Cordeiro em Pele de Lobo [Romance Completo]

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Cordeiro em Pele de LOBO

por DIEGO RISAN

 

 

[O romance a seguir é um trabalho de ficção. Seus eventos existiram apenas na imaginação do autor. Qualquer semelhança com situações e pessoas reais é mera coincidência. Este romance não é autobiográfico.]


 

 

Balança enganosa é abominação para o Senhor,

mas o peso justo é o seu prazer.

PROVÉRBIOS 11.1

 

 

 

Primeiro de Agosto

 

ENTÃO… ESTE É O meu primeiro dia.

Minha primeira vez.

Eu passei por toda a infância e juventude sem ter que me consultar com médicos, e muito menos com terapeutas. Cruzei todas as séries escolares sem ter de ir à sala da psicóloga. Do jardim de infância ao terceiro ano do ensino médio, meu comportamento não teve que ser avaliado por educadores, e agora que eu me liguei, eu nunca tinha feito sequer um exame vocacional. Meus pais nunca foram chamados para um bate-papo tenso com o diretor por seu filho ser um projeto de delinquente juvenil.

Agora estou aqui, nessa sua sala chique, sentado num sofá de couro com um copo de café na mão, e não sei exatamente como esse negócio de terapia funciona. Não sei muito bem sobre o que devo falar.

Qualquer coisa?

O que me vier à cabeça?

Certo.

Deixa eu pensar…

Bom, é… acho que preciso confessar uma coisa.

Eu sempre fui um cara bom. Desculpa minha falta de humildade, você deve tá pensando, caramba, todo mundo vê a si próprio como uma pessoa boa, mesmo os assassinos. Isso é bem bizarro, eu acho, mas as pessoas que me conhecem fora daqui poderiam confirmar o que eu tô te dizendo. Sempre fui um sujeito que se importa com o bem estar das pessoas. Nunca neguei ajuda a ninguém, contanto que a coisa tivesse ao meu alcance.

Eu sou aquele seu vizinho legal, saca? Aquele que nunca vai negar uma xícara cheia de açúcar. Nunca vou deixar de emprestar meu carrinho de mão se você estiver precisando, se eu tivesse um carrinho de mão. Vou abaixar o volume do Zeca Pagodinho no meu microsystem se minha música favorita estiver te incomodando.

Eu vou te convidar pra um churrasco quando for comemorar meu aniversário. Vou consertar o encanamento se estiver ocorrendo infiltração na parede da sua cozinha. Vou ouvir a palavra do Senhor quando você quiser encher seu coração com o regozijo de espalhar a Salvação. Eu faço essas coisas pelos outros, não porque espero que se retribua o favor, mas porque negar coisas é uma tarefa tão difícil pra mim, e aparentemente tão simples para o resto do mundo. Eu vou oferecer uma carona no meu sedã, que não existe ainda, até a maternidade mais próxima (ou mais distante) quando sua mulher grávida for ter o seu primeiro filho. Vou te ajudar com o trabalho da faculdade, porque sou bom em Língua Portuguesa.

Sou péssimo em Matemática, mas ora, também posso te ajudar com a pouca prática que tenho com os números.

Quero estar lá quando houver a festa de comemoração de um aninho de idade do seu garoto, por isso faço questão de contribuir comprando os salgadinhos e o refrigerante. Acho que posso te arranjar um emprego, se você estiver precisando. Agora, se estiver precisando de um colaborador para sua empresa, pode contar comigo – talvez eu possa trabalhar meio período por um salário mínimo. Sem problema. Está precisando de alguém para rachar a pizza? Caramba, porque não me chamou? Se não tiver dinheiro aí eu posso pagar, e se você não conseguir grana pra acertar comigo nos próximos dias, não se preocupe. Falamos disso depois.

Se estivermos tomando um chope no centro da cidade, pode deixar que eu pago o prato de fritas com calabresa. Se passarmos em frente ao Bob’s, eu pago o milk shake. Se ainda estiver com fome quando caminharmos pelo centro da cidade, o pastel chinês fica por minha conta. Se tiver esquecido o Rio Card em casa, eu pago a passagem de ônibus…

Podemos ir no melhor ônibus: aquele com ar condicionado e poltronas reclináveis.

No domingo tem futebol. Independente de qual seja seu time, faço questão de convidá-lo a assistir o jogo lá na minha casa. Tenho TV a cabo e meu aparelho LED tem imagem em alta definição. Você não tem TV a cabo? Ora, se quiser posso te arranjar um ponto. Não precisa me pagar nada.

Todas essas coisas eu posso fazer. Eu quero fazer.

Porque sou um homem bom.

Mas acho que sou meio hipócrita.

 

 8 de Agosto

 

PRECISO CONFESSAR UMA coisa.

Quando eu tinha nove anos de idade minha mãe me inscreveu na catequese. Ou devo dizer catecismo? Não sei exatamente como se fala. Até hoje não sei muitas coisas sobre aquele lugar, pois não frequentei a santa Igreja Católica por tanto tempo que guarde um punhado de recordações. Os amigos que fiz lá não existem mais, ou melhor, não existem mais como amigos pra mim. Não sei onde eles estão, e não lembro mais de seus nomes.

Mas de uma coisa eu ainda me lembro.

Um pouco antes de fazer a Primeira Comunhão – antes de vestir a linda roupinha branca, antes de carregar a velinha branca e comer o biscoitinho branco de trigo que era a prova definitiva de que eu era um bom cristão – recebi a instrução de que precisava me confessar. É de praxe, todos precisam se confessar antes de fazer esta primeira comunhão, ou qualquer outra comunhão. É, olha eu aqui, falando da igreja como se você não a conhecesse.

Ainda me lembro.

Eu estava sentado no comprido banquinho de madeira envernizada, aguardando. Quando cheguei havia uma fila de mais de dez pessoas esperando para entrar no confessionário e tirar o peso do pecado de suas costas. Crianças e velhos. Entrando e saindo. Um menino entrou na sala e, dez minutos depois, saiu e se dirigiu aos bancos da frente; ajoelhou-se na ripa de madeira rente aos bancos compridos e começou a rezar. Rezou por muito tempo.

Porque tanto tempo? Lembro de ter me feito a pergunta, em silêncio.

Uma velha entrou e, minutos depois, saiu e também foi rezar. Então o número de pessoas rezando aumentou, aumentou, e minha vez foi chegando e as pessoas continuavam rezando. Elas simplesmente não iam embora. Os bancos na primeira fileira já estavam cheios, e logo os bancos traseiros começavam a se preencher de gente. Quanto mais gente se ajoelhava para rezar, mais pessoas ficavam lá atrás, como se fugissem dos olhos do salvador. Algumas pessoas olhavam irritadas para aquelas das primeiras fileiras que não terminavam logo suas orações. As pessoas da frente – velhos e crianças – oravam como se estivessem hipnotizadas. Oravam para sempre.

Oravam.

Dois meninos oravam.

Um velho orava.

Três velhas oravam.

Cinco meninas oravam.

O número de oradores se ampliava de uma forma assustadora, e ainda assim o que mais me assustava era um grupo de impacientes que aguardavam sua vez de se confessar, como se o pecado fosse uma dor urgente ou sei lá. Hoje em dia, afastado da igreja, eu preciso pagar cem reais por sessão para estar aqui com você, falando dos meus problemas e das minhas tristezas, e tenho certeza que você não vai conseguir me ajudar. Na igreja a confissão é de graça, e a absolvição é garantida, então a barganha é mais vantajosa, não acha? Minha mãe me dava uma nota de um real e eu depositava no cesto de vime que o coroinha passava na missa de domingo, e pronto. O serviço estava pago.

“Ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco…”

Um menino dizia, erradamente: “benditas são suas avós entre as mulheres”.

Uma mulher murmurava, rápido e sem vírgulas: “pai nosso que está aí no céu santificado seja nosso nome venha nós o vosso rei seja feita nossa vontade…”

Minhas mãos estavam suadas. Eu estava nervoso. Eu era um bom garoto; um garoto obediente. Meu boletim escolar informava que minha nota mais baixa tinha sido 8,4 em Estudos Sociais. Eu era um estudante tão dedicado e um filho tão dócil, que meus pais foram obrigados a revelar-me que Papai Noel não existia, do contrário teriam que me dar um presente caríssimo. Teriam que me dar um videogame de última geração, já que, pelo visto, o mito me endossava e me garantia esse direito. Papal Noel não negaria um videogame a um garoto tão manso que nem eu. Minhas mãos estavam suadas; eu as secava no jeans da minha calça.

O burburinho continuava.

Um velho dizia: “pai nosso que estais no céu, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… não, não é isso…”

No momento eu pensava que talvez não tivesse que rezar tanto quanto aquela gente. Afinal, o que eu havia feito de errado? No máximo eu teria que fazer a oração do anjo da guarda, que era a oração que eu mais gostava, porque era bem curta – “santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador…” – e ir pra casa com a alma mais leve. Mas minha alma já estava leve.

E vendo toda aquela gente rezando, algumas chorando, a sensação era a de que estar com a alma leve fosse um pecado, ou pelo menos uma vergonha.

Então o padre Cosme finalmente me chama para o confessionário. Eu até gostava dele: era um indivíduo baixinho que usava um corte de cabelo tipo indígena, e estava sempre sorridente. Curiosamente não estava usando os trajes típicos naquele dia. Estava de calça jeans e camisa polo azul. É incrível imaginar que minha mente guardou todos esses pequenos detalhes, não é? Padre Cosme de repente não se parecia mais com o padre Cosme… era só um cara que você poderia ver sentado no banco do cobrador de ônibus ou dirigindo um táxi. Ele me pede para sentar em um banquinho de madeira e fica de frente para mim.

– Está nervoso?

Eu meneio a cabeça, negativamente. É claro que eu estou nervoso. Mas diante do padre e diante de Deus, cometo meu primeiro pecado. O primeiro pecado da minha vida. O pecado da maçã. O pecado de Adão e Eva.

Eu minto.

– Não precisa se preocupar – ele diz pra mim. – Estamos aqui para prepará-lo para sua primeira comunhão com a igreja e com Deus. Tudo o que você precisa fazer é confessar seus pecados. Sabe o que é um pecado?

Faço ideia do que seja.

Mas de novo meneio a cabeça.

– Pecado é toda atitude que você comete em sã consciência, mas sente, do fundo do seu coração, que está fazendo a coisa errada. Este sentimento é um poder que Deus concede a todos nós para entendermos quando estamos transgredindo sua Vontade.

Daí eu penso: então porque Deus simplesmente não me aponta o dedo e diz que estou fazendo besteira, como meu pai sempre faz? Seria menos dúbio.

– Entendeu?

Timidamente respondo que sim.

– Então… o que você quer confessar?

Se Deus sabe tudo, toda aquela história de onisciência e de que nada escapa aos olhos de Deus, ele poderia saber disso e me poupar de todo esse embaraço. Fiquei meio puto por Deus me fazer ter de abrir meu coração pra um índio em vez de aparecer pra mim em pessoa. Eu era um garoto decente, ou não? Naquele momento fiquei olhando pro padre, sem saber o que responder. Eu já havia entendido muito bem o que era pecado, e mesmo assim, por maior que fosse o esforço que tivesse fazendo, nunca conseguiria me lembrar de um erro sequer em minha vida. Quando você é um garoto, você vive sob as diretrizes dos seus pais, mas não consegue medir o que é certo ou errado antes que seu contrato social esteja definitivamente assinado. Acho que esse evento ocorre quando você tem uns dezessete anos e sai da escola pra arrumar um trabalho: acabou a zoeira, hora de abaixar a cabeça, se ajoelhar e se humilhar ante a um todo poderoso empreendedor. Hora de se subjugar a pelo menos um dos deuses da Santa Trindade do P: um padre, um pastor, ou um patrão.

Bem, falo por mim quando digo que não conseguia me lembrar de nada que se parecesse com uma transgressão às leis de Deus. Nem uma briga de rua. Nem uma punhetinha escondido no banheiro. Nem uma pedrada na lataria de um ônibus.

Nada.

– Eu não… tenho… pecado – gaguejei. Fiquei esperando que o padre fosse me repreender pela resposta, mas o invés disso ele sorriu.

– Todos temos nossos pecados, filho. Por menores que sejam. Talvez você tenha respondido grosseiramente à sua mãe. Pode ter falado palavras feias sobre um coleguinha da sua turma. Talvez tenha pegado um doce escondido na loja da esquina.

Hoje, quando lembro disso, posso imaginar o padre tentando encontrar exemplos mais graves. Entre eles estariam uns breves pensamentos psicopáticos que eu ando tendo, calma, nada demais, nesse caso eu fico imaginando como seria bom esfaquear aquele canalha que anda na calçada e não desvia o corpo, nem um pouco, pra não esbarrar em você. Pensa que é dono do mundo? Que tal ser dono de sua própria cova?

Fornicação, orgulho, inveja e preguiça estão na lista também. Ah, sim, claro, e a gula. Os letreiros coloridos dos fast food me agradam quase tanto quanto o picles e o molho especial.

Eu fico imaginando qual seria a reação do padre se eu contasse certas coisas que algumas crianças realmente fazem quando estão chegando na adolescência. Fico imaginando se eu dissesse: padre, anteontem eu arranquei a cabeça de um gato com um facão, padre, hoje de manhã eu mostrei meu piupiu pra minha prima, padre, ontem eu dei uma dedada na xerequinha da minha coleguinha de classe.

Mas não. Eu nunca tinha feito nada disso, e jamais teria coragem de fazer.

Minhas mãos suavam. Eu esfregava as palmas na camisa e na calça, no pescoço e nos cabelos, mas elas não pareciam secar nunca.

Eu só queria poder ir embora.

– Você precisa se confessar, filho – disse-me o padre. – Já está tudo pronto para a missa de amanhã, sua comunhão com Deus, mas você precisa se confessar, ou então não poderá participar.

“E sua mãe já pagou pelo serviço da cerimônia”, acho que ele deveria ter dito. A vela e a roupa branca e dourada já estavam em meu armário. Se eu voltasse para casa dizendo que havia sido vetado da comunhão pois me recusara a me confessar, nem imagino o nível da decepção da minha mãe. Hoje eu fico pensando no dilema filosófico que aquela versão infantil de mim mesmo precisou encarar, mentir que tinha pecados quando não acreditava que tinha. Pecar com a mentira para ter o único pecado perdoado, e este pecado era esta mentira. Chega a ser engraçado.

Mas mesmo não tendo pecados eu decidi me confessar.

Disse que havia estapeado meu irmão mais novo. É claro que isso nunca aconteceu. Eu confessei um crime que não cometera, um pecado que não ocorrera, e mesmo assim Deus nem teve a malandragem de dizer no ouvido do padre que eu era um molequinho mentiroso.

10 ave-maria e 5 pai-nosso. Eis minha punição.

Ajoelhei na ripa de madeira onde antes dezenas de pecadores tinham orado, gente devassa, ladrões, estelionatários, pedófilos em potencial, traficantes e mulheres da vida, e ali eu também me pus a rezar.

Ali pela terceira ave-maria eu já nem estava pensando que bendita sois vós entre as mulheres.

Eu estava pensando nos hambúrgueres que minha mãe devia estar preparando para comemorar o fato de seu filho mais velho ser uma pequena coisinha temente a Deus.

Meu pecado era não ter pecados, e minha punição era um pão redondo recheado com carne, cebola e cheddar.

 

15 de Agosto

 

EU TRABALHO COM telemarketing filantrópico. Sabe o que é isso? Tem problema não, eu explico.

Todos os dias, às oito da manhã, sento-me num banco em frente a uma baia que sustenta um aparelho de telefone de um call center, e ligo para as pessoas, pedindo donativos para uma instituição de caridade que cuida de crianças com uma doença grave chamada anemia falciforme. Se o donativo for confirmado, emito um boleto com o valor acordado e um mensageiro vai até a casa do contribuinte receber o dinheiro.

Você pode dizer que eu sou um voluntário em prol de uma causa nobre. Vários contribuintes já haviam me dito isso pelo telefone, me dado os parabéns pelo Dia do Voluntário, me informado, caso eu já não soubesse, que Jesus teria coisas muito boas para dizer sobre mim no Juízo Final.

As pessoas pensam que sou um voluntário de verdade, mas que tipo de voluntário toparia trabalhar de graça oito horas por dia, seis dias por semana, em um call center no centro da cidade? De onde o voluntário tiraria dinheiro para sobreviver?

Do bolso do contribuinte?

Sim. Certa resposta.

Funciona assim: o dono do call center faz um acordo com o diretor da instituição de caridade. Eles decidem que o call center precisa pagar quatro mil reais por mês à instituição como condição para usar seu nome e fotos de pessoas doentes em troca de donativos, sabe, então é feito um site onde o dono do call center posta as fotos de crianças carentes, crianças morrendo, crianças entubadas em um quarto de um hospital comunitário caindo aos pedaços. O dono do call center quer fazer você se sentir mal por não ajudar às pessoas que não tiveram sorte de nascer saudáveis como você. O documento comprovando o acordo entre o dono do call center e o diretor da instituição é autenticado e recebe reconhecimento de firma em cartório.

Os operadores de telemarketing fazem um excelente trabalho. Conseguem cerca de oitenta mil reais em donativos por mês. Os custos com telefone, luz, ar condicionado, aluguel do escritório e folha de pagamento dos funcionários fica em torno de quarenta mil reais. Dessa conta ficamos com os outros quarenta mil, dinheiro que poderia ser atribuído à instituição, mas não é isso que acontece. O acordo feito ficou em quatro mil reais, e, deve-se fazer justiça, não seria honesto dar mais do que isso à instituição, ou então os anêmicos ficariam acomodados demais.

O call center paga quatro mil reais à instituição, e fica com o líquido de trinta e seis mil reais.

Trinta e seis mil reais vão para o bolso do dono do call center, se você não entendeu.

O dinheiro que você doou ontem, foi para o bolso do dono de um call center. O dinheiro que você doou ontem serviu pra dar como entrada em um sedã da Ford, total flex, câmbio de seis marchas, coloração branco-marfim, direto para as mãos de um homem saudável e com o bucho já cheio de grana. Ele não precisa tanto do Ford, porque já tem um Fox, a esposa tem um Audi do ano passado, o filho, sabe Deus como, comprou um Cobalt da Chevrolet, do ano, zero quilômetro. Como se sente a respeito disso?

Eu também recebo minha parcela, é claro. Meu salário é de setecentos reais, mais a comissão, que fica em 10% do valor obtido através de donativos feitos a partir das minhas ligações. Isso quer dizer que a décima parte do que você doa, vem pro meu bolso. Gosto de pensar que sou um pastor vendendo a fé que você compra, a fé que você acredita estar ajudando a uma criança moribunda quando está me ajudando a pagar a conta da Sky do mês de novembro.

Se você doa dez reais, um real vem pro meu bolso.

Se você doa cem reais, dez reais vem pro meu bolso.

Se você doa mil reais, cem reais vem pro meu bolso.

Não importa a quantia que você vai doar: apenas um ínfimo percentual deste valor será remanejado para as crianças com anemia falciforme. E você sabe como funciona essa doença? Bom, pra resumir: os glóbulos vermelhos do seu sangue são redondos. Uma pessoa com anemia falciforme tem estes glóbulos cortados, em forma de foice. Sabe o que isso significa para o seu bem-estar? Nem queira saber. Com os donativos remanejados, pelo menos vai dar pra comprar uma caixa de leite especial para as crianças. Vai dar pra comprar um saco de pães franceses.

Eu sou um homem bom. Mas como disse antes, talvez eu seja um pouco hipócrita.


 22 de Agosto

 

QUANDO VOCÊ TEM ANEMIA FALCIFORME, a dor é constante e quase insuportável, pelo que eu ouvi dizer. Algumas pessoas dizem que é como se você fosse atacado, de maneira intermitente, mas sempre constante, por um fazendeiro lunático com uma foice nas mãos. Ele avança e ataca. Avança e ataca. No fim do mês, depois de todos os ataques, depois de se sentir esmagado e perfurado, você não tem grana pra comprar um leite especial. Não tem grana para o pão integral. Comida saudável, fora de cogitação.

Algumas pessoas conseguem apagar esta imagem da cabeça: telefonam para pessoas, imploram para que ajudem aos necessitados, choram, invocam o nome de Deus, depois vão pra casa com a mente tranquila assistir novela e comer pizza. Eu fico pensando nas crianças, e quase sempre eu acabo separando uma fatia do meu valor de comissão e repasso para algumas famílias que calham de aparecer na estrada da minha vida.

Uma vez o dono do call center me pediu para ir até um buraco enlameado em Duque de Caxias para tirar algumas fotos de uma família que tinha duas crianças com a tal doença. A condição deles é tão paupérrima, tão deprimente, que eu acabo deixando duas notas de cinquenta reais no criado-mudo de madeira descascada da sala de estar antes de pegar o ônibus e voltar para o centro da minha cidade. As fotos que eu tirei foram postadas no Instagram da associação e, segundo as estatísticas, aumentou em 30% a coleta de donativos daquele mês.

A sensação de ajudar as pessoas é incrível. Você devia tentar.

Quase todos os dias eu saio do meu serviço no telemarketing filantrópico e pego um ônibus em direção ao meu segundo emprego. Suporte Técnico em uma fornecedora de sinal de internet. Suporte Técnico é um jeito bonitinho de dizer “atendente escravo”, que é mais ou menos o nosso proletariado dos dias de hoje, emprego quase escravo onde você não sai fisicamente esgotado, mas sua mente está estilhaçada. Eu trabalhava num telemarketing receptivo focado em ouvir reclamações, o que deixava tudo pior, eu acho. E nesse tipo de emprego a única coisa que você vai ouvir são xingamentos de gente que te enxerga como uma mera engrenagem danificada. Tudo o que vai ouvir são clientes dizendo o quão ruim é o serviço prestado pela sua empresa.

Você se formou em psicologia, certo? Não vai saber muito bem do que estou falando. Mas imagine os dois lados do problema, onde um chefe espera que você trabalhe seis horas por dia de maneira ininterrupta, como se fosse um robô incansável, e o cliente pelo telefone, gritando no seu ouvido, acha que você é o maior patife do mundo, um enganador barato, e xinga você porque é isso que você merece. Ser xingado. Pra eles você é um bandidinho qualquer. Pra eles você deveria estar morto.

E é como se você já estivesse morto de qualquer maneira.

Você atende uma ligação e o cliente diz: “essa merda já caiu de novo”. Ele está falando da internet, e consequentemente, da empresa que você precisa defender. O seu supervisor diz que você tem de mentir, engabelar o cliente, de forma que ele encerre a ligação e se sinta totalmente satisfeito com sua resposta.

Estamos em manutenção, senhor, você responde, e completa: mas hoje mesmo seu sinal será normalizado. Tivemos um problema de queda de energia cujo culpado foi o centro de distribuição elétrica do seu município.

Mentira.

Você atende uma ligação e o cliente diz: “essa merda está tão lenta que não consigo abrir meu Facebook”.

Estamos em manutenção, senhor, você responde, e completa: mas hoje mesmo seu sinal será normalizado. Tivemos um problema de cabo cortado por linha de pipa em nosso switch externo, mas os técnicos estão trabalhando no devido reparo neste momento.

Mentira.

Eles sabem que eu estou mentindo, mas eu continuo, pois tenho bondade em meu coração. Tenho Deus em meu coração. Do contrário eu poderia dizer ao cliente que ele vá viver a merda da sua vida ao invés de ficar conversando em redes sociais. Vá viver a merda da sua vida ao invés de ficar jogando este joguinho estúpido por horas e horas a fio. Pense por si só ao invés de recorrer a vídeos de babacas que tentam se promover com discursos de rebeldia, uns idiotas barbudos reclamando das grandes corporações enquanto faturam milhares de dólares com propaganda de macarrão instantâneo.

“Tenho que participar de uma videoconferência pelo Skype daqui a pouco. Como vou fazer isso sem a internet funcionando?”

Não faço ideia. Mas respondo da maneira robótica como fui instruído a fazer: – Senhora, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“Tenho que entregar um trabalho na faculdade amanhã. Preciso fazer uma pesquisa. Como vou fazer isso sem a internet”?

Tenta pensar um pouco com o próprio cérebro, filho da puta, é o que passa na minha cabeça e quase faz meus lábios tremerem. Acha que as pessoas comuns tinham a internet para fazer seus trabalhos há vinte anos atrás? Einstein usou a internet para desenvolver a merda da lei da relatividade? Por isso não temos mais gênios. É por isso que temos conceituados comentaristas de futebol ao invés de inventores.

Claro que eu não respondo assim. Digo de uma maneira bem mais afável: – Senhor, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“Preciso descobrir qual será o local da prova que vou fazer no domingo. Quando eu vou ter internet de novo? Eu tô pagando essa porra!”

Como se nós estivéssemos deixando você sem internet por pura diversão. Imbecil.

Em vez de vomitar meus verdadeiros pensamentos, explico: – Senhor, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“Estou há quatro dias sem internet”.

– Senhor, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“Tem um vídeo novo no Youtube que todo mundo já viu, menos eu. Porque só eu estou sem internet?”

– Senhora, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“Estou há uma semana com problema de lentidão na minha internet. Não consigo abrir nenhum vídeo daquele site pornô”.

– Senhor, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“Me casei há três dias e não consigo acessar a internet para postar as fotos da cerimônia”.

– Senhora, estamos fazendo o possível para que sua internet seja normalizada o quanto antes.

“É domingo de manhã! Não tá passando nada de interessante na TV. O que eu vou fazer sem internet?”

– Senhor, estamos fazendo o possível para que o senhor morra o quanto antes, seu estúpido escravo de merda!

” O que disse”?

– Nada. Agradecemos a sua ligação, e um bom dia.

  

29 de Agosto

 

NÃO SEI SE ESSA TERAPIA está ajudando.

Mas preciso confessar uma coisa.

A maioria dos homens da minha idade são corajosos, ou pelo menos acham que são. Ser agressivo é meio que um mérito, algo a ser cultivado, e até os mais mirrados acham que são muito fortes, muito valentes, até a hora que um cara mais brabo dá um soco nesse camarada e traz ele de volta à realidade.

Eu também sempre me achei corajoso. O machão. O gorila alfa. Eu saía de manhã pra pegar o trem e ir para os meus telemarketings e colocava meus fones de ouvido, apertava o play nas músicas mais pesadas do meu acervo de mp3 de gangsta hip hop esperando inspiração. Fazia isso para endurecer o espírito. Fazia isso para empedernir o coração. Eu andava por aí de peito estufado, com a cabeça raspada e uma cruz invertida estampada na camisa preta achando que isso fosse, sei lá, uma armadura.

Eu andava por aí com os punhos cerrados.

Eu dizia para mim mesmo que ninguém poderia me quebrar. Ninguém poderia me fazer cair.

No início este tipo de autoconfiança parecia estar funcionando. Meu poder de intimidação parecia real. Alguém esbarrava em mim na rua e eu mandava essa pessoa prestar mais atenção por onde andava, se não quisesse ser espancada. Alguém pisava no meu pé e eu respondia com um safanão, e dizia pra pessoa se afastar se não quisesse levar um soco no queixo. Engraçado quando seu excesso de confiança te faz perder o senso do ridículo e você anda por aí parecendo um cachorrinho pequeno e abusado, latindo e bufando, tremendo dos pés à cabeça.

Como o destino é brincalhão, teve que acontecer uma tragédia pra eu baixar minha bola.

Minha primeira namorada apareceu na minha vida quando eu tinha dezoito anos. Eu sei que foi tarde, mas eu sempre tive problema com compromisso, entende? Foi por isso que eu abandonei a Igreja logo depois da minha primeira comunhão. Foi por isso que eu fiz minha primeira tentativa de sair de casa já aos dezessete anos. Aprendi a dirigir com vinte e seis, mas nunca quis arcar com as consequências e responsabilidades de ter um carro. Fumei meu primeiro baseado aos vinte e sete, e foi o único, porque eu não queria ter de assumir o compromisso de ser cliente fiel de algum traficante. Aquele primeiro relacionamento sério – como todos os relacionamentos presentes em minha história – não duraria muito tempo.

