam cercado a Praça do Carmo e o abordado da forma mais abrutalhada possível, como se ele fosse um bandido comum.

Lázaro, chefe de polícia, era um homem alto, de ombros largos, bastante ameaçador, como Hisab pode perceber assim que este entrou de supetão no cômodo. Tinha um grosso bigode cinzento que destoava em sua cara magra, com alguns fios cobrindo os lábios superiores, sobrancelhas vinculadas e igualmente espessas. Tinha um cheiro esquisito de bálsamo pós-barba comum que empesteava toda a sala, ou talvez fosse perfume, porque Lázaro expunha barba de cinco dias, pelos ralos e pontiagudos colorindo a face pálida. Sentou-se em frente à escrivaninha, do lado oposto de Hisab, um pouco a frente da cadeira onde um guarda cabisbaixo permanecia cabisbaixo, mesmo com a entrada do chefe. O libanês, por respeito, se levantou.

– Sem mesuras, Professor – ele disse. – Vamos ao que interessa. Sente-se.

Hisab obedeceu.

– Pedi que seu negro ficasse lá fora, porque não sei se ele pode me ajudar a entender tudo isso. Ele alegou ser alforriado.

– Sim, é isso – Hisab explicou, um pouco depois de uma gaguejada de insegurança. – O nome dele é Josué. Mas ele é meu empregado, então posso responder por ele.

– Muito bom – o chefe de polícia tirou um maço de papéis do bolso do paletó. Vestia um terno marrom riscado horroroso, cujo material, seda javanesa ou alguma porcaria dessas, refletia a luz e fazia o tecido brilhar. O professor se pegou imaginando o quanto aquilo devia pinicar no verão carioca, junto com o bigode escuro que mais parecia um pano sujo para esconder o rosto. Contrariando seu devaneio, o chefe parecia estar confortável em sua cadeira de couro quente, o semblante frio como a água da orla. – Algumas perguntas e logo vou liberá-lo.

Hisab concordou com a cabeça.

– Que negócios você tinha com o Inspetor Elias Franco?

O libanês sabia que mentir seria perda de tempo. Não fazia ideia de quais informações o chefe de polícia tinha, não sabia o quanto a par do caso dos assassinatos ele estava, mas ainda que a investigação fosse secreta segundo as alegações de Franco, seu nome provavelmente aparecera em anotações ou mesmo em alguma nota de pagamento do gabinete do Governo. Como o inspetor havia chegado ao nome de Hisab? Sim, tudo bem, lá nas mesinhas de bar da Cantinalta ele explicou que Hisab ficara famoso como professor de contas do colégio imperial, mas era óbvio que alguém o tinha recomendado, o próprio imperador, ou ainda outra pessoa que estivesse interessada no caso e que Franco não citara por conveniência.

Com a demora na resposta, o chefe interviu: – Seu nome está no bloco de anotações do detetive. Ele escreveu: “quanto aos problemas observacionais, conto com o Professor Almachabel Hisab, mestre algebrista, estrangeiro de confiança de Dom Pedro”. O que diabos é um algebrista? Se não se importa em dizer.

– É um especialista em Álgebra.

Lázaro fez um bico. – Eu poderia perguntar o que é Álgebra, mas no momento isso não importa. Gostaria que o senhor me fizesse o favor de responder à primeira pergunta.

– Sobre que negócios eu tinha com o inspetor? – perguntou Hisab, ajeitando-se na cadeira. – Bem, foi ele quem me convocou através de um telegrama urgente. Um cavaleiro desta instituição policial me entregou o papel, enrolado como um canudo, selado com cera da Corte. Me chamou para uma reunião, e lá me disse que queria a minha ajuda como consultor num caso de investigação. Sete mortos encontrados no chafariz de Grandjean esta manhã, mas nenhum manifesto, nenhuma dica da motivação do crime, pelo visto.

– Ele ofereceu uma recompensa pela ajuda?

– Sim – respondeu Hisab, pensando se deveria dizer o quanto, em dinheiro, lhe havia sido oferecido. Não queria esconder nenhuma informação que tivesse, não queria ser o responsável por qualquer supressão de informe no inquérito que pudesse resultar em advertência futura, então decidiu revelar: – Uma estilha de um montante de dois contos e meio.

