SOBRE “O OCEANO NO FIM DO CAMINHO”

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Neil Gaiman é um cara que dispensa apresentações. Antes de falar sobre o livro de hoje, eu poderia dizer que ele foi o responsável por uma revolução narrativa no mundo dos quadrinhos, escreveu uma penca de textos que influenciaram (e continuam influenciando) a cultura pop mundial e tudo mais. Mas se você é leitor(a) assíduo(a) de quadrinhos e livros e procura se informar das novidades, já sabe de tudo isso. Então vamos falar sobre o livro neste texto breve que não será uma crítica, mas uma visão bem rápida e minimalista do que eu percebi em suas páginas.

“O Oceano no Fim do Caminho” é um livro perigoso, essa é que é a verdade. Com a maestria de um catedrático em contar histórias, Gaiman tem o poder mágico de transportá-lo ao mundo da criança, ao mundo observado pelos olhos da infância. Não é uma tarefa fácil. Imagine ler um livro e conseguir se lembrar de coisas que aconteceram quando você era um menino, imagine o susto que você toma ao perceber que, de alguma maneira muito estranha, Neil Gaiman te entende.

Eu nunca li nenhuma crítica de “Oceano”. Mas fico pensando o quão difícil é definir, explicar a história curta de um livro de 200 páginas que, apesar de curto, pode ensinar a nós tanta coisa. Ultimamente venho apreciando os romances curtos de uma forma tal que quase posso dizer que os prefiro sem sombra de dúvidas, com relação aos romances longos e monótonos. Depois de algumas leituras de Chuck Palahniuk (Clube da Luta, Sobrevivente) e Charles Bukowski (Factótum, Misto-Quente), percebi que os romances ditos minimalistas tem o poder incrível de ser pouco descritivos e ainda assim absurdamente relevantes, tipo aquele conceito “uma imagem vale mais que mil palavras”, entende? Não que “Oceano” seja minimalista. Eu o achei medianamente descritivo, embora Gaiman se concentre em narrar as coisas da sua infância com o filtro fabuloso da percepção pueril da juventude. E não que os livros longos não sejam geniais (Ulisses e O Nome da Rosa que o digam), mas não estou falando de genialidade. Estou falando de um homem contando o que pensa da vida, ele próprio, não um personagem imaginado.

Sim, porque, segundo reza a lenda, o livro é uma semi autobiografia de Neil Gaiman. O personagem principal, um narrador sem nome, conta como resgatou memórias do tempo de criança empoeiradas em sua mente após o funeral de alguém muito querido, que também não é identificado na história. Gaiman escreveu “Oceano” pouco depois da morte do pai, ao mesmo tempo em que sua vida passava por um breve desmoronamento, quando o autor também estava tendo sérios problemas conjugais, assim como o protagonista do livro.

É de fato incrível o poder que este livro tem de fazer com que você, adulto(a), volte à infância, assim como imagino que Neil Gaiman converse de igual pra igual com qualquer garoto de 10 anos ou menos. Mas não se engane: este romance não é nem de longe uma história infanto-juvenil, leve, sem qualquer pretensão a não ser entreter jovens leitores. Nada disso. “Oceano” é um retrato melancólico e assustador dos nossos primeiros anos de nossa vida, um alerta sobre como pode ser arriscado lembrar-se de certas coisas obscuras que nós, quando crianças, somos obrigados a presenciar. “Oceano” é um romance que desnuda a crença dos adultos de que as crianças não sabem o que eles, os adultos, estão fazendo, não se constrangem com suas atitudes perversas e irresponsáveis, denuncia o mito de que as crianças vão se esquecer logo dos pequenos crimes sombrios que agora, velhos e amargurados, nós cometemos com toda a cara de pau.

Usando o recurso das fábulas, Gaiman constrói uma crítica social mais mordaz que os contos de fada dos Irmão Grimm, porque a sujeira aqui é testemunhada por um garoto deslumbrado e assombrado.  Ao se lembrar de eventos da infância, o narrador redescobre um pai violento, uma mãe apática e permissiva, um lugar mítico próximo a um lago o qual uma menina exótica, Lettie, sua vizinha, chama insistentemente de Oceano, que parece ser um portal para uma outra dimensão. Nada fica muito claro com Neil Gaiman, mas dá pra entender o porque. A fantasia em si não importa.

O que importa são as pessoas.

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