Um dia fomos à praia. Foi divertido. Ela tinha dezesseis anos, mas parecia uma mulher de vinte. Ela ficava linda naquela tanga laranja e biquíni amarelo. Tudo combinava perfeitamente com seus cabelos vermelhos e suas sardas nas bochechas. Sob a claridade, não sei explicar direito, mas era como se ela pudesse refletir a luz. Digo, o dia estava claro; o sol era um círculo de fogo pairando sobre um tapete azul. O dia não estava cinzento. O clima não parecia dizer que aquele seria o pior dia da minha vida. Durante toda a folga, enquanto era dia, nós curtimos um ao outro entrelaçados na água fria da praia de Copa. Quando começou a escurecer nos dirigimos a pé para a avenida. Fizemos sinal para uma van que seguia em direção ao centro da cidade. Havia cinco homens lá dentro. Um deles estava armado mas isso eu só fui saber depois.

O homem armado era amigo dos outros quatro.

Ficaram encantados com a minha namorada.

E eu penso, quem não ficaria?

O rádio da van tocava uma música de letra obscena. Tratava de sexo de uma maneira agressiva, um som repetitivo entrecortado pelo gemido de uma mulher. Era uma daquelas músicas saturadas de depravação que a gente da minha cidade parecia ter tomado como expressão cultural. Hoje em dia você ouve isso pra todo lado em que decida ir, em toda festa em que decida dar uma parada e tomar um gole de cerveja. Era uma batida metálica seguida da voz de um moleque drogado dizendo que comeria uma novinha até o pau inchar.

Lembro muito claramente do que pensei até aquele momento: O que há de errado com esse país? Porque ninguém percebe que essa nação está endossando a pedofilia e o desrespeito aos ouvidos do próximo? Está tão óbvio, e mesmo assim incrivelmente escondido.

As pessoas têm coragem de ouvir esse tipo de coisa em som alto? Como eu te expliquei antes, isso está entre aquele lista de coisas que eu nunca tive coragem de fazer. Mas os outros, os meus semelhantes, têm coragem de amplificar esse som para que seus vizinhos ouçam? As mulheres desse século realmente estão se interessando por homens que cantam vulgaridades como essa?

Relembrando os tempos de igreja, eu pensei: Deus tenha piedade de suas almas. Isso até que me fez ter um pouco de saudades da eucaristia, da hóstia, das músicas e da confissão. Por um momento eu quis me confessar em nome do mundo, mas confesso que fui arrogante aí.

Ela e eu sentamos nos bancos do meio. Dois homens se levantam. Um deles senta-se ao meu lado. O outro senta-se ao lado dela, e já vai colocando a mão em suas coxas. Me lembro de tudo acontecendo muito rapidamente, como num vídeo acelerado. O homem que está tocando minha namorada, bem, ele está perto da vagina dela agora. Ela está assustada, posso sentir. O ombro direito dela treme ao encostar-se ao meu.

O homem ao lado dela dá um beijo em seu rosto. Ele fede à bebida, e a van, toda ela, está empesteada por muito odores, maconha, incenso e sei lá mais o quê. O cara segura a mão dela com truculência e a faz tocar em sua calça sobre o pênis. Eu tento uma reação, mas assim que faço menção de me levantar, o homem ao meu lado me desfere um soco no pescoço, e por alguns segundos perco a capacidade de respirar.

O motorista olha pra mim pelo retrovisor, e, com a maior calma do mundo, diz: – Você vai ter que ceder, garotinho. Já tá tudo pronto para nos divertirmos com a sua menina, mas você precisa ceder, ou vai dar um trabalho danado pra nós. Sabe o quão difícil é picotar um corpo e depois desovar na Baía de Guanabara?

No reflexo do espelho, vejo os olhos pacíficos do padre Cosme. Tá, ta, sei que não é ele ali, claro, mas é como se fosse. É como se eu tivesse nove anos outra vez, e mais uma vez, percebi que não tinha a menor chance. O gorila alfa, por mais alfa que fosse, não poderia superar todo um bando sozinho. Nenhum de nós, nem eu nem ela, tínhamos culpa de absolutamente nada e ainda assim seríamos penalizados. Quem sabe penalizados por não termos culpa de nada?

– Tenho certeza que esse veadinho nunca comeu essa mina – disse o homem ao lado dela, que agora estava tirando lentamente sua camisa. Ela já tinha começado a chorar àquela altura. – Dá pra ver que esse aí é um casal virgem.

O homem que estava no banco da frente ao lado do motorista disse: – Ele pode implorar quanto quiser, ficar de quatro e o cacete, mas eu só vou querer comer ela.

E todos eles caíram na gargalhada.

Que divertido.

Apesar de lembrar detalhe por detalhe de cada momento daquele episódio, não quero me estender muito nesse assunto. Basta dizer que eles fizeram com ela tudo o que é possível acontecer com uma mulher em um rompante de violência. Quando o quarto homem gozou com ela, o quinto ficou tão enojado ao vê-la com todo aquele sêmen derramado pelo corpo que preferiu não participar da diversão. Eles me fizeram assistir a todas as cenas. Eles me fizeram testemunhar do primeiro ao último segundo. Sem pause e sem flash forward. Sem poder pular logo pra gozada final.

Lembro daquilo tudo e uma pequena parte da minha mente me diz para não guardar ódio em meu coração. Diz para não nutrir sentimento de vingança por aqueles homens. Deus não gostaria de saber que um homem que cumpriu com seus deveres e comunhões tem planejado, anos a fio, assassinar um grupo de vadios miseráveis que estavam apenas em busca de um pouco de entretenimento.

Desde então eu venho suprimindo este tipo de pensamento.

Meus pais não me criaram para ser um vingador mascarado, afinal de contas. Não me criaram para ser policial ou bandido. Quando eu quis fazer uma prova para a polícia militar, minha mãe disse que eu não deveria fazer isso, porque ela ficaria preocupada comigo todos os dias, achando que eu poderia morrer a qualquer momento em algum confronto. Por isso seria muito mais seguro eu trabalhar em um escritório, em uma empresa de telecomunicações ou como estoquista em um galpão mal refrigerado.

Mas eu queria poder vê-la novamente. A minha primeira namorada. Queria poder encontrá-la e pedir perdão por não ter tentado argumentar com aqueles caras. Eu podia ter oferecido dinheiro a eles. Eu podia ter sido mais gorila alfa, esquecido a minha mãe por um instante e arriscado a minha vida, como os gorilas devem fazer.

Se a linda ruiva de dezesseis não tivesse cortado os próprios pulsos e trilhado seu próprio rumo, eu poderia agora convencê-la a seguir o caminho do Senhor.

 

5 de Setembro

 

EU SOU UM CARA LEGAL, não acha?

Não ria, mas quando eu ando nas ruas, meus olhos automaticamente procuram velhas que precisem de ajuda para atravessar a rua. Sempre que tenho um trocado no bolso, faço questão de comprar quentinhas para uma família de mendigos que vivem sob os pés de Gandhi no centro da cidade.

Eu aceito. Eu nunca me recuso a fazer. Eu me conformo. Eu ofereço a outra face. Eu fico em silêncio. Eu aceito. Eu abaixo a cabeça. Eu concordo. Desde que minha ex foi estuprada, eu procuro promover a paz. É o que pessoas decentes fazem, certo? Me responda. Você é o terapeuta aqui.

Você não dá opiniões? Entendi.

Enfim, apesar de eu ser esse cara sereno, de uma forma ou de outra não importa que atitudes eu tome, minhas memórias acabam sendo minha maior fraqueza.

Depois do ocorrido na van, toda vez que subo em uma condução pública e vejo uma moça de pouca idade acabo imaginando a coitadinha sendo estuprada. Subo no 433 e vejo a estudante de saia azul marinho sendo estuprada. Subo no 369 e vejo as meninas falando sobre namorados e quem é o garoto mais bonito da sala, mas o que imagino saindo dos lábios delas são gritos de desespero. O que imagino são pistolas em seus pescoços lisos e longos e o barulho de fricção física; costas suadas e o fedor de imundície, de sexo não consentido.

Quando vejo uma menina subindo em uma van eu digo em voz alta: “mais um par de pulsos cortados a caminho”.

Quando vejo uma menina entrando em um trem eu digo: “mais um grupo de drogados satisfeito”.

Juro por Deus que eu gostaria de poder ajudar a todas as meninas que sofrem este tipo de abuso. Do fundo do meu coração, eu queria poder dar uma mão para todas as pessoas que precisam. Não por ser eu um cristão convicto, sabe? Batizado e tudo o mais. Eu queria ajudar por saber que amanhã depois alguém pode estar me ajudando também, e qual sentimento eu vou ter quando souber que sou um ingrato, exatamente como meu pai sempre fez questão de dizer que eu sou?

Estive filosofando: a vida pode ser um confuso pacote de escolhas. E estas escolhas são obrigatórias, deve-se tomar um partido. Se isolar pra sempre não é uma opção no meio do asfalto e dos prédios altos.

Uma amiga minha me disse que essa coisa de ficar olhando mulheres e imaginar que elas estão sendo estupradas é uma herança do machismo impregnada em mim. Eu vejo meninas sendo curradas por todos os lados, e por culpa do cinema pornô, eu consigo imaginar todas as posições possíveis. Eu vejo meninas sendo violentadas porque… sabe… pra dizer a verdade eu penso que o homem domina a mulher. Simples assim.

Eu sou como um japonês punheteiro que só se excita vendo mulheres sofrendo violência. Não acho que seja verdade, estou apenas repetindo as palavras dessa minha amiga.

Ela diz que eu devo ver mulheres nuas por todos os lados. Sempre que eu observo uma moça vestindo um daqueles conjuntos sociais femininos, saia com fenda lateral, geralmente azul-escura ou só preta, entrando no prédio da Petrobras pra mais um dia de trabalho, eu imagino essa mulher nua, desfilando com uma valise fina na mão. Bom, isso até é verdade. Que homem não vê mulher pelada todo o tempo? Isso é natural, eu acho. O meu problema é bem mais complicado.

Nós temos aqui uma espécie de confidencialidade entre paciente e médico, certo?

Eu posso dizer tudo o que quiser, certo?

Não vou ser preso se confessar um crime, certo?

Calma, não me olha assim. Eu não estuprei ninguém, pode se acalmar. Mas eu venho cometendo alguns crimes ultimamente. Eu tenho baixado filmes pornográficos na internet para me abrandar os ânimos, vamos dizer assim. Imagine só ter de carregar nas costas a terrível maldição de ver sexo a todo momento, pra onde quer que se olhe, em todo lugar. Você acaba precisando da ajuda patriótica daquelas brasileirinhas. Mas isso vai contra os meus princípios, você deve entender.

É como jogar lixo na rua, mesmo sabendo que isso é errado. Você baixa filmes na internet de forma ilegal, sabendo que é errado. Você come carne de boi, de porco e de frango, mas sabe, no fundo do coração, que essa merda é errada.

E é aí que eu me pergunto: porque eu continuo?

Sabe, talvez o padre Cosme tenha querido dizer exatamente isso. Eu achava que não tinha pecado, mas estava impregnado de pequenas infrações, como folhear a revista Playboy escondida na gaveta do meu pai. Talvez eu tivesse imaginado minha professora Júlia, da primeira série, fazendo sexo comigo… espera, agora eu não sei. Garotos de seis anos de idade já pensam nessas coisas?

Certo.

No domingo agora duas senhoras foram bater na porta da minha casa – digo, da casa dos meus pais. Elas não disseram de qual igreja eram, mas atestaram que, enquanto eu não buscasse minha salvação, correria o risco de me tornar uma abominação aos olhos do Senhor.

– Mas eu sou batizado – expliquei. – Faço trabalho voluntário e tudo mais. Acredito que já esteja salvo.

– Batizado? Em qual igreja? – uma das beatas me perguntou. A cara dela era engraçada. Rosto redondo, meio inchado, e cabelos loiros ondulados e não lavados. Parecia uma estrela aposentada dos filmes que costumo fazer download ilegal.

– Na santa igreja – respondi.

Uma olhou para a outra e ambas começaram a rir, divertidas. Me senti incomodado com aquilo. Acabei lembrando da cena de um filme que baixei, onde duas mulheres se ajoelhavam em frente a um cara, tiravam pra fora o que ele tinha dentro da calça, e começavam a ser animar com o volume libertado dali.

– Você quer dizer a igreja católica? – disse a outra mulher. Era um pouco mais nova que a primeira, e tinha cara de sofrer de alguma demência, porque nunca desarregalava os olhos. – Aquilo é a igreja do diabo, meu filho. É apostasia.

– Você tem que abandonar os falsos deuses que tem cultuado, o quanto antes – disse a primeira. – Não importa o que faça aqui na Terra, se não temer a Deus da maneira correta, será considerado por Ele uma aberração.

Temer a Deus da maneira correta. Essa era a questão.

Daí elas falaram mais coisas, muito mais coisas, e me entregaram panfletos, me exortaram a orar e a falar com Deus para descobrir qual era a Sua verdadeira igreja, e disseram que voltariam no domingo seguinte para me ensinar mais.

Mas já reparou como elas nunca voltam?

Talvez essas beatas trabalhem por escala. Se fizerem o trabalho de Deus em um domingo, abonam um pecado do qual se lembrem e que as corrói, e que o resto do trabalho de divulgação do evangelho fique para outros missionários que tenham se lidar com seus próprios pecados. As igrejas, assim como qualquer instituição, barganham da melhor maneira. Um pastor dito ladrão não está roubando de verdade: ele oferece uma parcela de fé em troca da oferta do fiel, tome aqui dois quilos de conforto, tome aqui dois litros de consolo, e me dê as chaves do seu carro. É um comércio. A humanidade sempre foi assim, então quem vai ser idiota de tentar mudar as coisas?

Eu vi a filha de um amigo de infância, um colega da época da escola, pegando o metrô, e a imaginei rodeada por cinco homens nus. Deus… o que eles fizeram com a minha mente? Imaginar este tipo de cena pode ser considerado pedofilia, não acha?

Me diga. O terapeuta é você.

Ontem eu vi entrar na barca uma menina segurando um caderno, cuja capa mostrava um ursinho com uma chupeta na boca. Ela pressionava o caderno contra os seios já fartos e sentava-se de pernas cruzadas nos bancos de madeira. Tudo em que eu conseguia pensar no momento era a música de letra obscena que tocava no rádio da van. Era uma música quase opressora. Havia violência ali. Era uma batida de funk seguida da voz de um moleque dizendo que comeria uma novinha até o pau inchar.

Ah, vá se foder.

Eu vejo a menina com o caderno pressionado contra os seios, mascando chiclete e sentindo o vento que sopra de Niterói balançar seus fios de cabelo e de repente imagino vários homens nus emergindo da água para violentá-la. Eles sobem na barca e estupram a menina na frente de todo mundo; ninguém esboça qualquer reação. Ficam todos assistindo. Eu também assisto, com um balde de pipoca no colo e um aparelho tocador de MP3 no ouvido. Consigo até imaginar a capa de um dos filmes da minha coleção: “E Vai Rolar a Festa, Volume 2”. A trilha sonora que eu imagino, mesmo num devaneio, é uma batida ininterrupta onde a cantora com voz insinuante implora para que o ouvinte bote com raiva.

Do nada eu percebo que estou no quarto de uma amiga minha. É uma mulher legal, conhecida lá dos meus tempos de ensino médio, que reencontrei pelo Facebook um dia desses. Ela me pergunta se eu quero alguma coisa: sei lá, um sanduíche, um biscoito de chocolate. Transar enquanto fuma um baseado dá fome. Eu e minha amiga estamos nos encontrando bastante ultimamente, estamos dando um suporte um pro outro. Ela está superando o fim de um relacionamento; eu estou há quase dez anos superando a partida da minha primeira namorada, ruivinha com sardas no rosto. Comentei que ela cortou os próprios pulsos? Tem que ter muita coragem…

Eu disse que um pacote de biscoitos estava ótimo. Então ela se levanta da cama, nua, e eu percebo que seu corpo é pequeno e compacto, e que suas formas parecem as formas da minha ruiva. Então eu imagino que ela vá abrir a porta em direção à cozinha e de lá surgirão cinco caras nus, e vão agarrá-la e vão suprir todas as suas necessidades de animais com ela.

Quer dizer, apenas quatro deles vão fazer. O último vai ficar com nojo de tocar em seu corpo fluidificado.

Daí eu levantei e corri que nem um maluco e me coloquei entre ela e a porta da cozinha. Fiquei pelado de braços abertos enquanto ela me fitava com uma expressão de confusão. Acho que ela ficou assustada. “O que foi, JC? O que aconteceu”?

Gosto quando ela me chama de JC.

Grandes homens do passado se chamavam JC.

Fiquei ali parado sem saber bem o que dizer. Como explicar que eu sou tão doente que imagino mulheres sendo estupradas a cada segundo?

– Ainda pensa nela, né? – me perguntou a minha amiga, acariciando meus cabelos espetados. – Não consegue esquecer o que aconteceu?

Meneei a cabeça, negativamente.

E chorei.

Ela me abraçou e pressionou minha cabeça contra o seu peito, dizendo: “pode chorar. Homens também podem.”

E eu admito.

Chorei.

Um grande gorila alfa chorando. Chorando de soluçar.

Sei que consegue imaginar a cena, se fizer um esforço.

 

12 de Setembro

 

ACHO QUE NÃO TENHO muito sobre o que falar hoje.

Mas veja, com todo esse lance de religião, salvação e tudo o mais, acabei me lembrando de um fato da minha infância. Acho que eu tinha uns doze anos quando eu e uns amigos meus fomos pegar doces, sabe, na época de setembro. Dia de São Cosme e Damião. Estavam todos dizendo que um senhor, um vizinho, havia feito uma promessa para se curar de um câncer e, quando descobriu que estava realmente curado, cumpriu com o que prometera: distribuir doces pra toda a vizinhança. Devia ter uma tonelada de doces estocados na garagem daquele cara: maria-mole, suspiro, quebra-queixo. Um de cada em saquinhos embalados a vácuo com estampas que diziam “obrigado, bom Deus”.

E é isso: Deus pode curá-lo por um punhado de doces.

Legal, né?

Depois eu vim a descobrir que o cara dos doces era da macumba. Não que eu tenha preconceito pelos dogmas dos outros, mas a maioria das pessoas têm. Dizem que doces de Cosme e Damião são amaldiçoados pelo diabo, e que fenômenos de possessão podem ocorrer com quem ingeri-los. Uma amiga do trabalho me contou que sua sobrinha de cinco anos tinha comido um peitinho de moça e de repente começou a dizer que era a pomba-gira, com aquela voz duplicada de demônio e tal, e ficou girando no meio do quintal, tentando morder qualquer um que tentasse tocar nela.

Uma outra amiga disse que uma conhecida que estava grávida tinha comido um pé-de-moleque satânico e no mesmo dia várias barbaridades aconteceram com ela. Foi tipo: ela estava em uma van, subindo o Alto da Boa Vista, quando a van foi parada por uma blitz policial – quatro policiais saíram de uma viatura, levaram a moça até a beira de um matagal e ordenaram que ela se despisse – quatro policiais estupraram a moça – quatro policiais espancaram a moça, e esmurraram sua barriga com tanta violência que, minutos depois, a moça estava agonizando com a cara afundada em barro e sangue.

Ela foi levada às pressas para o hospital. Morreu horas depois, e a culpa de sua morte foi um doce de rapadura e amendoim torrado. O bebê, contudo, sobreviveu.

Porque Deus é justo e bom, foi o que minha amiga disse.

Quando chega o mês de setembro você começa a ouvir as histórias. Um amigo meu me contou que tinha ouvido falar do caso de uma família que saíra passeando em uma pickup distribuindo doces pela vizinhança. Dentro do carro estavam o marido, a esposa, os três filhos e a sogra. De todos eles, a única pessoa que não havia comido doce era a sogra, pois ela era diabética e qualquer gamadinho que decidisse mastigar poderia levá-la à morte. Então no meio do dia o pai de família estacionou a pickup em uma esquina e um monte de crianças se amontoou na janela para pegar um saquinho de doce; segundos depois um caminhão desgovernado surgiu como se viesse de lugar nenhum, acertou em cheio a pickup e arrastou as crianças que estavam comendo doce por perto.

Todos morreram, com exceção da velha diabética que não havia comido doce.

Ela se converteu à igreja evangélica imediatamente após o luto pela família perdida. Deus escreve certo por linhas tortas, essa é que é a verdade, é o que essas pessoas costumam dizer. E assim como um fumante com câncer no pulmão não consegue parar de fumar, eu não consigo parar de comer os doces, mesmo sabendo dos riscos.

Bem, o vizinho que mora a três casas da minha se mudou. Na segunda-feira chegou o cara novo, e ele parece ser um cara legal.

Na terça-feira, quando eu estava saindo para trabalhar, ele me abordou na calçada e conversamos um pouco. Descobri que ele se chama Donovan; um nome incomum, não acha? Depois eu viria a descobrir que o nome dele na verdade é Celso, e que Donovan é algo como um nome que ele adquiriu logo após ter seu primeiro contato com uns sefirotes… tá, depois eu explico o que é isso.

Ele me perguntou se eu conhecia um pintor profissional para dar um jeito na parede amarela da sua nova sala de estar, cuja infiltração em dias anteriores deixara tudo horrivelmente manchado de marrom e bege. Eu disse que poderia fazer aquilo pra ele. Eu poderia pintar sua sala de estar. Eu expliquei que tinha latas de tinta pela metade guardadas no meu quintal, e todo o equipamento necessário para fazê-lo. Eu prometi que no sábado estaria indo lá para ajudá-lo com isso.

Ele me perguntou quanto eu cobraria pelo serviço.

Eu disse que não cobraria nada. Nem um tostão.

Ele me perguntou o porquê. Porque eu faria isso de graça pra um cara que acabo de conhecer?

Eu disse que gosto de pensar que estou sendo útil em alguma coisa. Gosto de ajudar as pessoas. Faz anos que não me ajoelho diante do altar do Senhor, mas desde então venho ajudando ao próximo como Jesus pediu. Sei que não é suficiente. Sei que foram feitas as comunhões e assumidos sérios compromissos, mas imagine só, passar a manhã inteira orando enquanto posso usar minha voz de telemarketing para conseguir donativos para uma instituição de caridade.

Tira minha comissão de dez por cento, e o que sobra é um auxílio humanitário que venho fazendo há dois anos.

Gosto de ajudar as pessoas.

Pelo menos uma vez por dia, preciso me sentir útil.

 

 

19 de Setembro

 

ESSAS NOSSAS CONVERSAS…

Não sei se essa perda de tempo está me trazendo o bem-estar que procuro. Não sei se a terapia é a resposta para minha busca da felicidade. Sabe como é: toda quinta-feira eu preciso sair mais cedo do serviço de filantropia para vir aqui conversar com você durante quarenta minutos. Esses quarenta minutos muitas vezes significam centenas de reais em donativos perdidos, diminuindo drasticamente a minha utilidade diária. O que eu quero dizer é que a terapia, para mim, está funcionando como um hobby sem nenhum grau de divertimento. É como falar comigo mesmo em um quarto vazio que não produz eco.

Improdutividade.

Este é o substantivo que poderia ser adesivado na porta deste consultório. O tempo passa e eu não estou mais feliz. O tempo passa e minha cabeça dói cada vez mais, e meu estômago ferve de azia e minha paciência vai se esgotando. Porque eu não me sinto melhor quando saio daqui?

Como?

O objetivo da terapia nunca foi esse?

Ah…

Enfim.

De manhã eu peço donativos para uma instituição de caridade. Já te falei disso, né? Essa é a minha maneira de praticar altruísmo. No fim do mês eu recebo 10% de todas as doações que consegui nos últimos vinte e seis dias. É tipo a minha forma de receber o dízimo.

Não estou me comparando a Deus, mas… eu sou um homem bom. Pensando bem, eu bem que poderia ser Deus. E é por isso que as pessoas me confiam o dízimo, ainda que não saibam muito bem o que estão fazendo. Exatamente como nas igrejas deste país.

Mas no meu caso elas estão dando seu dinheiro suado a um homem genuinamente bom. Eu sou útil em alguma coisa, posso garantir. Eu já bati laje em troco de pedaços de alcatra no bafo e uma lata de cerveja. Eu ajudo ao próximo, todo santo dia, muitas vezes em troca de nada. Acho que eu não consigo negar um pedido de alguém.

Quando eu era garoto meu pai me ensinou que todo homem tem que ser útil em alguma coisa. Todo homem tem que ser útil pelo menos uma vez por dia. Essa é a regra do homem superior. Se tem louça para lavar, porque não fazer esse favor para a família? Se tinha cocô do cachorro espalhado pelo quintal, porque não removê-lo imediatamente? Passar pelo rack cheio de pó e sujeira encardida e não limpá-lo demonstrava que eu era um garotinho de má índole, quase tão perverso quanto um ladrãozinho fumador de crack. Passar pelo jardim e não aparar as plantas indicava que eu era um espírito inferior.

Se tem um monte de boletos de contas a pagar sobre a mesa da cozinha, eu tenho que demonstrar minha gratidão por minha família e ir até o banco quitar a dívida. Se acabou o requeijão, eu tenho que ir até o mercado para comprar mais. Não importa se eu trabalhei o dia inteiro e estou cansado: sou eu que tenho que formatar o computador e deixá-lo agradavelmente rápido para que as outras pessoas da família o utilizem. Será que eu sou tão ingrato que não possa ir até o centro da cidade para comprar os livros escolares de que meu irmão mais novo tanto precisa? Será que não sou cristão o bastante para custear o conserto do encanamento?

Os 10% que recebo de donativos são transmutados em ajuda ao próximo, afinal. Os mil e poucos reais que recebo não ficam estagnados em minhas mãos: eles se transformam em conforto para as pessoas ao meu redor. O dinheiro que recebo vai substituir o velho liquidificador por um novo. O dinheiro que recebo vai fazer surgir um novo computador para a sala de estar. Eu faço o bem em prol da felicidade das pessoas, e por isso também fico feliz. Ou deveria ficar, se fosse um homem bom de verdade.

Mas é como eu disse antes.

Isso tudo é porque talvez eu seja um pouco hipócrita, como as outras sete bilhões de pessoas que pisam neste planetinha estranho. Estão todos buscando algo para si, e quando ajudam aos outros, ainda estão buscando algo para si. Ninguém ajuda pelo prazer de ajudar, isso é mentira! Ou você ajuda para cumprir com seu dever, ou ajuda para se sentir bem consigo mesmo e em ambos os casos você é um dos beneficiados. Só Deus é justo e bom de verdade. Só ele sacrifica um filho querido para que os outros sejam salvos.

Por que preciso vir aqui toda quinta-feira fazer sessão de terapia? Não me sinto realmente deprimido. Não tenho síndrome do pânico. Não sou esquizofrênico. Gosto de ajudar as pessoas, como Cristo ajudava; gosto de saber que meus vizinhos podem contar comigo. Contudo eu preciso confessar uma coisa: gosto de estar aqui, sentado neste sofá, conversando com você. Às vezes acho que preciso de uma nova direção, diferente da que meu pai costumava me dar. Às vezes eu admito pra mim mesmo que talvez meu pai estivesse errado em algumas coisas.

Eu preciso que você me guie.

Você me ouve, sabe? Você escuta o que eu digo, quando a maioria das pessoas esquece o que eu falo minutos depois de eu ter pronunciado as palavras. Muitas vezes elas nem sequer escutam. Eu digo que tenho um problema, e a pessoa responde: eu também tenho um problema.

Ninguém nunca me disse: “oh, então me conte. Qual é o seu problema?”

Eu digo: “pra mim sorvete de baunilha é o número um. Não tem melhor”.

Pra mim é chocolate, a pessoa me responde. No dia seguinte a pessoa me diz: “seu sorvete preferido é chocolate, certo?”

E eu me pergunto: será mesmo que sai algum som da minha boca?