O policial que estava com a cabeça baixa imediatamente se encrespou, e olhou para o chefe, que lhe retribuiu o olhar.

Lázaro enroscou uma das pontas do bigode, espiralando-a, pensativo. Deu uma rápida olhadela na moça que estava mais atrás, e ela reagiu desviando o olhar. Voltou-se mais uma vez para o professor: – Como você já sabe, nosso inspetor está morto. Um tiro de espingarda na cabeça. Uma coisa nojenta, miolos espalhados, a nuca oca, fragmentos de ossos lavrando o capim. Não tem lajotas no chão daquela cabeça de porco medonha que eles chamam de condomínio, então sem chance em conseguir uns rastros. Quando chegamos lá uns pombos asquerosos rodeavam o corpo junto com as moscas. Consegue acreditar? Pombos! O que aconteceu com os urubus?

Ele estava falando sério. Nenhum traço de sarcasmo ou desdém passava por seu rosto.

– Junto com ele morreu o guarda Alcides Loja. Tiro no pescoço. Sangrou até a morte, tentou dizer alguma coisa, mas fica difícil falar em português claro quando sua garganta tá fumegando como uma chaminé depois do impacto lacerante de um projétil de espingarda. Depois dos primeiros tiros, Alcides, que estava do lado de fora, entrou e tentou acertar o criminoso usando uma .320, mas acho que a pontaria do coitado não era muito boa, ou a garrucha era uma merda. Sabe como é, venho tentando pedir dinheiro para o governo para comprar estes novos revólveres, com tambores e tudo mais, mas eles acham que estamos bem equipados com as armas velhas que serviam para abater bois nas fazendas.

O chefe se levantou e caminhou para trás do policial. Pousou as mãos em seus ombros, e disse: – Este aqui também estava lá, mas sobreviveu. José Alguma-Coisa, quem liga? O pessoal chama este camarada de Pelicano, e ele também não parece se importar? Não é mesmo, Pelica?

– Sim, senhor – respondeu o homem, subserviente. Não estava com os olhos escuros como os da mocinha, mas tinha uma expressão funérea e derrotista no rosto. Desde o início do trabalho sentira que aquele não seria um bom dia, a principiar do ataque que recebera do cigano do Le Masque, seguido do patético desfalecimento sobre os tijolos nas cercanias do Lavradio.

Lázaro deu dois tapinhas no ombro do guarda: – Pelicano estava lá e viu tudo. Acredito, claro, que como bom policial que ele é deve ter reagido com coragem. Puxou sua garrucha, apontou para o bandido e quase atirou. Quase. Porque, por algum motivo, a bala continua dentro da arma do velho Pelica.

– Com todo o respeito, senhor, mas já expliquei…

– Já sei, Pelica. Já sei – interrompeu Lázaro. – Você não teve tempo e o sujeito fugiu. Entrou na janela de um dos apartamentos e sumiu de vista como se fosse o mago Robert-Houdin. Mas não antes de matar dois agentes da Corte, um problema complicado de se resolver. Agora minha dúvida é – o chefe se arqueou um pouco até ficar cara a cara com o guarda – de onde foi que o bandido tirou uma espingarda de dois tiros? Ele não parou para recarregar, certo, Pelica?

– Não.

– Entendi – disse o chefe, com calma. Apontando para a cadeira de canto onde estava a moça, ordenou: – Vá para lá. Agora peço, Senhorita Monique, que sente-se aqui, por favor.

Ela se levantou com insegurança e caminhou até onde o chefe estava. Sentou-se na cadeira e, a julgar pelo asco em sua expressão, não queria que Lázaro ficasse muito perto dela. Era provável mesmo que o chefe causasse repugnância nas mulheres, não só pelo seu cheiro esquisito, mas por se comportar de uma maneira um tanto pegajosa, uma mania incômoda de estar tocando seu interlocutor. Assim que ela se sentou foi isso o que ele fez: tocou-lhe os braços com as palmas das mãos frias, como se estivesse acariciando o lugar. Depois subiu para os ombros, e se instalou ali. – Relaxe, querida – disse, mas o oposto aconteceu. A mulher se eriçou e tremeu, inquieta. – E diga para o bom Professor Hisab o que você viu.

Ela fungou, numa fraca tentativa de se concentrar, e pela primeira vez olhou diretamente para o libanês.

– Tinham dois…

Dois.

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