Não sei se estou vivendo da maneira certa. Não sei se as pessoas vão precisar da minha ajuda daqui uns anos. Imagine um país em crescimento onde a maior parte da população já atingiu a classe média. Imagine um país onde todos tenham um salário decente e não precisem mais da ajuda gratuita do próximo e da solidariedade dos mais abastados. Imagine um país onde cada homem será seu próprio rei, digamos, com casas espaçosas e muita comida na despensa.

Não sei se eu conseguiria viver em um lugar assim. Eu preciso ajudar as pessoas mais do que as pessoas precisam da minha ajuda. Meu pai me impôs esse código de conduta e, ora, ele é meu pai. O velho sabe das coisas.

Ontem uma senhora doou dois mil reais. Ela mora num apartamento chique na Vieira Souto, em Ipanema. Este valor me confere duzentos reais de comissão no final do mês. Comissão não… dízimo, é como eu gosto de chamar, embora admito que pareça deboche. Não é, pode crer. Este é o dinheiro que vou usar para pagar a conta de luz. Este é o dinheiro que vou usar para pagar um bom jantar com minha nova namorada, mas mesmo assim, esse é o dinheiro com o qual vou ajudar o próximo, nem que seja a cachaça pro bebum que circula na minha rua.

Ah é, eu não te contei. Eu e a minha melhor amiga finalmente assumimos o  nosso namoro. É uma coisa boa, certo? Acho que isso quer dizer que estou seguindo em frente; estou deixando o passado para trás.

Firmamos as coisas naquele dia em que eu não deixei ela entrar na cozinha.

Chorei que nem um moleque.

Chorei bastante.

Então ela pôs suas duas mãos em meu rosto e me deu um beijo terno nos lábios, isso enquanto eu soluçava. Eu olhava para ela e via apenas um espectro embaçado, pois meus olhos estavam inundados em lágrimas. Ela sorriu e me disse: “você é um fofo”.

Um fofo.

Até agora não sei o que ela quis dizer com essa merda.

 

26 de Setembro

 

DESCULPA O ATRASO. Tive que deixar minha namorada na faculdade.

Não, não de carro. Eu não tenho carro. Mas faço questão de acompanhá-la no ônibus e no trem, mesmo que isso me faça chegar atrasado no trabalho ou aqui no seu consultório.

Não vou deixar ela perambular sozinha por aí.

Ah… Deus, muita coisa aconteceu nessa última semana. Por onde eu começo?

Bem, hã, a internet parou de funcionar. Digo, lá na empresa de fornecimento de rede onde trabalho à noite, não na minha casa, graças a Deus. Não sei se cheguei a falar do meu emprego como suporte no atendimento ao cliente. A semana foi um inferno. Houve um problema na rede e a equipe de técnicos preguiçosos demorou uma eternidade para resolver o problema. Então todos os dias da última semana fui obrigado a atender centenas de telefonemas e ouvir palavrões, e ouvir que minha mãe era isso e que a empresa era aquilo.

“Toda vez que eu ligo praí eu ouço a mesma ladainha. Toda vez eu falo com um atendente diferente e vocês dizem sempre a mesma coisa: que a rede está em manutenção”.

Eu respondo: – Sim, senhor. Todos os atendentes estão dizendo a mesma coisa porque esta mesma coisa é a verdade.

“Já estou há uma semana sem internet. Quer saber, cancela essa merda”!

Eu respondo: – Ok, a merda está cancelada. Gostaria de anotar o número da merda do protocolo desta merda de atendimento de merda?

“Quanto tempo a internet vai demorar pra voltar? Eu faço faculdade on-line e estou perdendo as aulas”.

Eu respondo: – Em primeiro lugar, não tenho bola de cristal. Em segundo lugar, os seus estudos definitivamente não me interessam.

“Eu trabalho com internet. Com este problema na rede estou perdendo dinheiro diariamente. É você que vai ressarcir meu valor perdido? Posso mandar a conta pra você?”

Eu respondo: – Sim. Aproveita e manda a conta do serviço que sua mãe me prestou ontem à noite. Eu sou tão bom na cama que acho que ela se esqueceu de me cobrar.

É claro que não respondo nada disso. Exceto em meus pensamentos.

Bom… o que mais? Ah é, eu ajudei a pintar as paredes da sala do meu vizinho. Foi legal. Nós conversamos enquanto fazíamos o serviço e pelo que deu pra perceber ele parece ser gente fina. Sinto que ele queria me dizer alguma coisa além de “obrigado” quando terminamos o serviço, mas não teve coragem. Tomara que ele não diga que é gay e que está apaixonado por mim, sinceramente.

Não ligo se ele for gay. Só não quero ouvir isso saindo da boca de um.

É… Por falar nisso, aconteceu algo diferente comigo esta semana.

Calma, não se precipite. Aposto que você queria que eu dissesse que descobri que sou gay e que na infância eu fui estuprado e coisas do tipo. Isso ajudaria a encaixar todas as peças, não é?

Vocês terapeutas são foda.

Então, na verdade eu comecei a fazer uma coleção de camisinhas.

Isso mesmo, camisinhas. Não me olhe assim, é divertido. Duvido muito que qualquer pessoa no mundo faça coleção de camisinhas… é uma coisa tão… tão exclusiva.

Começou quando fui comprar uma cartela para usar com a minha mina na noite da última terça-feira. Agora eles estão vendendo camisinhas em embalagens vivazes e coloridas, metálicas e o caramba, e são tantos tipos que não tem como não ficar confuso. Primeiro eu optei por uma cartela do tipo Tradicional. A embalagem era lilás. Preferi tradicional porque nunca fui de correr riscos, então porque pegar uma Ultra-fina? Porque pegar uma sabor morango?

Minha namorada sempre queria sexo seguro depois da última gravidez, e eu não ia negar um pedido tão sensato. Ela ficou grávida de um outro cara, não de mim, mas ela resolveu com aborto e então ficou tudo certo. Eu sou católico, certo, e sim eu condeno o aborto, acho coisa de assassinos sem coração e tal, mas, pô, como eu iria falar isso com a minha mina? Gosto dela. Enfim, saí de casa tarde da noite rezando pra que houvesse um mercado aberto, ou uma farmácia.

O mercado da esquina ainda estava aberto, mas estava deserto. Comprei dois maços de cigarro e uma garrafa de Red Label, pra disfarçar, porque não sei pra você, mas eu tenho uma vergonha fudida de comprar só camisinhas. Enquanto estava no caixa vi uma daquelas cartelas coloridas metálicas de nomes mediterrâneos. Acho que nunca tinha pensado nisso antes: porque as embalagens de camisinhas das marcas famosas são tão brilhantes e chamativas? Vi uma cartela dourada com camisinhas lubrificadas – a embalagem era tão bonita que poderia servir também para embalar os picolés finos que as senhoras de Copacabana costumam comprar depois de uma caminhada pela Avenida Atlântica. Tinha uma embalagem que informava que certa camisinha era da edição limitada Marathon, e essa informação me fez coçar a cabeça. Em primeiro lugar, por que Marathon? Será que tem alguma piada aí que eu ainda não entendi? E depois, porque criar uma edição limitada de camisinhas? É como se eu fosse transar com ela durante algum tempo, e em seguida, quando a edição limitada saísse das prateleiras, eu dissesse: “sem as camisinhas Marathon não vale mais a pena. Nunca mais eu vou transar”.

Comprei uma cartela de camisinhas do tipo Tradicional, mas pego também uma cartela de camisinhas douradas, e uma cartela de camisinhas Marathon. Se a edição é limitada, estas podem ser raras no futuro e valer um bom dinheiro. Então pego mais duas cartelas. O vendedor me olha com o rabo do olho e depois se vira, sem graça. O vendedor me vê chegar com todas aquelas camisinhas e fica com as bochechas rosadas. Tudo nele me fez imaginar que fosse gay. Seus lábios se envergam num sorrisinho misterioso, e eu acho isso realmente engraçado. Mas também acho patético, pois eu fui treinado pra isso durante os anos da minha infância e adolescência. Você entende, né? Aquela coisa toda da bíblia dizer que Deus considera uma abominação que homens se deitem com homens e coisas do tipo, o que é errado é errado, e um cara não pode simplesmente se deitar com outro e achar que tá tudo ok.

– Tá rindo de quê, veadinho? – digo ao atendente. Saiu de maneira espontânea, como se eu tivesse perguntado quanto custa uma camisa de marca numa loja no shopping.

– Como? – o atendente se impressiona com a minha rispidez.

– Essas camisinhas são pra eu comer mulheres, entendeu? Mulheres… como Deus espera que seja feito.

– Eu não disse nada, senhor – o atendente vai ficando  mais vermelho que um caqui.

Ah, como as pessoas são idiotas! Se eu fosse ele, eu teria a resposta na ponta da língua: “se o senhor só come mulheres por ordem de Deus, se não houvesse uma ordem de Deus, o senhor comeria homens?”, ou diria algo semelhante. Mas não. O pobre moleque, que eu nem sei se era gay mesmo ou só um pouco afeminado, ficou se tremendo todo e, sem dizer mais uma palavra, computou o valor da compra com meu cartão de crédito e me entregou a mercadoria com a cabeça baixa. Eu senti dó dele. Me perguntei se valia mesmo a pena continuar seguindo os antigos códigos de conduta moral dos meus pais.

No fim, e eu preciso esclarecer isso, eu tava só brincando. Eu tava esperando uma resposta do boiola, mas ele não disse nada. Deve ter ido chorar nos ombros do gerente, coitado.

Voltei pra casa e trepei bastante com a minha namorada. Não deixei que ela visse as outras camisinhas que eu tinha comprado. Não queria que ela me achasse mais maluco do que já devia achar. Depois que a gente cansou a ponto de não dar mais, ficamos abraçados na cama conversando.

Ela me perguntou sobre a terapia. Eu falei de você, falei que eu estava me consultando com um psicólogo por causa do meu estresse e tudo mais, e eu achei estranho que ela se comportasse como se isso fosse a parada mais legal da galáxia. De repente eu virei um cara muito foda pra ela, um hipster, um cara afetado e por isso absurdamente inteligente. Não sei se ela entendeu muito bem o sentido disso tudo: “eu estou me sentindo mal”, eu expliquei. Sinto que estou quebrando, perdendo a linha, ficando maluco de verdade, e ela só ficou lá rindo, achando uma puta graça, dizendo que se sentia excitada por estar namorando um psicopata.

– Espero que você esteja brincando – eu disse. – E não deixa seu pai ouvir essas besteiras.

– Porque não? – ela estava se esfregando em mim, acariciando meu pescoço como se eu fosse um cachorro. – Se meu pai encrencar com o nosso namoro, você mataria ele?

Olhei pra ela, sem acreditar.

– Cê não pode estar falando sério.

– É uma prova de amor, JC. Os casais fazem isso, no mundo inteiro. É verdade. O meu ex-namorado uma vez me deu uma prova de amor: ele tinha ganhado dez mil reais num desses títulos de capitalização, raspadinha ou um troço assim, então foi até uma joalheria e me comprou um cordão de ouro, ouro puro, que custou quase três mil reais.

– Se o amor fosse grande o suficiente, ele tinha que te dar os dez mil reais.

Ela sorriu: – Foi o que eu disse, e ali tudo começou a desmoronar. Ele chegou a arrancar o cordão do meu pescoço com um puxão, pode? Filho da puta. Me machucou.

– Infelizmente não posso te provar meu amor – eu expliquei. – Porque não tenho dez mil reais, e também não vou matar o seu pai. Apesar de que acho que você tá brincando.

Ela riu de um jeito estranho, mas me deixou sem resposta.

Bom, é isso.

Até que essa coisa de terapia é interessante. Posso conversar com você e falar sobre coisas que eu não diria pra ninguém. Nunca.

Eu tinha outras coisas pra dizer, mas acho que deu minha hora, né? Não pode abrir uma exceção e fazer hora extra? Todo funcionário de call center faz hora extra pra poder comprar mais fraldas pro filho, ou pra colocar mais uma caixa de cerveja na vaquinha do churrasco de sábado. Você não tem cara de quem bebe, pra falar a verdade. Então… nada feito?

Até quinta.

  

3 de Outubro

 

 

CADA EMBALAGEM DAQUELA VINHA com uma camisinha. Uma caixa vinha com uma cartela contendo doze embalagens, portanto doze camisinhas. Eu não usei nenhuma com a minha nova namorada, a não ser a Tradicional. Aquelas que vieram na minha caixa de Marathon tamanho XL, cuja embalagem roxa metálica informava sua principal característica – Super Comfort Shape Hypersmooth Lubricant – eu deixei especialmente separadas na parte superior do meu armário até que eu tivesse tempo de procurar no tradutor do Google o que aquela especificação significava.

Contudo eu tinha realmente gostado do aspecto das embalagens daquela nova marca de camisinhas. Sei que é estranho insistir nesse assunto, mas acho que você vai concordar comigo. No dia seguinte, pela manhã, me dirigi a pé até o mesmo mercado da noite anterior, convencido a pedir desculpa àquele garoto do caixa e explicar o motivo pelo qual agi com tanta descortesia. O garoto, é óbvio, não estava lá. Se ele trabalhava no turno da noite, não estaria lá pela manhã, foi o que me informou um outro atendente, esse meio marrento. Antes de ir embora, e pra não perder a viagem, decidi comprar uma cartela das camisinhas de embalagem rosa. Esta, informava a embalagem, era Sensível, com material mais fino, para uma maior sensação de tato e látex consideravelmente resistente. Levei.

Uma hora depois voltei e comprei a embalagem preta Ultra. Material mais espesso e ultrarresistente, porém com menor sensibilidade. O atendente ficou me olhando de testa franzida quando joguei o produto sobre a bancada. Dessa vez eu não disse nada, tive que irrelevar, porque imaginei que a cena toda devia ser mesmo muito estranha. Um cara compra uma cartela inteira de camisinhas e volta uma hora depois para comprar mais. De minha parte eu respeitaria um cara desses, concluindo que ele devia ter a oportunidade regular de poder meter o dia inteiro, embora pra um atendente que seja religioso provavelmente o impacto deva ser o contrário. Imagina você.

Olhei para as quatro tiras de embalagens de camisinhas sobre meu colchão. Uma dourada, uma roxa, uma rosa e uma preta. Eu lembrei que ainda não tinha adquirido a embalagem cinza, camisinhas tesaurizadas; quem sabe o que é isso? A embalagem vermelha, camisinhas com lubrificação extra, e a embalagem azul piscina, camisinhas com efeito refrescante. Já que eu havia claramente começado uma coleção, voltei lá e comprei todas. Sim, sim, às vezes eu me pergunto porque eu não fui escolher algo mais comum para colecionar: livros, filmes, histórias em quadrinhos, figurinhas; e sim, eu entendo que uma coleção muitas vezes pode ser uma espécie de obsessão. Algumas pessoas começam uma coleção no intuito subconsciente de se prender a uma obrigação, a algo que lhes espante o tédio. Eu tive um colega de trabalho que colecionava videogames – ele tinha todos aqueles aparelhos antigos sobre a estante de sua sala de estar, Atari, Nintendo, NeoGeo, o primeiro Playstation cheio de jogos originais, e quando eu perguntei pra ele porque ele tinha decidido fazer aquela coleção, ele me explicou que nunca tivera um videogame antes de chegar à fase adulta, pois na infância o pai o obrigava a estudar quase cem por cento do tempo. Eu não preciso ser psicólogo para saber que o cara estava tentando recuperar o tempo perdido e compensar a vida vazia. Não acho que meu caso com as camisinhas seja parecido. Acredito que eu tenha uma boa vida sexual desde os meus dezoito anos de idade. Não, nunca fui abusado quando era criança, pode ir parando de me olhar desse jeito, ok?

Como? Se minha coleção de camisinhas tem alguma relação com o episódio na van?

Agora você me pegou.

Enfim, quando voltei pra casa com todas aquelas embalagens, organizei-as de acordo com uma ideia que me veio à mente. Sobre meu colchão fiz um degradé de cores, das embalagens mais claras às mais escuras, até que seis tiras estivessem alinhadas com precisão milimétrica sobre meu edredom verde-limão.

Fitei aquela expressão de arte por alguns segundos.

Pouco tempo depois eu não estava mais vendo cartelas de camisinhas. Serpenteando nas ondulações da colcha eu achei que poderia estar mesmo vendo…

A arte parecia mostrar correntes penduradas, como naquele filme com um careca cheio de pregos na cabeça, lembra?

Como não tinha mais camisinhas para comprar aquele dia, demorei um só dia para completar toda a coleção possível, decidi ir para o call center do serviço filantrópico. Lá é como um trabalho free lancer, se ligou? Então você pode chegar a hora que quiser, até porque recebemos por comissão, e a comissão é muito mais lucrativa que o salário na carteira. Você pode chegar uma hora da tarde e ficar só por uma hora lá, o risco é seu. É você quem está perdendo dinheiro, e é você que está negligenciando o amor ao próximo.

Fiquei no ponto esperando o ônibus por meia hora e ele não passou. Tive que pegar uma van, do contrário não poderia trabalhar em prol das crianças anêmicas e dentro do código do meu pai passaria um dia inteiro sendo um inútil completo.

Você sabe: pra mim, entrar numa van é como ser um judeu alemão em 1940 e entrar numa caçamba para Auschwitz.

Eu sento no banco de trás e vejo os flashes.

Ainda posso lembrar dos nomes deles. Acho que nem um processo de lobotomia me faria esquecer. Nem amnésia. O motorista da van se chamava Reinaldo. O sujeito ao lado dele, usando uma camisa vermelha com a estampa de Fidel Castro com charuto na boca (e não de Che Guevara, é sério), era chamado Ninho, e logo nos bancos de trás estavam Esaú e Jader. Em um dos bancos do meio estava um cara chamado Rafa. Minha namorada e eu sentamos em uma sequência de poltronas onde não havia ninguém. Ficamos no meio da tal sequência, pois não demoraríamos muito para descer. Ou foi o que eu achei.

No escuro, sob a fraca luz avermelhada da lâmpada camarão no teto da van, não pude mais ver o rosto dela. Ao ouvir sua respiração, contudo, achei ter ouvido um suspiro de aflição. Aos poucos nossos olhos acostumaram-se com a escuridão e os detalhes do horror que se aproximava foram ficando mais nítidos.

O motorista deu a partida na veículo e voou pela Avenida Atlântica, e nós que estávamos sem o cinto de segurança fomos jogados para as costas dos bancos frontais. No segundo seguinte os dois homens que estavam nos fundos do veículo vieram para a frente, para a fileira onde minha mina e eu estávamos. Um deles passou na frente dela e sentou-se ao seu lado, jogando um braço por cima de seus ombros. O outro sentou-se ao meu lado, e não tardou em me dar um soco no pescoço, bem no pomo de adão. – Tu não vai arriscar tua vida por causa de uma buceta, ou vai? – agora lembro que ele disse isso pra mim.

No rádio da van, entre batidas compassadas e um parco sinal de um sax melodioso, um moleque de voz estridente falava sobre sexo como se falasse sobre o último joguinho que adquirira em uma loja de brinquedos. Falava sobre sexo como se falasse de pique esconde.

Jader fechou a mão no seio esquerdo dela. Ela estava estática, chorosa, mas não esboçava reação. De repente não se sentia bem pra lutar. Talvez já soubesse o que ia acontecer antes mesmo que um dos homens fechasse a porta de correr da lateral do carro. O agressor disse no ouvido dela: – Você é um sonho de cachinhos vermelhos, sabia disso?

– Não me machuca, por favor – suplicou ela.

Minha vontade era a de reagir, mas eu sabia que morreria se o fizesse. Isso estava claro. Alguém ali tinha uma arma, de relance eu percebi, isso era certo. E se a arma não estivesse carregada? Se fosse caô, uma dessas armas falsas? Ora, podia muito bem ser, mas eu nunca teria coragem de arriscar minha vida preciosa pra descobrir. Minha maldita preciosa vida perfeita de benfeitor, seguidor dos códigos patriarcais.

– Machucar? – disse Jader, cheirando o pescoço dela. – Eu nunca machucaria uma garota. Ainda mais uma como você. Mas os meus amigos… bem, sabe… não respondo por eles…

– Então deixa a gente sair – disse ela, com a voz baixinha. Uma submissão de dar dó. Ela e eu. Dois amantes covardes demais para arriscar suas preciosas vidas, uma em prol da outra.

O homem que estava ao meu lado segurou meu braço com violência e me forçou para a frente do carro, onde o homem do meio, Rafa, me segurou por trás num abraço de urso. Com um safanão me fez ficar de frente para o banco onde minha namorada estava. Daí então os dois homens que estavam ao lado dela começaram a tocá-la em todas as partes de seu corpo, as partes que você pode imaginar, e quando ela tentou se desvencilhar deles, Jader segurou-a pelos cabelos ruivos. Olhou para Esaú, e disse: – Não gosto de bater em mulher, meu camarada. Dá uma ajuda aqui.

Esaú deu um tapa na cara da garota. Ela gemeu e pendeu a cabeça para o lado. Quando ergueu o rosto pude ver as grossas tiras vermelhas das marcas de dedos que ficaram ali, misturando-se com suas sardas, como se fosse uma pintura de guerra. E ela tinha a pele branca como leite, qualquer violência deixava seu corpo marcado, delineado.

– Jogo rápido aí, pessoal – disse o motorista. – Eu também vou querer comer essa vagabunda.

Já estava chovendo nos bairros vizinhos, portanto todas as ruas estavam desertas. O anoitecer é a hora que os ratos começam a sair dos esgotos, eu tinha um tio que dizia isso, e quem tem nojo se esconde em casa. Não adiantava gritar. E mesmo que fosse o contrário, mesmo que as ruas estivessem lotadas de passantes, o insulfilm nos vidros e a voz do moleque no rádio não permitiria a ninguém a sequer suspeitar do que estava acontecendo ali dentro. Obedecendo à urgência na fala do motorista, Jader abriu o zíper e fez seu membro sair de dentro da calça, forçando o pescoço dela a ir ter com ele. Ela resistia com determinação. Endurecia o pescoço e forçava o corpo para trás.

Boa menina.

Pena que o esforço foi em vão.

Quer saber? Por mais que eu tente, não consigo esquecer todos os pormenores da cena. Não consigo eliminar da memória a imagem dela forçada a fazer sexo oral com Jader, ou em sexo regular com Ninho. Reinaldo, o motorista da van, estacionou o veículo perto do Museu de Arte Moderna, num canto onde a escuridão parecia ser espessa e as únicas coisas vivas que perambulavam eram ratos e aqueles zumbis viciados em crack, e experimentou sexo anal com a garota. Vendo o estado dela, nua e cheia de espirros seminais nas pernas e na virilha, Rafa fez uma cara de nojo e se contentou em ser só masturbado durante alguns minutos.

Quando lembro da cena, ou seja, a cada segundo do resto da minha vida, tenho mais ódio de Esaú. Ele foi o único que não a estuprou, mas fez pior, a violentou com tabefes e socos. Um dos murros dele visaram o queixo dela, fazendo com que um de seus dentes pulasse da boca ensanguentada e empapada de esperma.

Esaú era o mais pervertido. Um tarado retardado que sente prazer em causar a dor nos outros.

Assim que entramos na van – a linda e promissora possível futura atriz de teatro de mãos dadas com seu namorado pretenso surfista de corpo bronzeado – algo ativou-se na mente daqueles sujeitos. Eu imagino isso, porque não consigo acreditar que eles eram humanos, é difícil acreditar que sejam.

Olha eu, dando uma de psicólogo.

Assim que entramos na van, imagino, as máscaras dos estupradores caíram. Pais de família, trabalhadores, religiosos. Um pode ser voluntário em uma instituição que ajuda criancinhas com câncer. O outro, universitário cursando Serviço Social. Talvez um deles seja até contribuinte da instituição de anemia falciforme para a qual presto serviço.

Que piada.

Hahahahahah

Sem máscara, são todos monstros.

Eu sem reação. Eles ativos demais. Ela com os pulsos cortados.

Monstros.

  

10 de Outubro

 

ÀS VEZES EU FICO meio puto com Deus.

Vejo as pessoas exibindo seus talentos naturais nas ruas. Tanta gente recebeu pelo menos um dom dado por Deus.

Quando eu era moleque eu queria saber jogar futebol. O cara que sabe jogar futebol tem um certo status com a galera da rua. O cara que sabe jogar futebol não parece um CDF babaca e misantropo, se arrastando pelos cantos, no corredor da escola, com medo de incomodar alguém. O cara que sabe jogar futebol sempre se dá bem com o patrão nas empresas. O cara que sabe jogar futebol dificilmente vai se tornar um adulto quase corcunda sofrendo de sobrepeso.

Se eu pudesse escolher um talento pra ter, porém, eu gostaria de saber desenhar. Pintar quadros, sabe? Tenho certeza que meninos que sabem desenhar ficam com todas as garotas da sala. Quando eu estava no segundo grau um garoto da minha turma desenhou uma das minas mais gatas da escola numa folha de caderno e isso foi o suficiente pra ela aceitar sair com ele. Tem algo nos artistas que atraem as garotas, parece.

Queria ter um talento, mas Deus me jogou aqui no mundo completamente vazio.

Às vezes eu me imagino tendo dom para matemática. Já pensou se eu fosse um físico? E seu eu fosse professor?

Não. Não é pra qualquer um.

Eu queria ter um talento, e se talento é um presente dado por Deus, então talvez Deus esteja muito ocupado, cuidando de muitas coisas importantes demais, e nesse caso me tornei irrelevante.

Então Ele decidiu enviar para a Terra um assassino que tem o dom de fazer música; então Ele decidiu enviar para a Terra um pedófilo que escreve romances considerados best-sellers; então Ele decidiu enviar para a Terra comediantes que não têm respeito pelo próximo; então Ele decidiu enviar para a Terra brutamontes violentos que ganham milhões de reais subindo em arenas de luta; então Ele decidiu enviar para a Terra mulheres lindas que alugam seus corpos por dinheiro; então Ele decidiu enviar para a Terra gente muito talentosa e muito grosseira…

E eu, um cristão bonzinho, não consigo nem jogar uma porcaria de um amendoim pro alto e capturá-lo com a boca.

Sei o que vai dizer. Eu sei. Deus tem um plano pra nós, certo?

Não é isso que você ia dizer?

Então você ia dizer que todos nós cometemos pecados. Por menores que sejam. Talvez você tenha respondido grosseiramente à sua mãe e nem percebeu o quanto a deixou magoada. Pode ter falado palavras feias sobre um coleguinha da sua turma no Fundamental. Talvez tenha pego um doce escondido na venda da esquina. Por isso eu não mereço os dons de Deus, certo?

Desculpe.

Às vezes eu te vejo aí, relaxando nesta poltrona de couro, e por um milésimo de segundo eu te imagino como o velho indígena padre Cosme.

Claro que você não tem nada a ver com o padre Cosme.

Mas às vezes eu te imagino sendo outra pessoa. Às vezes eu vejo o padre Cosme, às vezes eu vejo um neurocirurgião, às vezes eu entro aqui e imagino que você seja uma stripper. Ha, eu sei, eu sei que isso não tem graça, desculpa. Mas é tão fácil se abrir para terapeutas como é fácil se abrir para strippers, não acha? Imagina uma mulher linda na sua frente, com os peitos de fora, balançando o rabo e rebolando ao som de Careless Whisper. Pra uma dessas eu contaria tudo.

Só que, você sabe, eu não consigo controlar a maioria dos meus pensamentos. Eu vejo uma pessoa e imagino uma diretriz de bondade a ser iniciada. Eu vejo você e imagino o padre. Eu vejo o presidente se pronunciando em rede nacional e imagino esperança no futuro (de verdade!). Eu vejo programas de auditório onde um apresentador mauricinho concede prêmios às pessoas e de fato imagino que ele seja um sujeito solidário. Eu vejo uma stripper e imagino uma talentosa atriz de cinema, uma artista, um potencial desperdiçado. Eu vejo pastores pedindo o dinheiro da oferta e digo a mim mesmo: sim, aquele dinheiro vai ser doado às pessoas mais necessitadas.

Eu penso que os talentos são dons outorgados por Deus para que a pessoa que os recebeu os use em Sua obra. E como não recebi dom nenhum, acho que Deus me enviou para a Terra apenas como um observador passivo. Eu não tenho uma meta dentro da obra. Eu não tenho nenhuma missão especial.

A não ser o gesto de profunda gratidão pela vida ao ser útil em alguma coisa.

Pelo menos uma vez por dia.

 

17 de Outubro

 

PERCEBI QUE EU NÃO TENHO falado muito sobre a minha família. Isso é porque eu me mudei de casa faz pouco tempo, finalmente estou morando sozinho, e a experiência está sendo boa pois estou finalmente focando no meu futuro. Não tenho pensado muito neles, mas eles parecem não conseguir se esquecer de mim.

Estou alugando uma casa em Campo Grande, na Zona Oeste, e a tal casa fica em um condomínio grande construído bem no meio de um matagal e de uma área extensa, deserta e silenciosa. Pela noite só se ouvem os grilos e latidos de cachorro muito longe. Eu gostei de lá. Parece que estou vivendo num pequeno vilarejo como esses que vemos nos filmes cult europeus.

O nome do condomínio é Blue Paradise. Tem esse nome porque todas as suas casas tem uma coloração azul nas paredes externas, e azul-piscina nas paredes internas.

No domingo passado, sem ser esse agora, o outro, meu pai me ligou. Queria me avisar, da maneira mais formal do mundo, que eu era um filho ingrato. Já estava fazendo duas semanas que eu estava morando no apê da minha namorada, e também fazia duas semanas que eu não voltava pra casa. Não que ele se importasse com a minha ausência – ele deixou isso bem claro –, mas pelo visto minha mãe esteve sentindo falta de mim.

– Seu irmão precisa da sua ajuda nos estudos – disse o meu pai no telefone.

– Meu irmão é mais inteligente que eu – respondi. – Ele não precisa da minha ajuda pra estudar.

– Ele precisa de auxílio monetário, JC. Não posso pagar as passagens de ida e volta pra faculdade.

– E por que é que ele não trabalha mesmo? – eu quis saber. O moleque tinha vinte e poucos anos e a carteira de trabalho com as pautas todas vazias, em branco, nova em folha.

– Você é um cara ruim, JC – respondeu meu pai. Percebi que ele já estava ficando com a voz cansada. Era como se falar comigo fosse um esforço tremendo, como se tivesse que empregar um empenho hercúleo e insuportável. Era como tentar falar com alguém ao telefone enquanto dá dez voltas correndo ao redor do Campo do Santana. – Já esqueceu de tudo que fiz por você? Esqueceu que fui eu que te ensinei a ler quando você tinha quatro anos de idade? Esqueceu que fui eu que te dei a coleção completa dos bonequinhos do He-Man quando você completou dez anos? Esqueceu que eu gastei uma fortuna com seus estudos?

É. Agora joga na minha cara que eu só existo porque você e a mamãe fizeram o terrível esforço de transar por horas e horas, trinta anos atrás.

Mas pelo menos o meu pai me faz o favor de me chamar pelo meu apelido; ou seja, JC. Eu gosto. É como se o nosso relacionamento fosse algo mais informal do que realmente é. Como se fossemos amigos, ainda que não fossemos. É como se ele pudesse me chamar na rua: “e aí, JC”? – e eu respondo: “e aí, sangue bom”?

JC, assim como Júlio César.

JC, assim como João Calvino.

JC, assim como o Salvador da humanidade.

O curioso é que o que meu pai diz realmente surte efeito na minha cabeça. Quando ele me diz que sou inoperante, eu acredito. Quando ele me diz que tenho muito o que aprender na vida, que eu não sou maduro e toda essa merda, eu acredito. Quando ele me diz que eu preciso fazer exercícios e parar de comer batata frita porque isso dá câncer, eu acredito.

– Não tem nada que Deus odeie mais que um ingrato, JC – ele me informa. Isso é curioso. Meu pai passou quase vinte anos da minha vida me apoiando, pagando meus estudos, me levando no médico quando eu tinha caganeira, me dando um trocado pra ir assistir o Harry Potter no cinema. Quando ele fez sessenta anos, aconteceu o inverso: eu paguei o tratamento de pedras nos rins dele, eu comprei uma cadeira de rodas para ele quando ele ficou com a coluna fodida, e carreguei ele no colo quando ele ainda não tinha uma cadeira de rodas. Ensinei a ele como usar o computador quando ele decidiu começar a fazer apostas on-line. Instalei a sua nova TV com sinal digital na parede de sua casa. Daí a minha pergunta: quando eu vou quitar toda a dívida que tenho com ele? O que eu preciso fazer pra ele parar de jogar na minha cara que me deu uma bicicleta de aniversário quando eu tinha dez anos?

– Meu irmão nunca fez nada por mim, pai.

– E daí? Isso quer dizer que você pode ser um cuzão com qualquer um, só porque as pessoas não fazem nada por você? Vê se cresce, JC. O mundo não gira ao redor de você, vai por mim.

Depois que ele desliga o telefone, algum tipo de remorso maluco toma meus pensamentos, como se eu fosse um robô programado para não ser escroto, as frases do meu pai se repetindo na minha cabeça a todo momento, coisas antigas e coisas que ele acabara de dizer na última ligação. Pressionado, eu ligo para o meu irmão mais novo.

– Oi – digo eu quando percebo que ele atendeu.

– Ei. JC? – maioria das pessoas que conheço me chamam de JC. Eu gosto.

JC, assim como Jairo Cardoso.

JC, assim como José Cláudio.

JC, assim como Jonatas Camargo.

Tô brincando.

Essas pessoas não existem. Assim como eu. Digo, pode ser que existam, é claro. Mas assim como eu, são apenas cordeiros de um rebanho. São só nomes que não significam nada.

– Tá precisando de dinheiro, cara? – pergunto.

– Tô. Já perdi três dias de aula porque não tenho grana pra passagem. Eles aumentaram o valor da passagem de novo, sabia?

– Tô sabendo.

– Pode me arranjar algum?

– Algum o quê?

– Dinheiro.

– Ah. Sim, sim, posso. De quanto precisa?

– Pra me garantir pro resto do mês, acho que uns duzentos reais.

– Entendi. Pode vir aqui no apê da minha mina pra buscar…

– Ih, cara. Eu tô sem grana pro ônibus. Não pode vir aqui em casa trazer a grana?

Posso.

Claro que posso.

Eu não só posso como eu quero.

Eu te amo, cara. Você é meu irmão. Você é meu camarada. Faria qualquer coisa por você.

E só pra constar, meu pai realmente me deu a coleção completa do He-Man.

Só que eu tinha pedido Thundercats.

 

24 de Outubro

 

LEMBRA DA MINHA preocupação com o vizinho novo? Eu estava achando que ele era gay…

Agora eu acho que ele não é gay.

Vou explicar: na segunda-feira à noite eu vi ele entrar em casa abraçado com três garotas. Eu digo garotas, mas estou falando de mulheres, é claro. As três eram brancas, magricelas, e duas delas tinham muitas tatuagens nos braços e nas coxas. Sei das coxas pois as três estavam usando minissaias bem curtas, aquelas de couro brilhante, quase metálicas à luz dos postes na rua. Usavam roupas pretas. Uma delas usava um daqueles lencinhos vermelhos enlaçados na cabeça, estilo Amy Winehouse. Num primeiro momento, e desculpa se eu pareço preconceituoso dizendo isso, mas eu achei que elas fossem prostitutas.

Senti um pouco de inveja, eu confesso. Embora, no dia seguinte, eu fosse descobrir que as três garotas faziam parte de um projeto muito maior do que simplesmente uma noite de orgia a preço fixo.

Entende?

Elas não estavam interessadas no meu vizinho por ele ser um cara bonito. Até porque ele não é. Também não eram prostitutas, dava pra sacar, a não ser que meu vizinho as tivesse trazido de um bordel temático onde todas as mulheres se vestissem como cantoras de jazz.. Também não eram drogadas querendo grana pra comprar uns sacolés de pó.

Elas eram bruxas.

Ha!

Queria que você pudesse ver a sua cara agora.

Mas eu não estou fazendo piada. Elas eram bruxas mesmo. De verdade. Eu não sei exatamente o que significa quando uma mulher se intitula bruxa, ainda que o meu vizinho tenha tentado me explicar na manhã de terça-feira. Mas o papo é sério. Sei que o Dia das Bruxas está chegando e que é muito pertinente eu vir de repente com esse assunto, como se eu tivesse querendo te sacanear, mas eis o que realmente aconteceu:

Meu vizinho me encontrou saindo de casa naquela manhã. Me cumprimentou e falou qualquer coisa sobre o jogo do Campeonato Brasileiro de domingo passado. Me perguntou se eu tinha um tempo pra conversar, e eu respondi que não tinha hora certa para chegar no meu serviço filantrópico. Eu tinha um tempo sim, portanto, sobre o quê você quer falar? Perguntei. Ele me convidou pra tomar um café na padaria do condomínio.

Pedimos café e pão na chapa. Enquanto não éramos servidos meu vizinho começou a dizer o que queria me dizer, em voz baixa.

– Eu te vi ontem – ele me disse.

– Ah, foi? Onde?

– Na janela do seu quarto. Você me viu entrar com aquelas amigas…

Eu ri.

– Amigas?

– Sim. Por enquanto. Daqui a pouco, mais ou menos uma semana, elas serão minhas amantes. Depois voltarão a ser minhas amigas, como se nada tivesse acontecido. Quer dizer… uma delas vai ser minha amante. Mas somente por uma noite.

Balancei a cabeça.

– Não entendi.

– Estamos chegando na época do Beltane. E eu aposto que você não faça ideia do que seja isso.

De fato eu não sabia.

Aposto que você também não sabe.

Sem problema. Você é terapeuta, não uma bruxa. Você é especialista em esmiuçar mentes, e não almas. Não teria como saber. Mas o meu vizinho teve paciência pra me explicar.

– O Beltane é um festival de comemoração à morte do inverno e ao renascimento do verão – meu vizinho me explicou. – É uma festa alheia ao calendário cristão, inexistente na tradição judaica, então podemos dizer que é um rito pagão.

Franzi a testa. Devo ter feito uma cara engraçada, porque meu vizinho sorriu para mim como meu pai sorriu quando me explicou, pela primeira vez, que Cristo teve seu corpo massacrado e foi assassinado pra que eu tivesse o direito de ir pro céu.

– O que você viu ontem – continuou ele – foi apenas o preparativo para a festa. Aquelas três vieram conferir se tava tudo direitinho; vieram fiscalizar minha casa, para saber se eu estava mesmo preparado para receber o festim sagrado. As três são supervisoras do culto do qual fazem parte, manja?

– Então é tipo uma festa?

O atendente do balcão da padaria trouxe o nosso café e os pães. Meu vizinho falou comigo enquanto deixava cair açúcar em sua xícara: – É tipo uma festa. Mas não vamos estar lá só pela diversão. Vamos agradecer ao mundo o dom da fertilidade. Vamos dizer para os deuses que nós estamos gratos pelo dom da vida.

– Então vai ter putaria? – perguntei, interessado. Meu vizinho riu mais uma vez.

– Pode-se dizer que sim. Embora não seja putaria do jeito que você tá pensando. Digamos que vai ter putaria com todo o respeito.

Essa foi boa, né?

Putaria com todo o respeito é uma coisa que eu nunca tinha ouvido antes, e acho que não vou ouvir no futuro. Acho que foi a partir daquela conversa que eu descobri meu primeiro possível amigo. E quem não iria querer ter um amigo como aquele?

Antes que você diga alguma coisa, deixe-me explicar que eu realmente fiquei preocupado com aquela conversa. Como um cristão regular, batizado, comungado, acharia normal tomar um café e discutir bruxaria na esquina de casa? Só que, apesar de temer a Deus, ajudar ao próximo e todas essas coisas, eu nunca fui tão fanático que não me permitisse tentar entender sobre as coisas que ainda não entendo. Meu vizinho me explicou que sua religião era tão cristã quanto a minha; me explicou que a Ordem do Templo – igreja a qual se afiliara não fazia muito – prestava respeito e admiração ao cordeiro sacrificado dois mil anos atrás, como devia ser.

Meu vizinho me explicou que o Beltane era um festival de alegria. Os participantes banqueteiam, dançam, pulam fogueiras e fazem sexo. O objetivo é perpetuar a espécie, trazendo ao mundo crianças mais espiritualizadas e intimamente ligadas ao coração da Terra. “O objetivo é a evolução espiritual através da carne” ele disse, e apesar de não fazer muito sentido, achei que fosse algo divertido a se fazer numa quinta-feira a noite.

– Se quiser assistir – disse ele –, pode aparecer lá em casa, no dia trinta e um, à noite. Infelizmente você não vai poder participar, pois não está em comunhão com o templo, mas não tem problema nenhum se quiser dar uma olhada.

– Até porque eu tenho namorada – respondi.

– Eu também – disse ele depois de me lançar uma piscadela, e se levantou e foi embora.

Eu sei o que você tá pensando agora.

Está querendo saber se eu vou, certo? Quer saber se eu quero assistir a essa pouca vergonha? Nossa próxima sessão é exatamente no dia trinta e um, e você não vai suportar saber que eu faltei a uma conversa nossa só pra ir dar audiência a um rito pagão de fornicação.

Pode deixar. Em ambos os casos eu não vou me permitir faltar.


 31 de Outubro

 

HOJE É O GRANDE DIA.

Sei que você quer falar de outras coisas importantes, mas não consigo parar de pensar na tal festa… no Beltane. É hoje à noite.

Eu decidi ir. Sei que pode parecer uma traição à santa igreja, só que eu sempre fui um cara mais de mente aberta. Não vou conseguir ir dormir tranquilamente sabendo que perdi a oportunidade de conhecer algo tão novo, tão incomum. Sei que não vou conseguir dormir sabendo que um ritual antigo e quase que exclusivo estará acontecendo bem na casa ao lado da minha.

Eu conversei com a minha namorada, e é óbvio que ela ficou puta quando soube dessa minha decisão. Disse que eu teria que tomar então uma nova decisão: se fosse à festa, não precisaria mais falar com ela. Ela disse exatamente assim: “se você for nessa merda, pode desaparecer da minha frente, pra sempre.”

Eu não consigo entender essa tara que as pessoas tem em manter a fidelidade no relacionamento. Não dá pra entender. Não seria muito mais agradável, muito mais prazeroso, se nós pudéssemos continuar juntos e, ao mesmo tempo, pudéssemos manter nossa liberdade? Eu nunca tive muitos amigos, e acho que ela também não, mas ainda assim eu gostaria de desligar o celular e vagar por aí sozinho, sem ter que atualizar ninguém com check-ins a todo o momento, sem ter que informar às pessoas do Facebook que estou me sentindo triste na orla ou que hoje vou comer um barco de sushis acompanhado de vinho envelhecido.

Eu dei de ombros e perguntei: “porquê?”

Eu havia prometido, pouco depois de falar do Beltane, que não faria nada senão sentar-me numa poltrona e assistir a tudo de camarote. Eu expliquei pra ela que eu não ia comer ninguém, só tomar um pouco de cerveja e assistir a um ritual. Qual diferença havia entre isso e a missa de domingo?

Ela deu uma risada nervosa e respondeu: “você é ridículo”.

Daí ela foi embora da minha casa, do apê que eu tava alugando, levando algumas roupas que tinha deixado lá nas gavetas da minha cômoda, e não atende mais quando eu telefono.

Bom, mesmo assim eu decidi ir. Durante minha vida inteira fiz muito pelos outros e agora, pela primeira vez, quero fazer algo por mim. Quero poder me divertir sem pensar nos problemas financeiros da minha família. Quero, mais uma vez na vida, sentar em uma cadeira e ver mulheres dançando e cantando completamente nuas; tudo isso sem precisar tirar um tostão do bolso. Eu fui em um puteiro uma vez, uma vez só, e sempre se gasta muita grana nesses lugares, comanda, consumação, serviço completo com uma mulher maneira. Quero ver gente maluca, embriagada de bong, pulando sobre uma fogueira. Pela primeira vez na vida quero ver pessoas invocando Satã, isso contra as milhares de vezes que vi pessoas clamando por Deus, Ave Maria, São Jorge e todos os santos. Apesar de que eu nem sei se essas bruxas invocam mesmo Satã… só estou falando…

Essa expectativa está me deixando tão ansioso e excitado que não tenho mais pensado em outra coisa. Não estou mais pensando na violência da van, pela primeira vez em muito tempo. Essa semana eu entrei em um veículo de transporte público sem ficar pensando nos diferentes tipos de violência que poderiam ocorrer ali dentro. Se algo pode te deixar tão feliz após anos imerso na depressão, na dor de cabeça e na azia, como pode isso não ser uma boa coisa?

Acho que a característica mais poderosa no ser humano é a imaginação. Imaginar o Beltane está me curando. Está me deixando um pouco tranquilo. Meu fluxo de pensamentos desordenados agora seguem uma lógica, ou pelo menos parece ser isso. O trabalho já não tem me estressado como há duas semanas atrás. A perspectiva de assistir ao festival está me fazendo pensar num futuro suportável; eu não sei exatamente o motivo disso. Fico imaginando se meu vizinho não me convidará para ser comungado na religião deles após o fim do festival, e durante toda essa semana isso me fez acordar com uma disposição incrível, ao contrário dos últimos anos, em que sempre acordo de mal humor, perguntando a mim mesmo: “porque foi que me dei ao trabalho de acordar hoje?”

Meus pais me odiariam se soubessem disso. Ficariam furiosos se eu dissesse que estou planejando ir a um ritual de magia ou coisa que o valha porque acho minha vida a coisa mais maçante do mundo. E apesar de tudo eles só ficariam tranquilos se eu pudesse garantir, olho no olho, sem pestanejar, que não fumaria maconha lá. Meus pais odeiam a maconha mais do que tudo: mais do que bacon cancerígeno, mais que uísque, mais do que o crack.

Meu pais sempre fizeram questão de deixar bem claro que minha vida é e sempre foi perfeita demais. Eu sempre tive comida na mesa. Eu não tenho uma doença crônica. Eu não vivo em um submundo onde minha vida é ameaçada diariamente, e, graças a Deus, não sou viciado em drogas. Sendo assim não tenho motivos para cair em tentação, só se eu for um retardado, porque não é possível marginalizar-se aquele que já tem de tudo.

Eu concordo, claro, pois quando ligo a TV posso ver muitas vidas perdidas e miseráveis descritas em detalhes: gente que perdeu tudo por conta das enchentes, rapazes alvejados por assaltantes nas portas de suas casas, usuários de drogas se arrastando em periferias. A cracolândia na Zona Norte é como uma piada de mal gosto escrita por Romero, só que a diferença é que esses zumbis viciados não podem entrar em shopping, né? Mas minha vida? Minha vida não. Minha vida é perfeita.

Eu passei minha vida inteira ouvindo o que as pessoas queriam me dizer. Eu sempre fui um eterno aprendiz; sempre ouvindo, sempre acatando. Passei minha vida inteira sendo um ombro amigo. Passei minha vida inteira baixando a cabeça para o que meus pais me diziam. Sempre sorri e disse que “sim”.

Sim, eu posso fazer isso pra você.

Sim, estarei lá.

Sim, me interrompa à vontade. O que eu queria dizer não é tão importante quanto o que você ia me dizer, eu acho.

Agora eu preciso de um tempo pra mim.

Uma vez me meti a listar minhas qualidades e defeitos, e decidi que uma das minhas grandes qualidades era a cortesia. Curiosamente, listei cortesia também na minha coluna de defeitos. Então eu considerava cortesia uma qualidade e um defeito. Então, se eu decidisse corrigir esse defeito – ou seja, o defeito da cortesia – ele continuaria listado na minha tabela de qualidades, certo? Portanto, eu continuaria tendo o defeito, ali no escuro, de forma subjetiva, concorda?

O que eu quero dizer é: posso deixar de ser quem eu sou?

Eu sempre fui cortês, mas isso às vezes me deixava aborrecido. Sempre me lembrava de quando andamos em uma calçada estreita e esquivamos para ajudar alguém a passar, mas esse alguém não faz o menor esforço para desviar de nós. Às vezes pedimos desculpas mesmo quando sabemos que não estamos errados. Quer dizer, eu pelo menos sou assim.

Eu sou o cara da vizinhança que vai te convidar pra um churrasco quando for comemorar o aniversário, mesmo que eu ainda não te conheça. Vou consertar o encanamento se estiver ocorrendo infiltração na parede de sua cozinha. Vou ouvir uma passagem interessante da bíblia quando você quiser encher seu coração com o regozijo de espalhar a Palavra. Vou lhe oferecer uma carona até a maternidade quando sua bolsa romper e o nascimento do seu filho for iminente. Vou te ajudar com o trabalho da faculdade, porque sou bom em Conhecimentos Gerais.

Mas agora eu preciso de um tempinho pra mim, ok?

Nos vemos na quinta.

 

8 de Novembro

 

HOJE DE MANHÃ EU consegui um donativo de três mil e quatrocentos reais. Só essa doação vai me render trezentos e quarenta reais de comissão no final do mês. Comissão não. Dízimo.

Sei que agora você quer falar do Beltane, mas eu não quero falar sobre isso, por enquanto. Vamos deixar rolar e ver se o assunto terá a oportunidade de vir à tona daqui a pouco.

Aproveitei a certeza de que vou ter uma boa premiação em dinheiro até o mês que vem e, antes de vir pra cá, dei uma boa procurada nos mercados e farmácias por marcas de camisinha que não consigo encontrar em meu bairro. Eu estou colecionando esses preservativos, lembra? A Marathon lançou algumas séries especiais, e agora estou colecionando também as camisinhas Spartans, muito bonitas, com uma embalagem de papel fosco que faz parecer que você tá comprando chocolates suíços.

Você deve ter uma vida sexual ativa, eu acredito, mas você não vai acreditar na variedade louca de marcas, e sabores, e tipos, e tatos diferentes de camisinhas que a indústria do sexo produz. Você acredita que existem camisinhas para quase todos os sabores de fruta? Sabia que tem camisinha de néctar de uva? Acredita que tem camisinha sabor castanha-do-pará? Eu sei que é absurdo, mas não é mentira, palavra de homem. Lembra daquele filme que passava na Sessão da Tarde onde o cara encontrava uma Camisinha de Batalha no banheiro da mulher que ele queria dar uns lances? O pior é que essa merda existe mesmo.

Na embalagem tem a figura de um tanque de guerra israelense. Quer dizer, não sei se é israelense de verdade, mas pude reconhecer as letras do alfabeto hebraico marcado no corpo do tanque. Sério, isso é mais divertido que colecionar figurinhas.

Horas antes de terminar comigo, minha namorada riu quando viu todas aquelas cartelas de camisinha estiradas na minha cama. “Desde quando precisamos disso? Por acaso vamos parar com as pílulas?”. Porque a gente tinha realmente parado com os preservativos e passado para os anticoncepcionais porque ela, e não eu, não gostava de ter uma película de látex entre nós. Ela dizia que gostava da minha pele, porque era quente, e porque quase conseguia me sentir fervendo quando estávamos perto de gozar. Eu dou um sorriso, visivelmente perdido e estranhando a mim mesmo por ver aquelas coisas douradas e prateadas jogadas na cama, e, num raciocínio muito rápido, respondo: “decidi que devíamos tentar algo diferente. Algumas ter sabor, está vendo?”

Eu fiquei puto de ter que rasgar as embalagens para usar as camisinhas. Não queria parecer um demente que coleciona camisinhas. Eu não queria que minha mina achasse que eu sou doente da cabeça.

No centro comercial do meu bairro eu encontrei uma loja que vende produtos fitoterápicos, alimentos macrobióticos, ervas medicinais, incensos especiais para pessoas que sofrem de estresse e bostas do tipo. No fundo da loja uma guirlanda exibia camisinhas para uma experiência avançada em sexo tântrico. Acredita nisso? Eu nem sabia que sexo tântrico podia ser feito com camisinha. Achava que o lance era pele a pele. Mas, verdade seja dita, eu não entendo nada de meditação e dessas maluquices indianas, assim como não entendo sobre bruxarias.

Muito embora as embalagens daquelas camisinhas fossem incríveis. Uma obra de arte. Alguns invólucros eram feitos de seda, sério mesmo, seda com uns riscos tipo desenho maori, dourados, rabiscados como numa pintura chique.

Lá tinha a camisinha Black Panther, importada. A embalagem é fosca, exibe um par de olhos felinos num fundo preto.

Lá tinha uma edição limitada de camisinhas que vinham embaladas em latas, e cada lata atribuía ao seu conteúdo uma propriedade. Edição limitada, edição de colecionador. Talvez eu não seja o único colecionador de camisinhas no mundo, afinal. Camisinhas com nervuras, extra-grande, beijo de menta, pluma,  kama sutra… tinha até uma camisinha com distintivo de policial americano em alto relevo gravado na embalagem em alumínio.

Coloquei todas em uma cestinha e levei.

A cara da atendente quando eu joguei aquilo sobre o balcão foi impagável.

Hahahaha

Tudo bem, vamos falar sobre o Beltane agora. É isso que você quer, certo? Mesmo sabendo que se trata de paganismo e possível prática de magia negra, você tá aí se mordendo porque quer saber como foi. Mesmo sabendo que pode ter havido holocausto animal e cabeças de bode penduradas, você quer saber. Todo mundo quer saber porque lá no fundo todo mundo é um pouquinho depravado. Nelson Rodrigues falou uma parada dessas, não foi? No caso de vocês, psicólogos, é ainda pior. Ouvi dizer que Freud promovia orgias na casa dele, e o que ele mais gostava era de dar a bunda.

Quando eu cheguei já estavam todos lá. Meu vizinho usava um manto branco e as três mulheres vestiam-se como da primeira vez que as vi pela minha janela: camisas pretas de tecido fino sobre sutiãs pretos, minissaias pretas e botas pretas. Seus cabelos eram pretos. As sombras nos olhos eram escuras. Seus olhos só podiam ter lentes de contato… pois também eram negros. Elas pareciam alguma ilustração viva feita a nanquim, pois eram uma explosão de preto e branco, com unhas pretas e lábios pretos contrastando com a brancura da pele.

Se quiser saber minha opinião, achei que elas estavam lindas daquele jeito. Pessoal costuma chamar essas minas de “góticas”. Na escola eu tinha aprendido que gótico é um estilo arquitetônico da idade média, algo assim, que foi apelidado com esse nome em referência ao povo bárbaro dos godos. Não precisa me olhar com essa cara: eu manjo um pouco de história. Gosto de pesquisar as coisas, não sou tão idiota.

Mas não sei porque chamavam aquelas minas de “góticas”.

Me cumprimentaram arqueando um pouquinho a coluna, como se fossem gueixas, e me beijaram nos lábios. Eu fui no rosto, mas elas desviavam. Não foi um beijo de verdade, foi só uma bitoquinha, mas aquilo me deixou um pouco aceso, vamos dizer assim. Meu vizinho me apontou uma cadeira no canto da sala, e ali eu fiquei até o final da cerimônia.

A sala estava cheia de velas. Velas finas e velas grossas. Velas em candelabros, em castiçais, velas em bandejas de prata e em suportes de parede. Perto da televisão meu vizinho tinha acendido um archote, nada muito perigoso, com o fogo baixo. Tinha uns bongs de vidro espalhados aqui e ali, alguns em cima da mesa, e uma bandejinha de metal com restos de uma carreira de pó. Tirando a parte bagunçada, eu achei aquilo tudo muito bonito. Uma mesa sustentava um banquete em um caldeirão; pelo cheiro, achei que fosse sopa; também tinha uma tigela cheia de roscas brancas que pareciam ser biscoitos de trigo e um líquido vermelho que, supus, era vinho.

Havia um cordão com pingente de pentagrama pendurado na antena da televisão.

Um grande escudo de bronze jazia fixado à parede, no alto, acima do rack de madeira. Depois do ritual meu vizinho me explicaria que o homem de três cabeças gravado em alto relevo ali era Baphomet. O verdadeiro Baphomet. Como se eu soubesse qual era o falso.

– A forma antiga de Baphomet era essa – ele me ensinou –  o homem de três cabeças, a representação da matéria como ela é, no todo. A Águia representando a inteligência, a cabeça do meio. O Leão representando o individualismo, a cabeça esquerda. O Burro representando a necessidade física, o sexo, a cabeça da direita. Aquele outro Baphomet, da Ordem Templária, de Eliphas Levi… isso é tudo uma farsa.

Eu não sabia do que ele estava falando.

Eu perguntei onde estavam os outros convidados.

Donovan me disse que não havia convidados no ritual. Havia participantes. E eles eram os únicos. Se tinha algum convidado, este era eu, e eu era uma exceção à regra.

– Os três grandes monoteísmos da nossa era abafaram a existência dos muitos deuses. Sabe porque?

Eu respondi que não.

– Porque precisavam centralizar o poder nas mãos de um único profeta, e como consequência, de um único deus. Podemos dizer que foi uma jogada política. A existência de muitos deuses ameaçaria a massificação da religião de Moisés, que ia acabar conduzindo meia-dúzia de gatos pingados pro Monte Sinai, e só.

– O monoteísmo foi criado por Moisés?

– E isso importa? – eles começaram a se reunir em volta de uma mesa baixa, e as meninas trouxeram talheres e panelas esfumaçando de tão quentes. – Aquele cretino do Rei Davi passou a espada em quem quer que fosse contra o que ele dizia. Ele queria a monarquia só para ele. Ele queria ser o único filho de deus, aquele maldito nazista!

Eu ri.

– Nazista? Tem algo de errado aí, não?

– Porque? Porque ele era judeu? E por acaso a bíblia não incita aos judeus que odeiem os gentios? Que odeiem quem não for judeu? Se isso não é nazismo…

Em seguida eles fizeram orações. “Entoaram”, como eles gostavam de dizer. Disseram coisas em outra língua. Meu vizinho parecia mais um padre old school vestido todo de branco e falando latim do que um feiticeiro, ou sei lá como ele se denomina. As meninas pareciam patricinhas ex-viciadas, experimentando um arrebatamento que só elas podiam sentir. Não era nada muito diferente do que eu tinha visto na igreja, pra te falar a verdade, gente jogando as mãos pros céus e revirando os olhos, tremendo, experimentando uma catarse que eu não conseguia acompanhar.

Eles se sentaram e comeram em silêncio. Meu vizinho comeu bastante, tanto quanto eu poderia comer, mas as três moças também não ficaram para trás e comeram como adolescentes na larica. Eu achei engraçado, e tive que me esforçar pra não rir.

Depois meu vizinho as conduziu para a parte de trás da casa. Eles formaram uma corrente física, os quatro de mãos dadas, e saíram para o frio da noite, em direção ao quintal. A lua nova brilhava lá no alto do céu aberto. Que noite bonita.

Meu vizinho acendeu a fogueira já previamente preparada. Então ele e as moças se deram as mãos novamente e começaram a dançar ao redor do fogo. Eu continuava sentado na cadeira da sala de estar, e só pude ver o manto branco dele esvoaçando lá fora, e os fios de cabelos absolutamente negros que serpenteavam de um jeito que você poderia chamar de mágico. Eu não quis me aproximar porque, vai que eu interferisse em alguma coisa. Nunca sacaneei uma missa da minha igreja, e olha que missa acontece toda semana, mas um ritual anual era importante demais. Tão importante que fiquei mal de estar tendo uns pensamentos céticos.

Eu não sei dizer se essa coisa de mágica existe. Mas se existe, então deve se parecer com aquilo.

Eles cantavam numa língua estranha.

Eu quase não conseguia ver a dança. O que eu podia ver era o que passava rapidamente pela janela dos fundos. Vultos. Brancos. Cabelos negros.

O manto dele como se fosse roupa serpenteando no varal. Branco e amarelo, porque o branco refletia a luz da fogueira como se fosse um espelho.

Fios de cabelo como ondas de um oceano negro. Uma, duas, três vezes.

Meu coração batia forte. De alguma maneira, entendi que eu tinha vivido até aquele momento para presenciar aquilo tudo. De alguma maneira eu achei que estava nascendo. Nascendo de novo. Eu ainda não levava muita fé, até porque conhecia pouco da religião… sequer sabia seu nome. Mas aquilo era mais bonito do que uma missa. Era mais bonito que um culto.

Sei que nosso horário está quase estourando, mas, por favor, deixe-me contar mais um pouco. Até porque quem sabe quanto tempo essas imagens resistirão na minha memória.

Acredita se eu disser que estava começando a entender aquele idioma? Quer dizer, eu não estava entendendo como se pudesse traduzi-lo, mas sabia o que a música queria dizer. O sentimento. Você ouve a música de um artista internacional e sabe que ele está falando de sexo. Você sabe que o Bocelli está falando de amor. Acho que a música do ritual falava sobre a libertação do corpo e da alma. Falava sobre quebrar as correntes invisíveis em nosso pescoço, limitando nossa cabeça. Fuja. Não seja mais um.

Quando dei por mim, uma gota de água salgada atingiu meu lábio superior. Passei a palma da mão no rosto, me perguntando se aquilo seria uma lágrima. Era suor.

Eu tive que me segurar na cadeira, ou então sairia correndo em direção à cerimônia no quintal. Eu queria me juntar a eles. Queria ter a sensação daquele tipo de contravenção, ainda que ninguém estivesse infringindo nada, entende? Foi a mesma sensação de quando bebi uísque aos dezessete anos. Foi a mesma sensação de quando fiz sexo aos dezoito e fumei erva com vinte e sete.

Deus, eu estou vivo.

Quando eu abro a boca, minha voz se faz audível. Pelo menos por aqui. Pelo menos com você, e também com aquela gente. As bruxas entendem os sentimentos dos outros… por mais estranho que esta frase tenha ficado agora que eu disse.

Então eles voltaram. Uma das moças subiu a escada em direção ao quarto e meu vizinho começou a segui-la. Antes de passar por todos os degraus, ele fitou a mim e disse:

– Esta é a parte mais importante do Beltane. Esta parte você não pode assistir. É a mais sagrada.

Eu balancei a cabeça, demonstrando que entendia perfeitamente, ainda que não entendesse de verdade.

– Meninas – disse ele para as outras duas que ficaram. – Façam sala para o nosso amigo. Deixem que ele se sinta a vontade. Mas lembrem-se: o local do altar é sagrado. Se quiserem fazer com ele algo mais do que sala, vão ter que ir para outro lugar.

Meu vizinho só faria sexo com uma delas, é claro. Afinal, o sexo é sagrado, e fazer disso uma orgia sem um fundamento transcendente seria um desrespeito, pelo que eu entendi.

Uma delas se virou pra mim e, sem timidez alguma, me perguntou se eu já tinha experimentado um ménage.

Eu respondi que não.

A outra disse “quer tentar?”

Eu respondi que sim.

A primeira tocou em meu queixo com uma das mãos e perguntou: “tem camisinha na sua casa?”

Eu sorri pra ela, e meus olhos devem ter brilhado, pois ela sorriu de volta pra mim, com ternura.

E eu respondi: “é o que eu mais tenho”.

 

15 de Novembro

 

É ENGRAÇADO, MAS eu não me lembro mais dos nomes das garotas daquela noite de bruxaria. Em compensação, posso me lembrar com perfeição dos nomes dos caras que fizeram minha primeira namorada cortar os próprios pulsos e partir desse mundo aparentemente inadmissível.

Reinaldo, Rafa, Esaú, Jader e Ninho.

O nome das garotas? Não faço a mínima ideia.

É como se aquela noite tivesse sido um sonho.

Encontrei meu vizinho na quinta-feira passada, à noite, um pouco depois de sair daqui. Ele me convidou para participar das aulas do templo e conhecer um pouco melhor a religião.

Ele me explicou que não é um bruxo, sabe? Ele é um mago. Tentou me explicar a diferença quando eu perguntei se ele era wicca, e ele disse que aquelas garotas até podiam ser wicca, mas ele não era. Homens não são wicca, não podem ser, mais ou menos como quando dizem que um homem não pode ser feminista.

Ele é um mago. Na sociedade patriarcal, o nome é esse. Por mais sábio que seja, você está abaixo do poder feminino, porque as mulheres tem uma percepção mágica maior, deve ser aquele negócio de intuição feminina, não é?

Ele é um Iniciado na Ordem da Clavícula de Salomão.

É uma sociedade secreta, então, acho que eu não devia estar falando sobre isso. Mas isso é uma sessão de terapia, e eu tenho que falar sobre o que vier à minha cabeça, certo? Sou obrigado a esclarecer detalhes da minha vida para que você possa me ajudar a entender meus anseios, não é isso que você vai me dizer? Não é como se a polícia fosse bater no meu portão pra me prender por quebra de sigilo, e, afinal, nem é tão interessante.

Na época do Beltane, Donovan tinha sido convidado pelas garotas para participar de um rito de fertilidade. Foi só isso. Então geralmente as bruxas preferem usar um catalisador que não seja totalmente alheio ao conhecimento das forças ocultas. Eles se reuniram em volta da fogueira e deixaram que a lua lhes dissesse qual das bruxas era a mais fértil para ser usada como receptáculo de um esperma previamente preparado. Eu sei que é um papo estranho. O mago não precisa assumir o filho que ele faz na bruxa… o filho é responsabilidade dela. Talvez a própria bruxa nem tenha o filho. Ao invés disso, ela vai parir um homúnculo, foi o que ele me explicou. Bem… é religião. Você tem que respeitar.

A lua respondeu às preces delas.

Foi o que Donovan me disse.

As outras duas podiam até ser bastante férteis, mas não eram tanto quanto a escolhida. Então é preferível que um mago, um homem iniciado nos mistérios, seja o sujeito que dará a semente à mulher. O casal está destinado a gerar uma criança poderosa e preparada pra Era de Aquário, Novo Aeon e essa história toda.

Bom, depois de saber disso tudo, eu até fiquei interessado; aí eu aceitei.

Estou indo às reuniões.

E a partir daqui eu não posso dizer mais nada, se ligou? Não é que seja proibido; os mistérios só podem ser revelados a quem os entende aos poucos. É um conhecimento gradativo. Você tem que participar das reuniões para iniciantes, e das reuniões para adeptos. São reuniões diferentes.

Você tem que assistir às iniciações na Sala Hipostila.

Droga. Estou falando mais do que devia.

Desculpa.

Bem, vamos voltar à noite de 31 de Outubro.

Eu estava lá com as duas garotas de quem não me lembro mais os nomes, e elas se admiraram ao verem arrumadas em minha escrivaninha as vinte cartelas de preservativos e mais seis latas especiais para colecionadores. Sim, existem outros colecionadores de camisinhas. Ao contrário do que eu esperava, que elas fossem me achar maluco, elas pareciam ter ficado ainda mais animadas quando viram meu material. Elas não ficaram me olhando como se eu fosse um maníaco sexual, mas como se eu fosse uma espécie de praticante sexual fiel. Dedicado.

Uma delas usou os dentes para rasgar uma das embalagens da minha cartela de camisinhas Stallion Mint e disse que queria começar experimentando aquela. Se você não sabe, “mint” é menta em inglês. A bruxa me explicou que todo mundo sempre deve começar pela menta, caso não tenha alecrim. Somente o cheiro do alecrim, ela me esclareceu, é suficiente para evitar contusões e dores nas costas. Ideal para a cópula.

Na hora eu fiquei bolado por ela ter destruído uma peça da minha coleção, mas fiz um esforço pra ignorar. Ela amassou a esplêndida embalagem verde alface e jogou a bolinha no cesto.

No fim da noite, tínhamos destruído nove das minhas mais queridas peças. Elas queriam passar por experiências diferenciadas e aos poucos eu fui me desapegando, das embalagens e da timidez.

O que foi? Esse assunto te incomoda, né?

Certo. Vamos falar de outra coisa.

Larguei o telemarketing filantrópico.

As reuniões do templo acontecem à noite e atravessam a madrugada, então quando chega de manhã eu tô na merda. Cansado pra cassete mesmo. Como o emprego de pedir donativos era opcional, um bico, decidi abandonar para me concentrar em meus estudos esotéricos.

Mas não estou seguro de que fiz a coisa certa. O trabalho filantrópico não era só um bico, pode crer, mas também era a minha oportunidade diária de ser útil em alguma coisa. Agora, trabalhando no telemarketing do serviço de internet, eu nada mais sou que um acumulador de bens. Nada mais sou que um consumista de camisinhas. Isso não está fazendo de mim um homem melhor, e, cá entre nós, estou com medo de que meu pai descubra as coisas que ando fazendo.

Enfim.

Um dia eu leio as cartas do tarô egípcio pra você.

 

21 de Novembro

 

PRÓXIMO DIA PRIMEIRO VAI completar quatro meses que eu tô fazendo terapia com você.

E ainda não sei se isso tá mesmo me ajudando.

Admito que quando eu cheguei aqui eu estava bem pior do que estou agora. Eu tava abatido, mesmo fazendo um esforço tremendo para parecer o contrário.

Então eu melhorei; fiquei animado com aquele papo de magia e garotas góticas que se dizem bruxinhas querendo transar sem compromisso. No entanto eu sinto que estou afundando de novo, e dessa vez tá mais pra bungee jump do que pra um simples mergulho na piscina. Não me leve a mal. A vida é boa, é boa mesmo, como se fosse um bom filme que eu vejo em uma tarde de sábado, mas eu não faço parte do filme.

Eu não tenho sido muito útil ultimamente.

Aliás, eu não tenho sido nem um pouco útil.

Acho que cheguei a falar com você sobre ter abandonado o telemarketing filantrópico. Não foi uma decisão sensata, à propósito. Sinto falta dos lamentos solidários dos colaboradores ao telefone, me dizendo que meu trabalho era um esforço heroico. Sinto falta de poder repassar o dinheiro da comissão que conseguia para as mãos dos meus familiares. Preciso mostrar gratidão diariamente por eles terem feito o esforço de me criar, de estar comigo na saúde e na doença.

Preciso dizer aos meus pais: “muito obrigado por terem me colocado neste mundo. É um prazer imenso estar vivo.”

Mas eu não digo.

Sinto falta daquela dualidade que o emprego me proporcionava. Pela manhã, contribuintes me agradeciam por ser um bom garoto, um cristão comprometido, um voluntário e tudo mais. À tarde, clientes me diziam que eu era um patife e que minha empresa era a pior do ramo de serviços de internet em todo o território nacional.

Pela manhã os colaboradores diziam que por ser um voluntário na causa da ajuda ao próximo, Deus me abençoaria plenamente, por toda a minha vida. À tarde os clientes me diziam pra ir tomar naquele lugar e que era pra eu cancelar aquela merda, ou a polícia bateria na porta do call center no dia seguinte.

Pela manhã alguma velha senhora dizia que queria me conhecer pessoalmente, para me dar um beijo no rosto e me dizer que eu sou um moço abençoado.

Pela tarde alguma velha senhora me dizia que sua vontade era de invadir o prédio do call center pra me matar com uma garrucha empoeirada que mantinha na gaveta de casa.

Eu me sentia útil pela manhã.

Eu expiava meus pecados pela tarde.

Fora da filantropia, agora eu só expio.

Sou um inútil expiando diariamente suas iniquidades ainda não perdoadas, e isso me dá a sensação de estar me afastando do paraíso.

Tenho saudade de ser um herói, entende? Eu sei o que você vai me dizer. Vai dizer que eu devia me concentrar em tentar dar uma guinada na minha própria vida. Vai dizer que eu devia tentar me ajudar primeiro, para depois me preocupar com os outros.

Tô ligado.

Bom, hã, na terça-feira eu fui até o centro comercial do meu bairro fazer umas compras. Percebi que fazia tempo que eu não comia arroz e feijão. Fazia tempo que eu não comia aquele queijo… o que tem os furinhos… chamam de queijo-bola, não é isso? Enfim, eu estava andando na calçada quando uma velha acenou pra mim. Ela devia ter, no mínimo, uns setenta anos. Eu não dei trela nenhuma pra ela. Sabe como é: ou ela devia estar querendo dinheiro ou devia estar querendo me falar alguma ladainha referente a visitar sua igreja evangélica, e eu não estava com humor suficiente pra isso. Passei direto.

Eu ainda ouvi ela me perguntar a hora. Ela não estava acenando pra mim. Estava apontando para o meu relógio.

Eu estava com pressa e deixei pra lá.

Só que antes de virar a esquina eu pude ouvir ela gritando lá atrás, na minha direção.

Ela berrou: “vai, seu veado!”

É serio. Ela disse isso.

Uma velha caquética, caindo aos pedaços, ficou aborrecida por eu não lhe ter informado a hora, e decidiu me informar que eu sou um veado. Isso faz algum sentido pra você?

Ela não sabe que sou um cara com quase trinta anos de idade, robusto, e que posso desmontá-la com um simples soco, bem no meio da nuca?

Aquela puta velha não sabe que eu posso me defender?

O negócio é que todo mundo ficou me olhando enquanto eu cruzava a rua. Como se eu fosse o culpado de algum mal ocorrido com aquela velha. Eu, um cara comum, cruzando uma rua para fazer as compras de casa, ouço uma velha dizer que sou veado, e logicamente eu devo ser um desgraçado insensível que anda maltratando idosos por aí, hein? O pessoal me olhou como se eu fosse um ladrão.

Você concorda com isso?

Eu sou obrigado a ficar dizendo as horas pra todo mundo que cruzar comigo na calçada? Ah, porra, compra um relógio. Na mão de um chinês essa merda vale dez contos.

Desculpa.

Não tenho me sentido muito bem ultimamente.

Tô cansado.

E tô nervoso.

Não pode me receitar um calmante? Vocês terapeutas podem fazer isso, não podem?

 

28 de Novembro

 

O QUE ACONTECE SE UM DIA eu chegar aqui e decidir não dizer nada? Vamos fazer o quê? Ficar meia-hora olhando um pra cara do outro?

Não se preocupe. Hoje não vai ser esse dia.

Só tive essa curiosidade.

Então, minha ex me ligou no sábado. Legal, né?

Disse que queria encontrar comigo no West Shopping.

Eu fiquei todo serelepe. Ela me quer. Sei lá, talvez ela sinta saudade do meu bom humor. Tive a alegria de imaginar que alguém me queria por perto, independente do que eu pudesse ou não oferecer. É bom se sentir querido. Necessário.

Eu fui.

Ela estava me esperando lá na praça de alimentação. Estava sentada em uma das mesas de mármore na companhia de uma amiga, comendo um lanche do Burger King. Quando me viu surgir de um dos corredores acenou pra mim. Gritou as iniciais do meu nome composto.

JC.

Gosto de ser chamado assim. Me faz pensar que eu sou um cara legal. Me faz pensar que eu poderia ter uma banda de rock, ou que poderia cantar hip hop.

JC, como Jarbas de Cartago.

JC, como Joana de Castela.

JC, como Júlio de Castilhos.

Me aproximei, cumprimentei as duas com os dois beijos no rosto, como sempre, e me sentei ali com elas. Enquanto eu chegava à mesa, minha ex mordia um pedaço enorme do sanduíche, e quando fui cumprimentá-la, ela ainda estava no processo de mastigação. Então beijei suas bochechas inchadas de carne, pão e cheddar. Por um tempo ficou impedida de falar.

Ela come bastante. É magra de ruim, como se diz.

Foi a amiga dela quem começou a conversar comigo.

– Então você é o lendário JC?

Lendário? – perguntei, meio sem graça. – Quem disse isso? Ela? – meneei a cabeça, fazendo um biquinho com os lábios para apontar minha ex.

A amiga confirmou com a cabeça.

– Porque eu sou lendário?

– Você é o cara que tem obsessão por camisinhas, não é isso?

Obsessão… Alguns segundos de silêncio depois as duas explodiram em gargalhadas. Minha ex só faltou expelir hambúrguer e queijo pelas narinas. Isso era pra ser segredo, eu acho, mas mesmo assim ela decidiu espalhar por aí o assunto e ainda fazer piada bem na minha cara. Eu tinha saído de casa unicamente pra isso, pelo visto. Ele coleciona camisinhas maiores do que o pau, imagino que ela tenha dito pra amiga, quando ele as coloca fica parecendo uma linguiça solitária num saco de supermercado.

Eu sabia que estava sendo alvo de algum tipo de ataque, mas sorri, para não parecer um cara tão mal humorado. Eu sinceramente odiaria se me dissessem que não tenho senso de humor e que não aceito brincadeira.

Além do mais, a amiga da minha ex até que é bonitinha. Um pouco cheinha, peituda, de longos cabelos castanhos e traços asiáticos. Cheirosa. Tinha um sorriso bonito.

Talvez você queria dar um pulo lá em casa para conhecer minha coleção, era o que eu poderia dizer, era o que eu queria ter dito, se eu fosse um cara mais corajoso. Talvez você queira testar comigo a minha nova coleção de preservativos extragrandes, com nervuras.

– Ok – disse eu, depois que elas pararam de rir. – O que eu estou fazendo aqui? Porque me chamou?

– Então… é… você lembra que a gente namorou, certo?

Estava claro que aquilo não era de fato uma pergunta. Você sabe que esse tipo de questão sarcástica vem acompanhada de alguma sacanagem. Então eu só aguardei. Ela queria me dizer alguma coisa que seria desagradável pra mim, com certeza, do contrário não começaria com uma pergunta retórica estúpida.

– A gente namorava lá em casa às vezes, é isso que eu quero dizer. Você chegava do seu trabalho noturno e dormia lá. Tomava café e ia pro seu trabalho diurno.

– Eu lembro disso – respondi. – Isso foi há um mês atrás.

– Certo. Então… você sabe que eu pago quinhentos reais de aluguel naquela casa. Então… eu pensei que, bom, nada seria mais justo do que você pagar a metade do aluguel de outubro, já que ficou lá comigo por duas semanas.

– Como é que é? – perguntei, pendendo a cabeça pro lado. Sempre faço isso, como se fosse um cachorro, quando tô puto.

– Duzentos e cinquenta reais é o que eu preciso pra pagar as despesas, JC. Comida, luz, água…

– Espera. Deixa eu entender legal. Um certo dia eu converso com você, digo que fui convidado por um amigo para participar de uma cerimônia religiosa, aí você diz que eu sou ridículo, vai embora sem se despedir, não atende mais o telefone… e agora me chamou até aqui porque quer que eu te dê esmola?

– Esmola é o caralho! – ela gritou, fazendo um movimento com os braços que quase derrubou a bandeja com os restos de sanduíche e o copo de refrigerante. De repente a nossa mesa se transformou no centro das atenções da praça de alimentação do shopping center.

A amiga da minha ex tirou rapidamente um caderninho pautado da bolsa que trazia a tiracolo e começou a escrever alguma coisa. Eu imaginei que ela estivesse disfarçando pra não ter que presenciar uma cena tão vergonhosa.

– Você diz que vai participar de uma orgia, e tá tudo certo? Eu tenho mais é que te entender, não é isso, coitadinho?

– Não teve nada de orgia – expliquei, num tom de voz muito mais baixo que o dela. Queria forçá-la a parar de gritar. – Foi uma cerimônia espiritual.

– Ah, espiritual… sei… quem é que tava lá?

– Como? – estranhei a pergunta dela.

– Quem estava na tal cerimônia? Quem foram os convidados?

– Não que te interesse, mas… Quem me chamou foi o meu vizinho. Estávamos eu, ele… e três amigas dele.

Eu sei, eu sei. Ainda não consigo explicar porque eu fui tão sincero. Podia ter mentido, ou pelo menos omitido a presença das amigas, como ela iria saber? Bom, agora já era.

– Três amigas? – disse ela, de cabeça baixa, como se estivesse conversando consigo mesma. Estava resmungando. Depois virou-se para mim. – E você não comeu nenhuma das três?

Cometi meu segundo erro, e não respondi.

Ela começou a chorar.

Eu levantei uma das mãos para tocá-la no ombro, mas ela estapeou meu braço com violência. Me empurrou com um safanão.

– O mínimo… que você tem… que fazer – disse ela, pausadamente. Não estava mais me olhando nos olhos – é me dar o que eu tô te pedindo.

Sério: você consegue acreditar no que eu estou te contando? Me corrija se eu estiver errado, mas ela estava cobrando uma taxa por ficarmos juntos por um tempo? Tipo uma… uma…

É bizarro. É como se nós estivéssemos casados durante anos, e agora eu estivesse devendo a ela os anos que ela dedicou a mim. É como se ela tivesse me feito um favor.

Eu me levanto sem dizer mais nada e me afasto. Ouço ela me chamando. “JC, volta aqui”! E senti uma certa alegria quando a ouvi me chamando enquanto eu ia embora. Ainda que eu não estivesse indo embora para sempre. Ir embora não faz parte da minha índole. Mas ela continuou gritando minhas iniciais, se exibindo, fazendo o teatrinho dela para todos os comensais da praça de alimentação.

“JC, volta aqui, seu escroto!”

Que coragem a dela, chamar um cara robusto de cem quilos, uns vinte de sobrepeso, de escroto, assim na maior. Por acaso ela sabe quem eu sou? Ela sabe que eu poderia muito bem ter surrado uma velha só por ter me chamado de veado?

Ela sabe quantas figuras importantes da história tinham as iniciais JC?

Já ouviu falar em Julio Cortázar?

Já ouviu falar em Jaime Cortesão?

Já ouviu falar em Jacques Cousteau?

Provavelmente não, mas você sabe do que estou falando.

Você não abre a boca pra dizer que Jesus Cristo é um escroto. Ninguém vai ter peito pra chamar Jesus Cristo de veado.

Eu sei o que você quer dizer com este olhar. Está pensando: “você está se comparando a Jesus Cristo?”

Sim, eu estou. Porque não?

Eu vou dizer porque sim.

Eu não estava indo embora. Caminhei até o caixa eletrônico da praça e usei meu cartão de conta salário para retirar os duzentos reais que aquela… que aquela vagabundinha queria. Voltei lá e joguei as cinco notas de cinquenta reais sobre o resto de sanduíche empapado de mostarda que estava na mesa. Ela me olhou com a maior cara de desprezo que já vi em três décadas de existência, colocou as notas na bolsa, levantou-se e foi embora, bem quietinha. Nenhum outro cara faria isso por sua ex, certo? Algum paciente já sentou nesta poltrona e lhe contou algo parecido? Isso seria algo que Cristo faria, eu aposto.

Cristo daria duzentos e cinquenta reais para ela e diria: “agora me dá licença que eu vou distribuir uns peixes por aí”.

Acho que Cristo daria duzentos e cinquenta reais para ela e diria: “agora me dá licença que eu tenho uma festa americana para ir, e estou encarregado de levar o vinho”.

Sei lá, acho que Cristo daria duzentos e cinquenta reais para ela e diria: “agora me dá licença que eu tenho que ressuscitar um cara em Betânia”.

“Agora vou assistir a um antigo ritual celta, e vai ter mulher lá, é claro, mas não se preocupe: vou me manter focado na missão com meu voto virginal.”

É… não acho que ela vá me ligar de novo.

Enquanto ela se afastava, eu me sentei no banco. A amiga dela levantou-se meio atordoada, sem saber direito o que fazer. Senti que ela queria me dizer “tchau”, mas esse tchau poderia deixá-la mal com a coleguinha. Ela não devia me dizer nada. Então, ao invés disso, a amiga da minha ex rasgou a folha do bloquinho em que estava escrevendo alguma coisa, e a jogou sobre a mesa, bem na minha frente.

Olhei pra ela e ela sorriu pra mim. Minha ex estava tão puta que nem percebeu essa situação.

Peguei o bilhete que a garota de traços asiáticos deixou para mim e li, devagar, tentando processar corretamente as duas palavras e a sequencia de caracteres ali rabiscados. As pessoas ainda olhavam na direção daquela mesa, com canudos babados e comida mastigada na boca. Imagina a curiosidade de saber o que a garota havia escrito pra mim no papel.

“Me liga”, estava escrito, e logo depois uma sequencia de oito dígitos.

 

 

5 de Dezembro

 

MEU PAI ME LIGOU hoje de manhã.

Ele começou como sempre começa nossas conversas: falou sobre a tabela do campeonato brasileiro de futebol. Falou sobre o novo filme do Lars Von Trier. Falou sobre as novas pesquisas com células-tronco. Falou sobre a matéria que discorre sobre neurociência transmitida pelo Fantástico no último domingo…

Eu tô de sacanagem contigo. Ele nunca fala dessas coisas. A não ser sobre futebol. Sobre futebol ele fala. Porém, ele nunca fala sobre futebol comigo. Os bares que ele frequenta são suficientes para ele colocar o assunto em dia, e, quando tá duro pra tomar uma gelada, ele fala de futebol com meu irmão.

Ele me ligou hoje somente para me lembrar de que sou um inútil. Ele achou importante ligar pra mim para me informar que eu sou um filho ingrato.

Ele me disse: – Sua mãe faz questão de que você esteja aqui na véspera de Natal.

Percebeu? Sua mãe faz questão. Ele deixou claro.

Acho que ele ainda guarda mágoa da minha época de adolescente, quando eu comecei a parar de frequentar a igreja. Eu preferia ir para o fliperama ou soltar pipa. Eu preferia jogar bola de gude com os amigos. Num domingo ensolarado eu não queria ficar a manhã inteira enfornado em um lugar onde eu sou obrigado a ter pecados pra que o sacrifício de Jesus faça algum sentido. Jesus sofreu pra salvar a gente, e se a gente não respeita essa decisão, isso só mostra o quão ingratos nós somos.

Eu gosto de Deus mas, sejamos sensatos, Deus também devia gostar de mim, certo?

Bom, pra resumir, eu confirmei minha presença na ceia de Natal. Daí ele desligou o telefone. Simples assim.

Certo… o que mais…?

Ah, estou fazendo dieta. Estou comprando o mesmo volume de comida, mas estou comendo em menor quantidade, menores porções, e o excesso na minha despensa eu ajunto e entrego para a coleta que é feita pelo zelador para repassar às instituições de caridade nas imediações do condomínio. Por falar em condomínio, fiquei sabendo que o pessoal está fazendo um abaixo-assinado para tentar expulsar Donovan de lá… o meu vizinho legal. Uma puta duma loucura. Disseram que o condomínio só abriga famílias cristãs e que macumbeiros e bruxas não são bem vindos – ferem a moral do lugar, e esse tipo de coisa. Eles ainda não sabem que eu ando frequentando um grupo de estudo sobre magia negra, então é melhor eu ficar na minha, pra não dar merda, mas eu não posso evitar de ficar meio bolado com essa parada. Um país laico não devia ter leis contra esse tipo de intolerância?

Cara, eu odeio quando você ergue os ombros e fica me olhando desse jeito. Eu tô aqui pra tu me dar respostas, cacete…

Quê mais…?

Como eu disse, eu continuo frequentando a Ordem da Clavícula de Salomão, então não estou tendo tempo pra muita coisa. Queria voltar para o trabalho filantrópico, sabia? Sinto falta de me sentir útil em alguma coisa. Estou a dias sem fazer algo por alguém…

A comida que eu doo?

Ora, isso não é nada. Dar dinheiro pra ajudar a alguém não é nada. Você tem que fazer algo mais. Você tem que estar sempre fazendo algo a mais, entende? Se você ajudou um amigo a fazer o dever de casa, amanhã tem que ajudar dois amigos. Depois de amanhã tem que ajudar três. Depois tem que ajudar a reformar a escola. Em seguida tem que ajudar a iniciar a campanha do agasalho em seu bairro. Se eu tivesse grana, faria faculdade de medicina não pensando no dinheiro que o ofício rende, mas já planejando minha viagem até a África só pra participar do projeto dos Médicos Sem Fronteiras. Meu pai diz que aquilo é a Meca da Produtividade.

Ficar parado no mesmo lugar, contribuindo com a mesma força de vontade e com os mesmos recursos, não é demonstrar gratidão. Isso seria demonstrar comodismo, concorda comigo? Tem gente que faz donativos para instituições há mais de dez anos, mas sempre o mesmo valor. A pessoa ganha uma promoção no emprego, uma promoção boa, daí aumenta cinquenta centavos em sua doação quinzenal e acha que tá ajudando a beça… porra, tá salvando o mundo!

Quanto tempo ainda temos?

Então acho que dá pra falar daquela garota. Da amiga da minha ex. Eu liguei pra ela. Conversamos.

Ela me passou o Facebook dela.

Deu pra conhecer ela melhor.

Ela está fazendo faculdade de psicologia. Louco, não é?

É claro que eu não falei que estou fazendo tratamento psicológico. O que você queria? Que ela pensasse que eu sou maluco antes de ter uma chance de me conhecer melhor? Ou que quisesse praticar seu aprendizado me usando como seu primeiro paciente… esse não é o melhor jeito de começar as coisas num relacionamento, eu acho. Eu quero que ela me leve pra cama, não pra droga de um divã, achando que é Freud e me dizendo que meus anseios são culpa de uma possível vontade reprimida de dar o brioco.

Então…

Falando nisso.

Acho que não vou mais voltar aqui. A gente tá perdendo um puta tempo, quarenta minutos toda quinta-feira, e eu nunca vou dizer tudo aquilo que eu sei que você quer ouvir. E sabe porque? Porque não condiz com a verdade. Eu não fui estuprado quando era garoto. Eu não sou veado. Eu não sou suicida. Eu não sou um pedófilo, e meu comportamento não é autodestrutivo. Eu não sou viciado em drogas; aliás, eu não sou viciado em nada. Eu não sou esquizofrênico. Não vejo gente morta andando por aí. Eu não tenho desejo de matar ninguém – a não ser aqueles cinco caras na van, mas, pô, isso é um sentimento natural, certo?

Tá, tá, eu sei o que você vai dizer. Eu não fui estuprado na infância, mas é como se aqueles cinco caras tivessem estuprado a minha infância, como se tivessem matado a minha inocência, quando violentaram a minha namorada e eu não levantei nem um dedo para protegê-la…

Legal, vou ter que dar o braço a torcer. Mas é só isso. Essa é a grande e terrível mancha no meu passado, e isso você não tem como me fazer esquecer.

Os fatos minimamente interessantes da minha vida se esgotaram, e agora eu não tenho mais nada a dizer.

 

12 de Dezembro

 

X — Paciente faltou à consulta.

 


 

19 de Dezembro

 

Sim, eu decidi voltar. Mas foi porque não estou conseguindo dormir após ter tomado certa atitude.

Por isso eu preciso confessar o que fiz.

Na minha atual jornada religiosa, estou aprendendo que o que está em cima é como o que está embaixo. Assim na Terra como no Céu. O que está dentro é como o que está fora.

Mestre Nicolau me explicou que somos resultado daquilo que pensamos.

Eu não vim na semana passada pois achei que não precisava mais disso aqui. Eu admito meu erro. Afinal, como eu faria para compreender como ser útil em alguma coisa? Como ser útil pelo menos uma vez por dia?

Você ainda é a única pessoa que me escuta.

Por não ter vindo para cá, fiz algo que, acredito, pode ser considerado por muitos uma atrocidade. Mas eu fiz o que fiz no exato momento em que meu coração me disse que aquilo precisava ser feito. Como posso me sentir útil em alguma coisa – como posso ajudar ao próximo quando o próximo parece não estar precisando de ajuda?

Jesus ficou parado, quietinho, no jardim de Getsâmani, porque aquilo precisava ser feito. Daí foi capturado, porque precisava ser feito. Deus quis que Barrabás fosse liberto, um assassino convicto correndo livre por aí, porque precisava ser feito.

Cristo não se entregou. Acho que o que ele fez foi dizer a si mesmo: “não vou sair daqui, porque não fiz nada de errado”.

Assim como eu.

Mestre Héracles, um sacerdote da Ordem, professor de alquimia, me explicou que podemos tirar sal e nitro da terra e da água. Podemos tirar nitro e sal dos animais. Também podemos tirar nitro e sal das plantas e dos minérios. Com nitro e sal podemos criar vida.

Com nitro e sal podemos ser Deus.

Foi quando imaginei que podia fazer qualquer coisa – logo depois que saímos da reunião na Ordem de Salomão na última quinta-feira –, e foi quando tive a ideia de fazer o que fiz. Se você contar para a polícia o que vai ouvir agora, eu vou ser preso. Vou ser condenado a pelo menos dois anos de reclusão, e isso porque? Porque essa sociedade cínica não poderá entender a beleza nas minhas atitudes; beleza e desespero, tenho que dizer.

Para elas, a compreensão estará oculta.

Por exemplo, o pentagrama.

O pentagrama é um símbolo incompreendido. As pessoas pensam que está associado ao satanismo ou à magia negra, que na verdade são formas estúpidas de se chegar à verdadeira sabedoria milenar dos primeiros homens. O pentagrama é a demonstração simbólica da busca do homem em elevar seu espírito acima dos elementos primordiais da matéria. A ponta norte do pentagrama – a cabeça da estrela – é o espírito, e as demais pontas os quatro elementos.

Simples, certo?

Então visualize este princípio quando for julgar o que eu fiz, e pense com carinho antes de quebrar o direito ao sigilo que me é concedido por ser um possível paciente psicologicamente instável. Se contar isso para a polícia, vai estar me privando da minha busca pela prosperidade.

No Templo de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios, em seu estágio mais elevado, pode ver a face de Deus, e pode conversar com Seus anjos. Eu vi a face de Deus na última quinta-feira.

Meu celular pifou na quarta-feira da semana passada. Daí eu decidi ir até o camelódromo da Uruguaiana, no centro, pra comprar um aparelho novo. Tudo certo. Só que eu acordei tarde na quinta, e como não queria ficar sem telefone, já que eu ainda não tinha um fixo na minha nova casa, decidi faltar ao trabalho no telemarketing de suporte de internet e peguei o ônibus lá pelo meio-dia.

No centro da cidade eu barganhei com camelôs por um bom custo-benefício em algum aparelho. Sabe como são esses camelôs, não admitem perder nunca, nem um pouquinho… mas eu tive a frieza de conseguir um preço tolerável pro valor que tinha na carteira, e adquiri um smartphone com touchscreen, gps, wi-fi e todas essas porcarias que a gente tanto precisa.

Na Ordem de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios está acima de todas as aflições e de todos os temores.

Peguei o ônibus da linha 397 para voltar pra casa, mas puxei a cigarra e desci da condução antes de chegar à perimetral, nas redondezas de um prédio quase abandonado próximo à rodoviária. Não posso explicar porque fiz isso. Foi tão automático quanto puxar a cigarra quando o ônibus chega perto da minha casa. O mesmo instinto de acordar de repente no banco da condução, quando se está a poucos metros de casa.

Eu parei ali porque senti a necessidade de ver aquele lugar, igualmente fantástico e imundo. Um prédio abandonado pela prefeitura, mas cheio de indigentes sem um teto para se proteger da chuva, se destacava no cenário industrial, no limiar de uma linha férrea desativada e o terreno da companhia de gás, com outros prédios abandonados ao redor, além de um hospital ao fundo. Eu fitei o prédio da frente, cheio de ratos e infectado com a doença da pobreza e da miséria. Havia janelas inacabadas exibindo a luz da fogueira montada em um latão. O grafite manchava as paredes.

Na Ordem da Clavícula de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios reina com o céu inteiro e se faz servir por todo o inferno.

Andei pela calçada deserta, acompanhado só pelo barulho dos carros cruzando a pista. O edifício ficava num terreno baldio circundado por muros baixos e lá e cá com portões de ferro cujas barras já estavam mais que enferrujadas. Brincando no chão lamacento havia dois meninos, usando roupas encardidas, e suas barrigas estufadas não era a prova de que dispunham de comida farta, mas provavelmente de uma população de pequenos vermes transitórios. Vendo isso, senti um aperto no coração. Como posso ir pra casa e dormir tranquilo, sabendo que estas crianças viverão nas sombras pra sempre? Como centenas de milhares de pessoas chegam e saem do centro da cidade e encaram aquele prédio, simplesmente observando a miséria face a face, e não descem para oferecer qualquer tipo de ajuda?

Na Ordem de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios dispõe da sua saúde e da sua vida e pode também dispor das dos outros.

E eu abri o portão de ferro e este rangeu ao meu toque. Entrei naquele local como se estivesse entrando em uma outra dimensão. Os meninos pararam de rolar no chão e me observaram enquanto eu me aproximava devagar. Das janelas do térreo e do segundo andar, homens estranhos surgiram e me encararam. Um deles estava com um pano de chão enrolado na cabeça e fumava um cachimbo – devia ser droga, eu acho. Outro coçava o queixo peludo com uma das mãos, e nesta mão pude ver um objeto enferrujado que parecia ser um soco inglês.

Uma mulher apareceu em outra janela, e ordenou que seus dois filhos entrassem naquela pocilga que ela tem coragem de chamar de casa. “Entrem pra casa”, ela gritou.

Na Ordem de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios não pode ser surpreendido pelo infortúnio, nem atormentado pelos desastres, nem vencido pelos inimigos.

Eu entrei no edifício sabendo que aqueles miseráveis não poderiam me atingir. Eu estava acima daquilo tudo. Aquela pobre gente era nada mais que um resquício do passado vazio de uma nação oca, sem nenhuma informação a ser acrescentada ao mundo. Eu entrei no edifício sabendo que suas mentes eram tão pequenas que não poderiam reagir a minha invasão, porque, na realidade, talvez eu lhes estivesse trazendo a esperança.

Na Ordem da Clavícula de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios sabe a razão do passado, do presente e do futuro.

Andando pelo corredor principal eu me dirigi aos fundos do prédio. Eles continuavam me olhando; continuavam tentando me entender. Eu caminhava pelo corredor e eles viraram lentamente suas cabeças, num ritmo compassado e meio peculiar. Olhos injetados. Mortos-vivos. Ora, aqueles coitados estavam perdidos, então para eles eu era um filete de água num copo de óleo. Mundos separados.

E por falar em óleo.

Eles deviam ter roubado aquelas pequenas garrafas de algum caminhão que capotara na estrada. Numa parede havia litros e mais litros de óleo de motor, e galões de gasolina. Ainda não consegui entender pra quê aquela gente precisava daquilo. Claro, eu posso até imaginar.

Eles podiam trocar aquele material com taxistas, e receber algum dinheiro para comprar pó. Podiam vender numa loja de peças automotivas, ou trocar por baseado lá pros lados do Caju.

Eu não sabia o que eles pretendiam fazer com aquilo, mas sabia exatamente o que eu devia fazer.

Libertação, entende?

De uma só tacada eu fui extremamente útil, fui herói, e ensinei àquela gente a dar o devido valor à vida.

Tomei a caixa de fósforo das mãos de uma mulher que tentava acender um pequeno fogareiro. Na panela tinha um líquido esverdeado, com algumas folhas boiando, que eu nem tentei entender o que era, mas se parecia com o fundo de um aquário sujo.

Acendi o fósforo.

Lancei.

Na Ordem de Salomão aprendi que aquele que detém a chave dos mistérios tem o segredo da ressurreição dos mortos e a chave da imortalidade.

 

26 de Dezembro

 

Feliz Natal atrasado!

Na terça-feira eu cheguei na casa dos meus pais, como eu tinha prometido que faria, e…

Hein?

Como é?

Não terminamos nossa última conversa?

Bom, não é que não terminamos: o negócio é que eu não confio no seu código de confidencialidade tanto assim. Eu procurei na internet, e descobri que se um terapeuta ouve a confissão de um crime, é seu dever denunciar o paciente criminoso à polícia.

Sinceramente? Acho isso ridículo. É obrigação da polícia investigar crimes, e não obrigação dos psiquiatras entregar o segredo de bandeja.

Embora eu possa, sem problema nenhum, falar sobre o que eu sei quanto ao incêndio ocorrido em um prédio caindo aos pedaços no centro da cidade, há duas semanas. Passou em todos os telejornais da madrugada, e, no dia seguinte, os sensacionalistas da tarde fizeram questão de informar.

Disseram que um herói havia resgatado uma dezena de pessoas que certamente morreriam em uma larga coluna de fogo. Disseram que maioria das pessoas estava drogada, então não poderia, por si só, sequer imaginar o que estava ocorrendo. Disseram que ainda não se sabia se o incêndio era criminoso ou não, mas se sabia que Deus havia enviado um herói para resgatar as almas perdidas.

Adivinha só quem foi esse herói?

Então eu apareci na TV e alguns até me chamaram de santo, e, depois disso, recebi telefonemas de pessoas que eu sequer lembrava que existiam querendo me parabenizar por ser um cidadão exemplar. Meu Facebook acusava mais de quinhentas novas notificações de pedido de amizade. No dia posterior ao incêndio meu Twitter informava que eu tinha duzentos seguidores, quando antes eu tinha apenas dois, e mesmo assim eu nunca usava aquela porcaria – só fiquei sabendo de tudo isso porque a caixa de entrada da minha conta de e-mail tinha mais de setecentas mensagens novas ainda não lidas.

Eu confesso que fiquei assustado.

Meu pai me ligou na semana seguinte e disse: “agora você tá chegando lá.”

Eu sorri. Enfim estava conseguindo deixar o meu velho orgulhoso.

No trabalho de suporte, o chefe do meu setor me chamou para conversar, e disse que fora decidido em uma reunião de emergência entre as lideranças que eu deveria concorrer ao cargo de supervisor geral na empresa. Um herói do meu calibre não poderia se apresentar na TV como sendo um simples operador de call center, como um canal me apresentou no dia anterior, com o GC na tela me mostrando como um proletário qualquer.

Minha ex me ligou na segunda-feira, dizendo que tínhamos que conversar.

A amiga dela me ligou uma hora depois, dizendo que queria se encontrar comigo para agradecer pessoalmente por eu ser quem eu sou. Disse que eu ia adorar o presente que ela preparou pra mim.

Meu pai me ligou outra vez e me disse que minha presença na ceia de Natal desse ano era obrigatória. Depois do ocorrido no incêndio, pelo visto meus parentes distantes de Minas Gerais, Ceará e Paraná tinham decidido vir me visitar no Rio. Já haviam depositado dinheiro na conta do meu pai para contribuir com uma ceia farta, mas com a condição de poder trocar pelo menos duas palavras comigo. Sério, eles me queriam lá, mas do que qualquer outra pessoa. Gente com quem eu nunca havia almoçado na mesma mesa agora precisava desesperadamente de um tete-a-tete comigo.

Na Ordem de Salomão, o Grão-Mestre veio de São Paulo unicamente para apertar minha mão. Disse que um homem como eu não poderia continuar sendo um mero visitante do templo, e decidiu que eu devia me tornar Iniciado imediatamente. Mandou que fossem feitos os preparativos para que, no dia seguinte, eu estivesse passando pelo ritual de praxe.

Tive que faltar ao trabalho naquele dia. Meu vizinho estava lá, orgulhoso por ter sido o cara a me trazer para a luz do esclarecimento filosófico. Pelo que tudo indica, eu havia sido heroico exatamente por ter a chave dos mistérios, as portas da percepção abertas para a única religião verdadeira. Infelizmente não posso falar sobre a iniciação, pois é um processo muito íntimo e pessoal, cuja cerimônia não pode ser compreendida por quem está do lado de fora.

O fato é que eu fui batizado.

Morri e ressuscitei.

Desci aos infernos.

Me transformei em Sol.

Passei pelo desdobramento astral e o “eu” em espírito pôde encarar todo o plano invisível.

Desci o poço da verdade.

Cruzei a coluna de fogo.

Vi as Eumênides e dancei as danças sacras.

O que foi feito naquele dia em que fui comprar um aparelho celular mudou a minha história para sempre. E mudou também a história dos resgatados. Aquele pessoal que se arrastava por seu próprio mundo de sofrimento entendeu que é preciso se dar valor à vida e valor ao que se tem. Quem eles pensam que são quando massacram seus organismos com drogas? Nosso corpo é presente de Deus, não deve ser violado dessa maneira.

Eu lhes mostrei o inferno e os tirei de lá com vida.

Eu paguei a dívida que fiz quando era um garoto e não confessei meus pecados. Certamente paguei a dívida por não ter rezado 10 ave-maria e 5 pai-nosso, como Deus queria que eu tivesse feito.

A casa dos meus pais ficou pequena para as quase cinquenta pessoas que vieram para a ceia de Natal. Todos queriam encostar em mim, me agradecer, dizer que eu tinha que voltar para a igreja pois Deus certamente tinha um plano para o meu futuro. Estava claro que eu era alguém importante. Eu não podia falar para eles sobre meu compromisso com a Ordem de Salomão, sobre como eu conseguira chegar a uma nova vida sem precisar de um padre ou de um pastor, então disse apenas que gostaria de pensar no assunto antes de ir pro culto ou pra missa.

Um produtor de um canal da TV a cabo me ligou bem no meio da ceia, me convidando para participar de um documentário especial chamado “Os Santos do Fim do Mundo”. Eu disse pra ele que ia pensar no caso, desliguei o telefone e voltei pro meu panetone.

Durante a ceia, ninguém tirava os olhos de mim. Foi constrangedor, mas de alguma maneira foi gratificante.

A origem do incêndio, aceita com as evidências encontradas até o momento, reza que um dos maconheiros do prédio deixara cair um fósforo aceso sobre uma poça de gasolina. Eu tava passando por ali no exato momento em que o fogo começava a se alastrar pelo térreo. Salvei dois meninos que estavam numa escada, quase hipnotizados pelo fogo. Salvei também a mãe deles, que veio desesperada tentar resgatar os filhos. Meu braço esquerdo sofreu queimaduras, porém, naquele momento, curiosamente não senti dor alguma.

Não havia ninguém na rua naquela noite, com exceção dos carros em alta velocidade que seguiam para a perimetral. Aquela gente que enxergava um mundo turvo e sombrio precisava da minha mente limpa e da minha astúcia. Precisava dos meus braços fortes, porque os motoristas apressados, chateados por estarem perdendo os minutos iniciais da novela, não queriam ter de se preocupar com aquela luz de fogo amarelada, que pra eles não era mais que uma mancha, um blur passando numa velocidade de noventa quilômetros por hora.

O que gerou o incêndio não é importante, afinal.

O importante é o que o incêndio gerou.

Vida.

  

2 de Janeiro

 

NO DOMINGO EU ABRI a porta de casa e na minha varanda havia um vaso com algumas rosas amarelas. Um bilhete dizia apenas: “obrigado pela força”. Não sei porque, mas lembrei de quando minha ex me chamou de fofo.

Fiz uma pesquisa rápida na internet pra saber o que rosas amarelas significavam. Eu nunca havia visto rosas como aquelas. Algumas das informações que consegui no Google foi que este tipo de flor geralmente é dada para adolescentes, e muitas vezes vem carregada de segundas intenções. Segundas intenções… não entendi direito. Além disso descobri que rosa amarela pode significar ciúme, desconfiança, infidelidade. Uma pessoa que te manda uma rosa amarela pode estar querendo dizer que suspeita de algo.

Depois do almoço dois dos resgatados do incêndio vieram me visitar. Era uma mulher e um homem, que declararam ser casados. Trouxeram bolo de fubá e refrigerante de dois litros e alegaram que precisavam conversar comigo. Sentamos nas poltronas da sala.

O homem virou-se para mim e disse: – Nunca vamos poder pagar o que fez por nós e por nossa família – ele era um senhor humilde, já com cabelos brancos, e sua fala tinha um resquício de sotaque nordestino.

Eu sorri e disse: – Não estou cobrando.

Depois foi a mulher quem disse: – O senhor já sabe? Todos estão querendo pagar pelo que o senhor fez. As pessoas… o pessoal da televisão diz que é nossa obrigação…

Ela não era bonita, mas me deu a impressão de que um dia fora. Usava cabelo chanel até que bem escovado e tinha um jeito de ser mais jovem do que as rugas na cara demonstravam. Os dentes eram quase todos cavalados e amarelos. Os peitos estavam estufados sob a camisa regata de cor cinza, e por um momento meu olhar caiu ali.

Eu toquei o ombro dela.

– Vocês não são obrigados a fazer nada.

– Certo – disse o homem.

Juntou as mãos e as esfregou, nervosamente.

Eles estavam ali por outro motivo.

– Nós queríamos fazer uma pergunta, moço – disse ele.

– Podem fazer.

– O senhor estava lá na hora que tudo pegou fogo. Os filhos da Isadora viram o senhor entrar. O Olavo viu quando o senhor entrou no prédio.

Droga, que merda hein, eu pensei naquele instante. Logo agora que tudo tava dando certo.

– E daí? – perguntei, tentando ser suavemente agressivo, se é que isso faz sentido.

– O fogo não estava lá, senhor – disse a mulher, e seu rosto adquiriu uma expressão sombria. Os peitos se contraíram. O misto de medo e tesão fizeram minha cabeça girar por um tempo. – Não tinha incêndio nenhum antes do senhor chegar.

O verdadeiro conhecimento mágico herdado pelos descendentes de Salomão diz que um mago tem que estar preparado para todas as adversidades.

O mago deve achar a pedra filosofal.

O mago deve ter a medicina universal.

O mago deve conhecer as leis do movimento perpétuo e deve poder demonstrar a quadratura do círculo.

O mago deve transmutar em ouro não só todos os metais, mas também a própria Terra, e até as imundícies da Terra.

O mago deve dominar os animais mais ferozes, e saber dizer palavras que adormecem e encantam serpentes.

O mago deve possuir a arte notória que dá a ciência universal.

O mago deve falar sabiamente sobre todas as coisas, sem estudo prévio e sem preparação.

– Espero que vocês não estejam me acusando de ter sido o causador daquele incêndio – eu disse. Senti surgir um sorriso triunfante em meu rosto, mas meu coração batia forte. – Sabem quem eu sou? Ousam apontar o dedo para mim e ter-me como criminoso?

– Senhor… somente estamos dizendo que…

– Eu sou Jesus Cristo reencarnado! – gritei, e me levantei. O homem estava despejando o refrigerante que trouxera em um copo quando caiu para trás. A mulher tomou um susto tão grande que achei que ela fosse chorar. Um casal simples que respondeu à minha apostasia com um desespero ignorante de quem ouve alguém dizer que Deus está morto.

Senti pena de continuar com aquilo, mas minha adrenalina meio que exigiu que o show continuasse. Não me julgue! Você também faria isso se tivesse a fragilidade de uma plateia… uma plateia de conhecimento limitado, em suas mãos.

– Eu sou Jesus Cristo reencarnado! – repeti. – O Salvador do mundo levanta-se diante de vocês e o máximo que podem fazer é arfar com essas caras estúpidas e alarmadas?

– Como tem coragem de dizer uma coisa dessas? – perguntou a mulher, com lágrimas nos olhos. – Você não é Jesus. Ninguém pode ser Jesus…

– Tanto posso como sou.

Era como se Perseu passasse desfilando com a cabeça da Medusa a tiracolo. Foi impagável ver os dois congelados, olhando pra mim com seus queixos caídos como se eu fosse um maníaco com uma faca de cozinha escondida no bolso. Lógico. Ninguém se colocaria no lugar de Cristo se não quisesse cimentar a própria trilha em direção ao inferno, ou, na menor das hipóteses, adquirir o desprezo dos semelhantes.

Com seus rostos rubros de vergonha, eles me pediram desculpas e se despediram, deixando o bolo e o refrigerante. Eles me pediram desculpas várias vezes, até que se levantaram e foram embora.

Na segunda-feira acordei cedo e fui comprar os pãezinhos e o leite, e quando voltei havia uma caixa no chão da varanda, na frente da minha porta. Parecia uma daquelas caixinhas que tocam música, aquelas com uma bailarina de brinquedo rodopiando, revestida de um tecido avermelhado. Peguei a caixa e levei para dentro. Coloquei-a sobre a mesa da cozinha e preparei o café da manhã.

Comi dois pães com manteiga enquanto olhava para a caixa. Devo abrir? Eu pensava.

E se aquele casal fosse um casal de fanáticos? E se eles tivessem ficado putos quando eu me comparei a Cristo e agora tivessem me mandado uma bomba? E se eu abrisse a caixa e saísse dali um rato doente? E se saísse dali um gás venenoso? Fotos comprometedoras? Antraz?

Você é um babaca, disse eu, em voz alta, soltei o lacre que prendia a caixa e a abri.

Tinha incenso ali. Uma caixa cheia de outras caixinhas menores, cilíndricas e coloridas, contendo incenso de muitos odores. Ou sabores. Eu conhecia um pouco da natureza e das propriedades do uso do incenso porque havia seções de meditação organizadas pelo pessoal da Ordem de Salomão. Tinha o cítrico – laranja, limão, lima e cravo-da-índia. Tinha floral e herbal, que, segundo a embalagem, ajuda a afastar o estresse. Imaginei logo que quem havia me mandado as caixas devia ter alguma relação com o templo; imaginei que talvez fosse Donovan me mandando uma singela mensagem dizendo que eu precisava relaxar mais e não ficar tão aflito por achar que minha vida é um tédio e que eu não tenho uma perspectiva que possa me prometer um futuro digno. Eu não devia tentar ser simpático e útil sempre. Sim, pensar no futuro me deixa nervoso. Morrer com uma mão na frente e a outra atrás deve ser foda.

Guardei a caixa sobre uma estante.

Na terça-feira recebi outra caixa, do mesmo tamanho e revestida do mesmo material. Esta estava cheia de um pó dourado em seu interior.

Não sei se é ouro. Tava mais pra lantejoulas.

Mas entendi o recado.

Então, como tudo indica, na quarta-feira chegou a mirra. Eu peguei a caixinha vermelha na varanda, abri e vi os pequenos galhos finos dispostos no interior do objeto. Eu não sei se era mirra de verdade, e nem me interessa saber, mas fiquei um tempo tentando desvendar aquele mistério.

Podia ser uma brincadeira do meu vizinho, fazendo referência aos Reis Magos. Como eu estava na época de iniciação no templo, talvez aqueles fossem os meus presentes.

Ou podia ser um aviso daquele casal de domingo, como se dissessem: “já que você é Jesus Cristo, aqui estão os seus merecidos presentes”.

Meu medo era de que eles levassem a brincadeira a sério e quisessem me crucificar no final da história toda.

Ouro, incenso e mirra.

Deixei as caixas sobre a minha estante, tomei o café da manhã e fiquei assistindo TV até o meio da tarde. Quando comecei a me arrumar para ir trabalhar, minha ex me ligou novamente, dizendo que precisava se encontrar comigo ainda naquela tarde. Eu disse que tinha que ir trabalhar, e ela me respondeu implorando para que eu faltasse ao serviço, porque ela precisava mesmo mesmo falar comigo. Eu tava mais inclinado a ir trabalhar do que a me encontrar com ela – a bem da verdade é que eu já tô cansado da voz dela.

Ela representa um retrocesso pra mim. Por isso dei preferência ao trabalho. Ela disse que estaria me esperando na praça de alimentação do mesmo shopping em que tínhamos nos encontrado da última vez, e que ficaria lá, até eu aparecer.

Ignorei e desliguei o telefone.

Aconteceu algo interessante lá no call center. Uma coisa que se repetiu a semana toda:

A minha promoção como supervisor ainda não havia sido totalmente aprovada pelos diretores da empresa, então eu continuava atendendo normalmente ao telefone. Eu não sei como, mas grande parte dos clientes acabou descobrindo quem eu era, reconhecendo minha voz ou sabe Deus o quê.

Atendi a um telefonema como sempre atendo a todos os telefonemas. Digo o nome da empresa, digo o meu nome, desejo boa tarde ou boa noite. A pessoa do outro lado da linha parecia ter ficado feliz em ouvir minha voz.

– Aí, você é o cara do incêndio, não é?

– Em que posso ajudar? – desconversei. As ligações são gravadas e você é instruído a falar com os clientes como se fosse um robô. Como se sua vida não tivesse uma luz. Como se você já estivesse morto.

– Depois a gente fala disso. Você é o cara do incêndio ou não é? Fiquei sabendo que você trabalha num telemarketing… então é nessa empresa de bosta?

– Senhor, em que posso…

– Ainda bem que você é um herói, cara. Ainda bem que você pode se orgulhar do trabalho de salvamento que fez naquele prédio. Sabe porque eu digo isso? Porque telemarketing é um desserviço, sacou? Você compensa o seu emprego de merda salvando as pessoas na rua, certo?

– Senhor… se o senhor não puder relatar seu problema, terei que desligar para dar oportunidade a outros clientes de…

– Espera. Qual é a sua igreja? Estão recebendo donativos? Qual é o número da conta da ajuda aos moradores de rua?

E foi assim a semana toda. Pelo menos não atendi clientes revoltados que descontam suas necessidades de fazer alguém de bode expiatório e não deixam a gente tentar fazer corretamente nosso trabalho, que é apenas informar. Repassar informações. Dessa vez eles só queriam falar com o messias em ascensão, disponível para atendimento das 15 às 20 horas.

É claro que eu me sinto especial por ouvir todos os dias que sou um herói, um guerreiro de Deus, um profeta. Um salvador de vidas. Tem gente que liga pra mim e me diz que eu sou um santo.

O pior é que depois desse tempo só ouvindo elogio das pessoas eu voltei a ter aquela sensação de que não estou sendo útil. Achei que com o salvamento do incêndio eu me sentiria por fim completo – achei que teria tempo de pensar em mim novamente, sem achar que preciso fazer um favor para alguém a todo o momento. A voz do meu pai – e junto com ele a voz de Gandhi, de Buda, de Cristo – ainda continuava ecoando nos meus ouvidos. Seja útil.

Eu ainda me vejo como um garoto, sabe, sozinho no meu quarto esperando que alguém se importe comigo, enquanto eu insisto me sentindo culpado pelo mal-estar das pessoas. Porque sou eu que tenho que visitar minha família e não minha família que tem que me visitar? Porque meu pai e minha mãe ainda não vieram me visitar na minha nova casa? Enquanto eu espero que alguém me faça uma gentileza maior que me entregar caixas cheias de porcarias ou rosas amarelas, eu vou oferecendo minha mão a quem precisar de auxílio, no que quer que seja.

Eu já tentei parar e focar em mim mesmo, mas é complicado, muito complicado, tentar ser o que não se é. Pelo menos eu acredito que é quase impossível se largar certos hábitos, como as milhares de vezes em que eu tentei, com todas as minhas forças, ser tão filho da puta quanto as pessoas que atravessam meu caminho. Você sabe do que eu tô falando. Você ajuda os outros e até parece que você não fez nada mais do que a droga da sua obrigação… as pessoas estão cheias de pensamentos infantis como esses: a criança te diz “obrigado”, e você tem que dizer “de nada”, ou então ela vai te perturbar até que as palavras mágicas sejam ditas.

Na boa, eu tô cansado.

Ultimamente eu tenho lembrado de algumas coisas que eu tipo já tinha bloqueado na minha mente. Sabe, tem uma história engraçada: uma vez eu fui convidado por um amigo para ir a uma dessas feiras de automóveis e de tecnologia automotiva. Eu devia ter uns vinte e dois anos, e aceitei não por me interessar por carros, mas pela promessa de cerveja de graça e a oportunidade de ver mulheres bonitas. Nós íamos caminhando por um galpão imenso lá no galpão da exposição, observando os novos motores de trinta e dois pistões e coisas do tipo, carros antigos do tempo das cavernas, e o meu amigo pedia para tirar uma foto com cada mulher gostosa que ele via distribuindo panfletos nos stands. Ele me pedia para segurar a câmera fotográfica e eu tirava uma foto. Ele me pediu para tirar uma foto dele no meio de duas gostosas do stand de uma marca de óleo de motor. Ele me pediu para tirar uma foto dele com a gostosa das calotas cromadas. As garotas eram sempre muito simpáticas e nunca recusavam uma foto. Vendo tudo isso acontecer, e só Deus pode explicar o motivo, eu decidi tirar também uma foto dessas, e falei com uma morena linda que estava atendendo aos passantes interessados em saber mais sobre filtros de ar, e ela me disse que “não”. Eu perguntei se poderia tirar uma foto com ela, e ela disse que não.

– Porque não? – perguntei.

– Porque não – ela respondeu.

E eu olhei para os lados, envergonhado e frustrado, e percebi que haviam pessoas rindo de mim. Meu amigo estava rindo de mim, carregando orgulhosamente sua câmera repleta de arquivos de fotos de beldades abraçadas a ele, que ele faria questão de exibir nas redes sociais no dia seguinte. Eu fui prestativo o suficiente para tirar mais de trinta fotos dele com qualquer mulher que passava, mas a vida não pôde me retribuir à altura, suponho eu. A mulher dos filtros de ar me olhou de lado, como se eu fosse um lixo, como se eu fosse um mosquito chato zumbindo em seu ouvido, e me disse que não queria tirar uma foto comigo.

De quebra voltei a lembrar da minha primeira namorada.

A van, os caras, e todo o resto.

 

 

9 de Janeiro

 

VIERAM BATER NA MINHA PORTA as duas garotas com quem dormi naquele dia do Beltane. Fiquei preocupado porque ainda não conseguia me lembrar os nomes delas, mas felizmente elas me revelaram que não haviam mesmo dito seus nomes para mim, pois não queriam que eu pensasse que aquela noite poderia gerar algum tipo de compromisso entre nós. Tudo bem, eu disse, então o que vocês vieram fazer aqui?

Elas disseram que depois do meu ato heroico, tudo mudou. Pelo visto agora eu era um cara especial, e minha bondade unida ao meu novo empenho no treinamento mágico claramente me tornava um foranto iluminado de poder e fonte inesgotável de fertilidade. Elas haviam falado de mim para a Lilith, e agora eu era uma presença necessária no coven. Enfim, não espero que você entenda.

Foranto é o nome de um recipiente onde se depositam ervas para a fabricação de unguentos. Jargão alquimista. Para elas, assim como um desses forantos, eu era um recipiente espiritual das rosas dos deuses. Quando um homem é escolhido para esta tarefa, a Lilith envia-lhe um buquê de rosas amarelas, porque rosas amarelas estão para a alma como o amaranto está para a gordura.

Não me pergunte. Também não saquei.

Mas eu fui.

Continuei me achando um inútil, no entanto.

Bom, eu me achei inútil porque na verdade aquela história toda de magia é um grande passatempo. Você frequenta todas as noites um lugar cheio de gente descrente nos contratos sociais de praxe, gente que sabe os planetas e seus domicílios, gente que acredita poder usar somente a força da mente para mover objetos, e você simplesmente não pode levar isso a sério. Mas eu creio em Deus, e com Deus acho que qualquer impossibilidade se torna pelo menos minimamente possível.

Ainda assim, ajudar bruxas não me parecia o conceito correto de ajuda.

E foi por isso que dei meu próximo passo.

Na terça-feira à noite a amiga da minha ex me disse, pelo Facebook, que queria se encontrar comigo. Eu achei que seria legal, e aceitei. No dia seguinte fui buscá-la em casa e juntos pegamos o ônibus para o shopping. Tivemos um bate-papo divertido sobre internet, mídia mentirosa, política e as atuais manifestações populares; o assunto sempre partia dela, que era jovem, universitária, bonita e tinha um futuro bem-aventurado pela frente. Eu? Eu nunca penso nessas coisas. Quando saio na rua só vejo o ângulo negativo das formas, quando vejo uma moça entrar numa van eu penso em olhos roxos e genitálias vermelhas, quando vejo um mal elemento em uma rua deserta eu imagino minha própria morte por suas mãos, quando eu vejo um político sorridente e bem vestido num comício eu enxergo um futuro de miséria e inflação. Quando entro aqui nesta sala, não vejo um consultório terapêutico, mas sim a cela de um branco e silencioso hospício.

Ou tem algo muito errado comigo, ou tem algo muito errado com o mundo.

No meio do caminho pro shopping um sujeito subiu o ônibus e anunciou o assalto. Primeiramente apontou um desses revólveres Magnum, sabe, velho e oxidado, com tambor e tudo, e limpou o caixa da cobradora. Depois foi andando pela condução pegando dinheiro e relógio e o que mais pudesse obter até chegar a mim e a amiga da minha ex. Ficou olhando para ela do mesmo jeito que os caras da van olharam para a minha primeira namorada, tipo um animal ou alguma coisa assim. Tipo um cachorro que atravessa a rua e monta uma fêmea sem qualquer cerimônia. O que eu tinha agora em mente era o que os adeptos da Ordem de Salomão chamam de porisma: uma questão dogmática a ser evidenciada. Eu me levantei rapidamente, pressionei os tendões do pulso do assaltante e recolhi sua arma antes que ele pudesse se permitir a mínima reação. Foi rápido. Pá, pá, pum, e a arma já tava na minha mão.

O ônibus parou.

As pessoas começaram a me aplaudir. Tive outra vez a sensação de ser útil em alguma coisa. É uma sensação muito boa, deve-se dar este mérito a quem defende os benefícios do altruísmo.

Só que o ônibus tinha parado e a porta traseira estava aberta, pois o assaltante anunciara, a meio minuto atrás, que iria descer e dera a ordem ao motorista de deixar tudo já no esquema pra ele. O motorista não teve a manha de perceber minha ação e fechar a porta. Então antes que eu pudesse pedir para que alguém ligasse para a polícia, o homem me empurrou e saiu correndo pela porta, sob os gritos coléricos das pessoas. Ele ainda tava com o dinheiro delas, com as joias pendendo em uma sacola puída, então você imagina que alguns até tentaram seguir o delinquente, mas não acho que tenham conseguido alcançá-lo.

Joguei o revólver pela janela.

A amiga da minha ex me olhou de um jeito que deixou bem claro que agora ela não vai mais desistir de mim. Com seus olhos cerrados ela me disse que estava apaixonada. Com sua voz doce, mais agradável que a da minha ex, ela me disse que não queria mais ir ao shopping, mas sim até a minha casa, porque obviamente todo aquele processo de conhecer, e flertar, e dizer que ela é a mina mais gata do mundo já não se fazia necessário.

Não olhe pra mim desse jeito. Sei o que você tá pensando. Tá querendo me dizer que, no fundo no fundo, eu tô querendo acabar com a minha própria vida e qualquer oportunidade que surge eu pareço estar agarrando com unhas e dentes, não é? Não, existe um equívoco aqui. Eu já disse pra você que não sou um suicida. Só acho que existe uma supervalorização da vida quando, em proporção à população de baratas no ralo do seu banheiro, nós humanos morremos com muito mais facilidade. Você sabe, baratas podem sobreviver à um apocalipse radiativo, e podem resistir a uma única chinelada dada por uma criatura centenas de vezes mais forte. Por isso às vezes eu fico meio bolado quando lembro da barata mutante do Franz Kafka – e se ela simplesmente decidisse sair do quarto e descer o braço naquele monte de vagabundos que ela costumava chamar de família?

Bom, depois do caso do ônibus eu voltei aos jornais com força e sensacionalismo total. No dia seguinte meu telefone tocava de um em um minuto, numa constância muito maior que em qualquer telemarketing onde eu tenha trabalhado. Meu pai me ligou e disse que eu finalmente havia despertado para a vida, que agora eu era corajoso assim como ele fora em juventude, e que Deus devia ter um plano especial para mim.

O Grão-Mestre do Templo me disse que eu tinha o poder de conhecer à primeira vista e a fundo a alma dos homens e os mistérios nos corações das mulheres.

As bruxas me ligaram na quarta-feira, dizendo que o Sabbat estava próximo. Eu não sabia o que era isso, mas elas me explicaram que era uma data especial, e que eu estava emanando poder suficiente para fazer parte de uma cerimônia em homenagem ao Deus Cornífero. É, eu também pensei no diabo quando ouvi esse nome, e disse isso para elas, mas elas riram e me disseram que o diabo não existe. Ótima notícia, hein?

Um jornalista me abordou bem na porta da minha casa hoje de manhã. Atrás dele vinha um cara segurando uma câmera e vários curiosos que foram se amontoando assim que aqueles dois surgiram no portão do condomínio. Eu não queria me amostrar nem ficar aparecendo na TV, minha meta nunca foi virar celebridade, eu queria ser útil, só isso, embora tenha ficado com pena de dar um fora no cara quando ele anunciou que estávamos ao vivo, em rede nacional, no programa matinal de maior audiência de uma grande emissora.

Sim, eu dei a droga da entrevista; não contei, porém, todos os detalhes.

Não contei, por exemplo, que eu já conhecia o assaltante há muitos anos. O assaltante do ônibus, sim, era um amigo de infância. Aceitou fazer um assalto de mentira com uma réplica de um revólver em troca de cem contos mais o dinheiro que arrumaria ali na condução. Foi por isso que eu não fiz qualquer movimento pra impedir sua fuga. No dia anterior ao assalto eu dei pra ele duas notas de cinquenta e disse: – Eu vou estar lá com uma garota. É só pegar o dinheiro do pessoal, se aproximar de mim e deixar eu tomar a arma de você, tá certo?

– Quer impressionar a namoradinha, né?

Isso e mais alguma coisa.

Como se você não soubesse que esse é o preço que se paga para construir os heróis dos últimos dias. Os grandes mercenários a preço fixo. Bin Laden, Una Bomber, Anders Breivik.

Acha que eles ganharam quanto de seus contratantes? No fim, acho que fiz um excelente negócio.

  

16 de Janeiro

 

DAQUI HÁ POUCO VAMOS fazer seis meses de terapia, e você deve estar se remoendo de raiva por eu não ter relatado algum trauma sexual de infância. Fala a verdade, vocês terapeutas adoram isso, certo?

Sinto muito, mas não aconteceu nada do tipo. Pelo menos não comigo, é claro. Teve o caso da minha primeira namorada, que me marcou bastante e que não some da minha cabeça, mas na época eu tinha quase dezoito anos, então não podemos considerar  como se fosse um fato da minha infância.

Teve aquele padre que tentou me convencer de que eu tinha que ter um pecado, que é uma obrigação ter pecados pra que Jesus possa me salvar, e talvez você queira considerar aquilo uma violência quase sexual. Mas eu não acho que tenha sido. Eu não coleciono camisinhas por ser viciado em sexo; eu apenas as coleciono porque elas são coloridas e têm embalagens bonitas. É como se eu voltasse a colecionar as figurinhas do Dragon Ball, aquelas especiais que brilhavam e tudo, mesmo que o desenho não faça mais qualquer sentido.

E apesar de não ser mais um garoto, algo anda me incomodando… digo, continuando com o assunto “sexo”. Aquelas bruxas vieram me visitar em casa no tal dia do Sabbat, e disseram que precisariam da minha ajuda em um cerimonial. Uma delas ligou seu Iphone e iniciou o programa tocador de áudio, escolhendo um setlist de música folk europeia ou algo parecido, enquanto a outra desenrolou um tapete no meio da minha sala de estar e acendeu umas velas em volta. Uma delas me deu um beijo na boca e me disse que estava na hora de nos comunicarmos com a Terra do Verão. A outra abriu o zíper do vestido e deixou-o cair no chão, revelando seu corpo magro e atlético.

Eu disse que iria rapidinho no quarto pegar camisinhas, mas elas disseram que dessa vez não seria necessário. Sem camisinhas.

Fizemos os ritos de fertilidade, geramos os feitiços, dançamos, comemos frutas e bebemos vinho. Cantamos em voz alta as músicas antigas, que eu não conhecia, contudo tentava acompanhar grunhindo ao mesmo tom do timbre delas. Elas me disseram que eu era bom nisso, que estava aprendendo rápido a falar o idioma verdadeiro. Elas disseram que a lua estaria cheia quando a noite chegasse, e a anciã, a mãe e a virgem estariam olhando por nós então.

Não foi um trauma sexual de infância, lógico, mas é meio assustador crer que mulheres possam fazer amor em troca da energia primordial seminal que eu posso oferecer. Os valores dos nossos pais já não estão mais válidos, sei disso, e sei que hoje em dia as pessoas estão evoluídas o suficiente para se permitir fazer sexo casual sem precisar ter de subir ao altar católico, mas saber disso não me impede de ficar admirado.

Assim que terminou o ritual, a chuva começou a cair. Elas sorriram para mim e me mostraram, pela janela, a lua cheia que surgia em meio às nuvens negras carregadas de água.

O Grão-Mestre do Templo me disse que eu tinha o poder de forçar, quando me aprouvesse, a natureza a se manifestar.

E é exatamente isso que eu venho fazendo.

O mundo dorme e dorme sem fazer esforço para despertar. As pessoas seguem fazendo o que a natureza ordena: acordam, comem, cagam, vão trabalhar, e tentam se reproduzir quando voltam para casa. Estão todos cegos, e eu estou posicionando o holofote para que eles enxerguem a luz. Ontem passou na televisão o caso de um sujeito que entrou em um ônibus armado com uma pistola e estuprou uma mulher na frente de todo mundo. Você viu isso? Era um garoto, menor de idade. Ele entrou no ônibus, tomou o dinheiro das pessoas ali presentes e ainda conseguiu ficar de pau duro enquanto forçava uma mulher a fazer algo despudorado com ele. Como ele conseguiu? Que tipo de besta não começaria a tremer e se mijar todo só de apontar uma arma para a cabeça de alguém…?

Deus, esse mundo está doente.

Alguém precisa curá-lo.

Por isso eu venho fazendo o que estou fazendo. Como um remédio que bombardeia o paciente para atacar um câncer, esta é minha nova função neste organismo enfermo  que você e eu chamamos de sociedade. Como um remédio que traz mal-estar e ao mesmo tempo destrói a moléstia, este sou eu. Finalmente terminei minha jornada de autoconhecimento, descobrindo e tendo certeza do que preciso fazer para voltar a dormir tranquilo.

Me despedi das garotas e elas disseram que precisariam me ver novamente. Disseram que eu era necessário. Tudo bem, respondi, podem voltar quando quiserem. Uma delas me deu um beijo de despedida no rosto, aproximou os lábios do meu ouvido e me disse: “achamos que talvez você seja o escolhido”.

O escolhido? Perguntei.

A outra também chegou perto e me acariciou os cabelos.

“O Salvador. Achamos que talvez você seja nosso Salvador”.

E então foram embora. Atravessaram a estreita rua em direção ao portão de saída do condomínio, e mesmo sem virar para os lados senti olhares pesados caindo sobre nós; gente posicionada nas janelas, nos olhos mágicos das portas e nas garagens, observando-nos em silêncio.

“Eu também acho”, eu disse, em voz alta pra que todos ouvissem.

Tô percebendo uma certa hostilidade por parte dos vizinhos. É óbvio que eles devem saber o que eu ando fazendo dentro de casa, trazendo essas minas que se vestem em seu estilo “gótico”, com roupas pretas e cordões com pingente de pentagrama pendurados no pescoço. Não duvido nada que em meio a estes rituais – os quais se repetiram no dia seguinte, e no dia posterior a esse – algumas daquelas beatas, que já deviam ter esquecido seu tempo de jovem e de tomar cerveja, fumar cigarro e sentar no colo de um malandro excitado, deviam encostar agora seus ouvidos na porta da minha casa para xeretar o que estava acontecendo. Então surpreendiam-se quando, ao invés de ouvir gemidos de pouca vergonha, ouviam músicas no que elas deviam chamar de idioma de Satanás, ou outras idiotices preconceituosas de alguma religião oposta.

Hoje de manhã, quando saí pra comprar pão, vi a pequena mureta branca que precede a minha varanda com uma pichação cor de rosa.

Vê se arruma um motel ou um terreiro.

 

 

23 de Janeiro

 

NO ÚLTIMO DOMINGO eu previ minha própria morte.

Não sei exatamente como vai acontecer, porque muitas vezes os mistérios são revelados por alegorias que, uma vez decifradas, podem tornar-nos pessoas maiores. Mais sábias. Quando você enxerga a face do próprio destino, você entende todo o sentido do seu passado.

O Grão-Mestre do Templo me disse que eu tinha o poder de prever todos os acontecimentos futuros que não culminem em um livre-arbítrio superior ou de uma causa incompreensível.

Eu comecei a meditar em meu quarto, e depois de um tempo que não consigo mensurar, minha mente se transportou para o dia da minha extinção. Eu saio da minha casa, e a manhã não está amarela como dias de sol habituais, mas tudo está absolutamente vermelho como se estivesse embebido de sangue. Demônios parecidos com homúnculos, corcundas, deformados, me aguardam do lado de fora com forquilhas e enxadas nas mãos, trajando ternos e vestidos negros e azuis.

O demônio da frente é uma mulher nua de seios  murchos e cabelos brancos, espetados como se ela tivesse acabado de ser eletrocutada, como num desenho animado. Ela aponta para mim com a mesma mão com que segura um livro cheio de encantos e receitas mágicas. Como eu sei que este é o assunto do livro? Bom, na verdade não sei, mas foi o que eu imaginei quando o vi. Achei que fosse um livro de magia. Um livro encapado com couro negro e título em letras douradas.

Curioso, mas ela me acusa de ser um “bruxo”.

A bruxa me chama de bruxo, como se estivesse realmente me insultando com isso.

“Saia de perto de nós, bruxo”.

“Você assusta nossas crianças, bruxo!”

Daí a bruxa velha abre a palma de uma das mãos e dali surge um pequeno círculo de luz. Ela chega mais pra perto de mim e diz: “beba! Este é o corpo de Cristo”.

“Isto vai fazer toda a dor sumir. Isto vai fazer com que os demônios desapareçam para sempre. Isto vai fazer com que o verme da iniquidade saia direto pelo seu cólon”.

Eu pego o círculo de luz e coloco-o na boca. Subitamente meu rosto se ilumina e a luz brilha nos olhos dos manifestantes que continuam em frente à minha casa.

Eu deflagrei e me dividi em incontáveis estilhas, e cada estilha se converteu em uma estrela. Meu espírito não vai perecer, então?

Não.

Este foi o meu sonho.

 

 

30 de Janeiro

 

É CURIOSO PENSAR QUE a vida está sempre fugindo de mim. Bem, é isso que eu penso.

Eu estou esperando o ônibus em uma calçada e passam dez conduções do outro lado antes que passe a minha. Se eu decidir ir para o lado oposto da rota e atravessar a rua, o ônibus que eu esperava anteriormente vai aparecer, como se quisesse me contrariar.

Quando visto um short, meto o pé antes de perceber que estou colocando-o do lado errado. Isso não é o destino, claro, mas sim só burrice da minha parte. O pior é que sempre acontece.

No sábado eu fui ao mercadinho da esquina, pois precisava comprar coisas que faltavam na minha dispensa. Sabe como é, arroz, feijão, biscoitos, miojo, suco. Eu sempre aproveito e dou uma conferida pra ver se já não chegaram algumas marcas novas de camisinha pra minha coleção. Naquela vez eu levei uma cartela de Red Thunder, dez unidades, e Trojan Fresh, seis unidades. Quando cheguei no caixa a menina bonitinha que fechava os pedidos e fazia a cobrança me perguntou se eu tinha cadastro na loja.

– Cadastro pra quê? – perguntei.

– Para ganhar promoções e ser notificado sobre as novidades do que chega em nosso mercado.

Ah, tudo bem. Genial.

– Vocês notificam sobre tudo? Inclusive sobre camisinhas?

Naquele momento ela batia os códigos de barra da caixa de Red Thunder no scanner a laser.

– Sobre tudo, senhor – então ela ficou vermelha, e disse: – O senhor deve ter uma vida bem agitada, comprando todos esses preservativos.

Levei as coisas pra casa e na segunda-feira um funcionário do atendimento telefônico do mercado ligou. Perguntou se eu queria saber do novo material recebido pelo mercado naquela mesma madrugada, até porque algumas coisas estavam com 50% de redução do valor descrito no adesivo para clientes cadastrados.

Claro, porque não?

“Temos biscoitos de banana, com desconto de um real”.

Legal.

“Recebemos cigarros de uma marca nova no mercado, chamada Lightnin’. No atacado a caixa com dez maços sai por trinta e cinco reais”.

Ótimo. Isso dá três e cinquenta por maço, certo?

“Temos uísque e vodka importada. Mais barato para clientes fiéis, é claro. Oferecemos de grandes marcas. Bacardi. Walker. Temos cerveja também. Pilsen de muitas marcas, entre outras. Lager, Stout, Bock.”

Certo. Quando eu tiver um tempo passo aí pra buscar uma garrafinha.

“Recebemos novas marcas de camisinhas. Todas importadas. Temos agora Night Action, Into Fire, Dreamin’ Cum e Love Fortress. Temos uma marca chinesa também, mas não dá pra dizer o nome, porque, sabe como é, as letras são aqueles palitinhos, um trepado no outro. Agora, pensando bem, não sei se é chinesa ou japonesa.”

Ei, reserve uma de cada pra mim, ok?

“Vou ver se tem como, senhor. Mas só se o senhor passar aqui pra comprar ainda hoje”.

Certo, eu passo.

Daí eu cheguei lá e o filho da puta não tinha guardado nada. Acredita nisso? Fui falar com a menina do caixa, e ela me disse que alguém passou lá meia-hora antes de mim e levou todas as camisinhas novas. O funcionário tinha dito que algumas estavam reservadas, mas uma mulher apareceu lá mais cedo e ofereceu o dobro do valor delas, e o gerente deu a ordem para que as peças fossem liberadas.

Eu disse que queria falar com o arrombado do gerente.

A menina do caixa disse que o gerente não estava ali no momento. Pediu pra eu ficar tranquilo, que tudo iria se resolver da melhor maneira possível. Ela disse pra mim: – Porque o senhor não deixa seu telefone e, assim que chegarem marcas novas, estaremos ligando para o senhor e reservando um exemplar de cada?

Tudo bem. Peguei um papel e rabisquei meu telefone.

Antes de receber minha anotação a menina do caixa olhou para todos os lados e, percebendo que não havia ninguém por perto, perguntou: – O senhor coleciona preservativos?

Sim, respondi.

– Eles são maravilhosos, não é mesmo? – disse a garota, sem nenhum traço de acanhamento no rosto. Eu só sabia que ela era adulta porque o crachá sobre os seios informava que ela se chamava Cátia e que tinha nascido há vinte anos. – Eu também tenho vários deles. Tenho de todos os tamanhos, tenho embalagens especiais, camisinhas promocionais dos carnavais dos últimos dez anos, tenho também nécessaires em formato de pênis, tenho seis tipos de vibradores, recipientes em vidro e lata para diafragmas, camisinhas femininas…

Então… é… eu não tinha pensado nos diafragmas. As embalagens são legais? Não vendem isso em mercadinhos… onde eu posso encontrar?

– Vamos fazer assim – disse ela, e pegou um papel de nota fiscal em branco, onde escreveu um número. – Liga pra mim e eu te digo, tá bom? Talvez eu possa ir até a sua casa dar uma olhada no seu material…

Tá combinado.

É.

Talvez eu esteja mesmo exagerando.

Não devo ser tão azarado assim. Quando eu perco de um lado, eu acabo ganhando de outro.

Acho que eu não cheguei a comentar contigo que um dia desses eu recebi um telefonema do pastor de uma igreja. Ele disse que algumas pessoas haviam sugerido que uma conta em banco fosse aberta em meu nome, para que eu recebesse donativos e os repassasse da maneira que achasse conveniente. Eu disse que não queria essa responsabilidade, e o pastor me explicou que havia ouvido a voz de Deus, e Deus lhe comunicara que eu era uma pessoa especial.

Então hoje de manhã eu fui lá conferir quanto de dinheiro tinha na tal conta, e tomei um susto quando vi um número de cinco dígitos mais vírgula zero zero.

Daí eu fui até o RH do meu trabalho noturno, mandei eles enfiarem a proposta para ser supervisor do rabo, e eu agora, enfim, sou um homem livre.

Estou abrindo meu próprio telemarketing filantrópico.

 

6 de Fevereiro

 

EU RECEBI UM PACOTE na segunda-feira. O cara dos correios bateu na minha porta, me pediu o número da identidade e me fez rabiscar minha assinatura em um papel. O pacote estava embrulhado com papel de presente. Um cartãozinho dizia “Feliz Aniversário”, e tinha a marca vermelha de lábios na parte de trás.

Meu aniversário tinha sido no domingo mas, veja como são as coisas, eu só me lembrei mesmo naquela segunda-feira, e tudo por causa do presente. Não tinha remetente, embora o beijo no cartão me desse uma dica. Devia ser da minha ex, que foi a única mulher de lábios carnudos que eu peguei até hoje.

Quem entende as mulheres?

Abri o embrulho e me deparei com uma coleção de cartelas de camisinhas. Conferi o material.

Night Action, Into Fire, Dreamin’ Cum, Love Fortress e uma marca chinesa ou japonesa. Pink Platoon, Estate Cornea, Oiled Topli Krevet, e outros nomes mais estranhos que esses. Havia várias delas, cada cartela pertencente a um tipo ou a uma série. Então minha ex decidira comprar algumas camisinhas para ajudar na minha coleção, certo? Muito legal da parte dela. Eu cheguei a pensar em ligar para agradecer, mas eu também fiz muito por ela, se você parar pra pensar. O que me leva à ideia de que o que ela fez por mim foi um gesto de agradecimento.

Fiquei olhando para as cartelas, pensando se devia ligar pra minha ex ou não. Fiquei com os cotovelos apoiados na mesa e o queixo sobre os punhos fechados, olhando para a caixa cheia de camisinhas como se fosse um garoto admirando sua coleção de borboletas mortas. Como a decisão estava sendo difícil pra mim fui pedir a opinião do meu vizinho. O portão gradeado de sua casa estava trancado e ele não atendia a campainha.

Quando voltei pra casa meu telefone celular estava tocando; o som fora abafado pelo forro do sofá. No visor de identificação vi que quem estava ligando era uma das bruxas com quem eu estava tendo contato frequente. Ela me disse que Lilith requisitou que fosse feita uma reunião na minha casa, pois eu era um colaborador do coven e… bom, ela disse uma palavra que agora eu não me lembro, mas é como se eu fosse um membro honorário do grupinho delas. Ela me disse que eu não precisava me preocupar com preparativos: bastava deixar a sala de estar limpa e espaçosa, que o resto era por conta delas. Eu não nego ajuda, você deve ter percebido, então simplesmente aceitei.

Eram oito mulheres, nenhum homem, e traziam mochilas e malas abarrotadas de coisas necessárias para se executar aqueles rituais wiccanos, ou como elas chamam, feitiços, na verdade ainda não sei muito bem como lidar com o jargão. Estenderam tapetes no chão, acenderam velas, posicionaram canecas cheias de um líquido vermelho e pequenas estátuas sobre minha mesinha de centro. Cada uma delas trazia no pescoço um cordão com um pentáculo, que é um pingente com uma estrela, ou um pentagrama, no caso.

Elas se despiram completamente, ficando somente com seus pentáculos na altura dos seios, e se deram as mãos, formando um círculo no meio da minha sala. Lilith – que é uma mulher já… bem, já entrada em anos, sabe, com longos cabelos cinzentos, mas até que tem um corpo ainda firmes, seios pequenos e rijos – mandou que eu tirasse minhas roupas e ficasse no meio do círculo…

Calma. Não vou contar mais do que o necessário.

O negócio é que, assim que elas começaram a cantar um mantra – uma reza num idioma que eu não conheço –, o meu interfone começou a tocar. Pedi desculpa por ter esquecido de desligá-lo, e vi pelo visor que a ligação era do número da portaria. Expliquei para Lilith que podia ser uma ligação importante, talvez houvesse mais alguém no portão esperando para participar da reunião, e ela disse que estava tudo bem, eu podia atender.

Eu atendi e ouvi a voz do porteiro do condomínio.

– Boa tarde, JC – disse o porteiro.

Ele me chama de JC porque ouviu quando o meu vizinho me chamou assim uma vez. Então o apelido acabou pegando, e agora todos ali no condomínio que me conhecem me chamam assim.

Eu gosto de JC. Tem algo de misterioso em ser chamado por apenas duas consoantes.

– Sim. Boa tarde. Algum problema?

– Bom… na verdade tem – resmungou o porteiro, e por sua voz eu senti que ele estava um pouco tenso em ter que dizer o que tinha que dizer. Mesmo assim disse: – Infelizmente você não vai poder continuar com o que está fazendo.

– Como assim?

–Isso que você e as suas… visitas… estão fazendo…

– E como é que você sabe o que estamos fazendo? As cortinas estão cobrindo as janelas, e que eu saiba não tem câmeras aqui.

As bruxas ficaram me olhando, meio que sabendo o que devia estar acontecendo ali. Talvez fosse algo comum na vida delas, ficar andando pra lá e pra cá, de casa em casa, pois as comunidades ao redor não podiam aceitar que certas práticas que não compreendiam ocorressem nos arredores de seus sagrados lares.

O porteiro ficou um tempo calado antes de continuar. Talvez estivesse tomando fôlego quando disse, de supetão: – Não precisamos ver para saber o que está acontecendo aí, JC. Essas mulheres que entraram em sua casa…

– O que tem elas?

– Bom, por mim tudo bem fazer uma festinha. Mas a vizinhança está incomodada com isso.

– Não é uma festa que está acontecendo aqui.

– Sei disso, JC. O rapaz que morava do lado da sua casa foi gentilmente convidado a deixar o condomínio por conta das coisas que ele permitia que acontecessem em casa. Estou falando “festinha” para ser… bem… para ser político, digamos assim. Todo mundo sabe o que tá acontecendo aí.

– Certo. Pode me dizer o que está acontecendo aqui, então?

– Macumba. Sabemos que é macumba.

Eu caí na gargalhada. Acho que o porteiro ficou puto, porque poucos segundos depois que eu comecei a rir ele desligou o interfone na minha cara.

Lilith me perguntou se podíamos continuar, ou se seria melhor adiarmos o ritual. Eu disse que sim, vamos continuar sim, pois aqui é a minha casa e dentro dela eu faço o que eu quiser.

Calma, nada mudou.

O ritual aconteceu.

O Grão-Mestre do Templo me disse que eu tinha o poder de dar de momento e a todos as consolações mais eficazes e os conselhos mais salutares.

 

 

13 de Fevereiro (Parte Um)

 

NA SEXTA-FEIRA EU FUI ASSALTADO.

Mas você sabe que Deus escreve certo por linhas tortas.

Eu estava voltando do trabalho, cerca de onze da noite, andando pela calçada externa do meu condomínio. Tava frio, então quase todo mundo estava usando casacos com capuz para proteger a cabeça. Um rapaz – devia ser adolescente ainda – atravessou a rua e apontou uma pistola de cano curto na minha direção.

O Grão-Mestre da Ordem da Clavícula de Salomão me disse que eu tinha o poder de triunfar sobre as adversidades.

Aquele dia eu estava me sentindo particularmente mal humorado. Isso acontece quando você chega aos trinta anos de idade, se olha no espelho e percebe que é só mais um cara gordo trabalhando com telemarketing e morando sozinho. Mesmo adulto as espinhas ainda pululam na minha cara. Você olha para o passado e vê que atravessou três décadas da História sem construir nada sólido, e começa a se perguntar porque eu continuo por aqui?

Com 9 anos de idade Tutancâmon já era rei.

O Grão-Mestre do Templo me disse que eu tinha o poder de dominar o amor e o ódio.

É mesmo, Grão-Mestre? Então, porque eu não consigo? Porque eu quero esmagar esse delinquente passando por cima dele com uma draga e dar seus restos para alimentar os cachorros de rua? Porque, para salvar o mundo, eu gostaria muito de esquecer minha hipocrisia funcional, todos os CD’s piratas, todos os falsos atestados, toda prostituta escrava que talvez eu tenha explorado, e matar esse bandido como se ele fosse o tumor do mundo civilizado. Como se eu fosse um anjo, e ele o demônio.

Então eu ergo meu braço e estico o dedo indicador e polegar da mão direita, apontando para o bandido como se estivesse apontando um revólver. Como se fosse uma criança brincando de polícia e ladrão, e, no fim das contas, eu acabo imaginando isso mesmo. Talvez eu ainda seja um garoto, completamente frustrado com aquele padre bunda-mole que quis me fazer acreditar que eu era um demoniozinho quando, pô… quando eu era um garoto tão bonzinho.

– Tá achando que isso aqui é alguma brincadeira, seu merda? – gritou ele, chegando mais perto de mim. – Tu não tem amor à vida?

– Não – respondo. – E você? Tem?

– Tá maluco, cara? Me dá logo tudo que tu tem aí ou então tu vai morrer!

É claro que eu não morri, senão não estaria aqui contando a história. Ele se aproxima de mim até quase tocar meu tórax com o cano da arma. Ele coça a barriga e cospe na minha cara, pra mostrar quem é que manda. – Eu vou te matar, otário…

Enquanto eu limpo o rosto, removendo saliva e catarro que ele jogou em mim, ele diz: – Só tá eu e tu aqui, seu babaca, então faz o favor de me passar a carteira se não quiser que…

Eu o interrompo, balançando os braços que nem um louco. O assaltante toma um susto, mas não sei explicar o motivo que o impede de apertar o gatilho. Talvez ele seja assim, todo marrentão, todo metido a fodão, mas tem um baita medo de tirar a vida de uma pessoa. Daquela vez o assalto era real – não era uma armação com um amigo de infância –, mas, por algum motivo, eu senti que continuar vivendo ou parar de viver não parecia mais fazer diferença. Acho que nunca fez, pra ser sincero.

Não me olhe assim. Sei o que está querendo dizer. Está me dizendo que sou um suicida, não é mesmo? Mas o que você espera? Quer que eu fique a vida inteira andando pelas sombras, com medo de morrer, me trancando em casa com medo de sair á noite, pra sempre? Com medo de que um doente mental venha me assaltar e minha vida termine de vez?

E se ela terminar, qual é a diferença? Quem vai sentir falta de mim, com exceção daqueles que se beneficiam da minha existência?

Deve ser melhor ao lado de Cristo do que nesse inferno cheio de medo e sofrimento. Às vezes eu fico pensando se as primeiras intenções já não acabaram, e hoje em dia só temos as segundas.

Eu faço mais um movimento rápido com os braços, como se fosse um pretenso lutador de kung-fu, como se fosse um ilusionista, e num instante a arma tá na mão do assaltante e no outro instante a arma está em minhas mãos. Não sou mestre em artes marciais… não chego nem à faixa branca.

Confiança, acho.

Ele começa a tremer e a choramingar assim que a ficha cai e ele percebe que está com as mãos vazias. Ele diz: “por favor, cara, não atira…”

“Pelo amor de Deus, não atira em mim.”

E pelo amor de Deus, de fato, acabo não atirando naquele instante, mas me afasto alguns passos para trás e meço o sujeito com os olhos.

Bom, a partir daqui a história fica complicada.

Eu não devia te contar.

Mas preciso, não é?

E você precisa me ouvir, entende?

Não chame a polícia até que eu termine. Pode me prometer isso? Promete que vai ficar longe desse telefone?

Eu estou lá, apontando a arma em direção ao bandido quando ele tenta usar a mesma técnica de desarme maluca que usei contra ele para me desarmar. Ele não consegue. Só que, diferente dele, meus reflexos não me permitem dar com o pé pra trás, e o resultado é que eu disparo. É sério, eu disparei. Um tiro seco, súbito, bem no meio dos olhos dele. Pá.

Um tranco do caralho. Chega a doer o cotovelo.

Já ouviu quando alguém leva um tiro na cabeça? Faz um barulho engraçado. Crak, como se a pessoa estivesse comendo um biscoitinho cream cracker. Ou plok, tipo quando uma jaca cai no chão e se parte ao meio. Bagulho feião.

O bandido caiu no asfalto como se fosse um saco de batata. Um tiro a queima roupa, no meio da cara, é tudo o que um meliante precisa pra encontrar a paz daquelas nossas utopias. Ele cai girando, completamente sem consciência antes mesmo de tocar o chão, e seu corpo pesado de ladrão gordo faz um barulho oco quando o movimento termina. É um barulho que me parece tão alto quanto o som do próprio tiro. Ecoa. Na minha memória ele cai assim em câmera lenta.

Ele cai em câmera lenta e, sério, juro por Deus, eu sinto um prazer tão enorme – uma energia de vida tão intensa correndo pelas minhas veias – que imagino que um orgasmo perto daquilo é uma bela duma criancice.

Eu admiro o cadáver expelir sangue pelo cú arreganhado que eu fiz na testa dele, e chuto seu corpo estirado no chão uma, duas, três, quatro vezes. Eu cuspo na cara dele.

E de repente, sabe, olhando assim pra ele, eu finalmente entendo o motivo de estar falando com você agora. Preciso agradecer a você por me fazer finalmente entender o meu propósito de vida. É verdade que Deus tem um plano para todos nós.

Naquele momento eu estava decidido a fazer algo que já vinha planejando havia algum tempo. Não te falei nada porque sabia muito bem que você ia tentar me impedir, e ia contar pra polícia, e aí, sabe como é, eu ia xobar na cadeia e tal. Mas beleza. Agora que eu já fiz, eu posso te contar, mesmo correndo o risco de me ver encarcerado por pelo menos uns dez anos em Bangu. Posso ser estuprado por uma lata de salsichas e não tô nem aí.

Mas o papo é reto. É sério. Eu não tenho medo de morrer. Quer dizer, eu já tive, mas não tenho mais. Ultimamente eu tenho acordado todo dia às cinco da manhã, sem um pingo de sono, e então me olho no espelho e digo: “hoje é um bom dia pra morrer”. No templo eles fazem suas orações a Hermes, pedindo lá suas bênçãos e que o mundo se transforme num lugar melhor, mas eu acabo fazendo minha oração matinal pedindo que Deus me abençoe com uma morte memorável, porque, já que eu não vou mesmo produzir nada de bom e duradouro, que pelo menos eu me sacrifique limpando o solo das impurezas.

Eu limpo um pouco do sangue que espirrou no meu braço e depois bola pra frente. Ao invés de entrar no condomínio eu vou até o ponto de ônibus e pego uma condução de volta ao centro da cidade. A arma está ali comigo, bem segura no cós da minha calça, e quando eu sento perto da janela e sinto o ar frio da noite soprando no meu rosto, me regozijo da segurança que aquele utensílio de batalha me trás. Por um momento, o espectro do gorila alfa se reflete quando me vejo duplicado na vidraça do ônibus.

O quê?

Acabou o meu tempo?

Temos que parar?

Não, não. Por favor, não agora. Se eu não tiver esta oportunidade de contar tudo como aconteceu, talvez nunca mais possa falar disso novamente. Portanto, me deixe terminar. Eu não vou te machucar, prometo.

Agora já tá tudo certo. A arma tá aqui comigo, sei que você já percebeu, mas eu dou minha palavra de que não vou tirá-la pra fora.

Nunca mais eu vou machucar um ser vivo, eu prometo. Mas você me entende, certo? Às vezes você precisa de um banho de água fria pra poder despertar. Às vezes você precisa dar um peteleco na água para que os círculos de ressonância finalmente apareçam. Nós fazemos as sequelas da nossa própria vida, não os outros.

Saí do ônibus assim que cheguei à Central do Brasil, e de lá me dirigi ao galpão da cooperativa onde se reuniam os topiqueiros para o fim do expediente. Fui falar com um despachante que estava lá todo ocupado fazendo uns registros de quem chegava e quem saía e de quanto havia sido o faturamento do dia, e tive que falar umas três vezes pro babaca me dar uma atenção.

Eu digo: – Oi.

Ele levanta a cabeça e me olha por cima dos óculos: – O que quer?

Eu digo: – Estou procurando um motorista de van.

Ele diz: – Então veio ao lugar certo. Tem um monte de motorista espalhado por aqui. Alguns estão na cafeteria, outros estão nos puteiros. O que você quer? Serviço de transporte particular?

Eu minto: – Mais ou menos isso. Tô procurando um motorista em especial, chamado Reinaldo. Uma vez ele… (aqui sou eu inventando uma mentira) ele fez um serviço de levar meus filhos e meus sobrinhos num passeio no interior do Maracanã. Eu gostei do serviço dele e quero contratar de novo.

Ele diz: – Ah, então deu sorte. Só tem um Reinaldo por aqui. Ele deve tá lá, comendo pastel no Rei do Suco. Quer dizer, eu não sei se o nome do lugar é Rei do Suco, Rei do Pastel ou Rei da Torta. É Rei De Alguma Coisa. Vai lá que tu encontra ele.

Fácil demais.

Eu vou caminhando pela Barão de São Felix, apreciando a paisagem de prédios históricos tombados, tão tombados que estão caindo aos pedaços, me divirto vendo travestis abordando bêbados de pau duro, pivetes aguardando para oferecer ajuda às pessoas que saem dos mercados carregadas de sacolas; tudo isso enquanto o vento frio que desce pelo Morro da Providência me imbuí de coragem para aproveitar minha última chance de libertação. Os cabelos dos meus braços estavam arrepiados. Eu tinha tirado a vida de um homem naquela noite, e estava determinado a terminar o ciclo.

Você deve imaginar como é. Sabe, é como quando você tá fazendo um regime e abre um pacote de biscoitos recheados, porque está com um pouquinho de fome. Você mente pra si mesmo dizendo que vai comer um só, mas acaba comendo todos os biscoitos, pensando: “já que eu tô cagando no pau, vamos cagar direito.”

Eu entro na estação central e reparo que não há muita gente por ali naquele horário. Revirando os olhos, com a cabeça parada e o corpo rígido por toda a tensão, vou procurando o meu alvo. Nos primeiros minutos de busca eu não consigo encontrá-lo; isso amplia meu nervosismo porque não sei se ainda estarei disposto a fazer isso no dia seguinte, após acordar de sangue morno e dar por mim que não sou um assassino de verdade.

Mas então eu o vejo.

Está sentado num tamborete de pernas compridas de alumínio em frente a uma mesinha de vidro, bebendo cerveja e conversando alegremente com um amigo. Primeiro, vejo o próprio motorista, e depois vejo o mesmo sujeito que estava sentado ao lado dele, naquele dia que foi o pior da minha vida; o dia que não consigo tirar da cabeça nem por um decreto.

Vou me aproximando para que não haja erro. Quero saber se são eles mesmos. Longe de mim querer matar inocentes, isso acabaria com tudo que eu construí, isso diminuiria minha índole heroica. Reinaldo está usando um destes uniformes que os topiqueiros usam atualmente – camisa branca com o nome e o tipo sanguíneo do indivíduo bordado no bolso, e calça cáqui – mas o amigo dele, ou melhor, seu ajudante, está usando uma camisa com a estampa desbotada da Madre Teresa de Calcutá. Eu ainda me lembro do apelido dele. Na van ele vestia a camisa de Fidel e todos o chamavam de Ninho.

Na van, ele vestia Fidel Castro com um charuto na boca. Os detalhes ainda estavam bem nítidos na minha memória.

Ali ele vestia a madre, numa estampa que se completava com a frase: “Associação Madre Teresa na Jornada Mundial da Juventude”.

Que merda, eu não posso errar o tiro, pensei. Tenho que acertar na cabeça dele, ou então vou acabar machucando a madre. Sério, eu me preocupei com isso, e depois ri. E aconteceu que eu olhei para os lados para ver se não tinha ninguém concentrado em mim, pra ver se não tinha ninguém olhando diretamente pra mim, e disparei. Um só, bem na direção do Ninho. Minhas mãos tremiam terrivelmente, porém, era um pensamento que eu vinha tendo desde que matei aquele bandido lá em frente ao condomínio: eu não tinha tempo para tentar me concentrar, ou arrumar uma receita pra comprar um calmante tarja preta na farmácia. Isso poderia acabar com o meu brio, entende? Além do mais, eu não sabia quantas balas ainda tinha naquela arma, não sabia remover o pente pra conferir, e cada tiro era sagrado; eu não podia me dar ao luxo de ficar tentando acertar um ponto específico, como se estivesse no circo itinerante, no parquinho do bairro, tentando ganhar um ursinho pra minha ex-namorada.

Errei a cabeça do cara, mas acertei a Madre Teresa bem no olho esquerdo.

Ninho gritou. Foi um berro seco e breve, que talvez não tenha durado nem um segundo inteiro, e ele caiu para trás do banquinho alto onde estava, se estatelando no chão brilhoso recém encerado. Começou então a confusão. A galera que estava entrando na estação tentava sair, a galera que estava saindo tentava entrar; o eco do tiro produzira um bizarro efeito sonoro que não permitia a ninguém identificar de onde viera, resultando num tumulto de gente vagando e correndo sem direção.

Reinaldo estava estático, olhando para todos os lados sem sair do lugar. Ficou em choque? Eu cheguei mais perto dele, com a arma empunhada e o braço que a sustentava para o alto, como se fosse um matador de aluguel de algum filme B, e aos poucos fui esticando este mesmo braço na direção dele. Foi aí que ele me viu. Arregalou os olhos, começou a se tremer, e acho que engoliu em seco, pois seu pomo de adão foi pra cima e pra baixo no pescoço magro, que nem uma bomba de ar de bicicleta. Disse alguma coisa, mas eu não consegui ouvir.

– Boa noite, Reinaldo – digo pra ele. Acho que ele também não consegue me ouvir debaixo daquela gritaria, gente correndo e derrubando mesas, porém acredito que ele consiga me entender, lendo os movimentos lentos que faço com os lábios.

Ele não me responde.

– Você não vai arriscar a vida por causa de uma buceta, ou vai? – pergunto pra ele, e logo depois ele começa a chorar. Ele me entendeu. Sabe que não vai haver perdão. Ele sabe que vai morrer. Então eu chego ainda mais perto e o seguro pelo colarinho da camisa. Ele fica parado, sem ação, ciente de que não adianta dar as costas e tentar escapar. Eu digo perto do ouvido dele: – Eu posso facilitar a sua morte. Dessa distância consigo acertar no meio da sua nuca, então você não vai sofrer mais que um segundo até tomar o seu caminho lá pro inferno. Mas pra isso, vamos ter que fazer um acordo. Você vai ter que me dizer onde estão os outros três.

Lá fora eu já ouço as sirenes.

– Três? – ele pergunta, quase sem voz. – Que três?

Eu desperdiço uma bala e dou um teco na perna dele. Eu não queria ter que fazer isso – queria poder matá-lo logo – mas eu não tinha tempo porque era quase certo da polícia estar a não mais do que um quarteirão de distância dali. Na verdade, eu já até me imaginava sendo preso antes mesmo de conseguir estourar a cabeça daquele merda.

Depois daquele tiro, ele me conta tudinho.

Eu mando ele abrir a boca, ele me obedece como se fosse um cachorro adestrado, aponto o cano da arma e aperto o gatilho. A cabeça dele explode, ejetando sangue e pedacinhos de  miolo para todos os lados. Depois, sem perda de tempo, eu saio voado em direção as plataformas, correndo como se não tivesse pulmões humanos, pulo as roletas e me embrenho nos cantos mais escuros, onde a iluminação é fraca. Entro em um trem que tá parado, prestes a partir, e me misturo à multidão.

Eu toco a arma que voltou para o cós da minha calça por baixo da camisa, pra me certificar de que ela ainda está lá. Ela parece até estar quente. Juro que ela tá fervendo, ou minhas mãos estão frias demais. Eu não sei quantas balas ainda me resta, porque eu simplesmente não sei como retirar o pente e conferir a munição. Nunca tinha visto uma pistola de verdade antes daquela noite. Eu percebo, contudo, que não estou nem um pouco preocupado com minha própria defesa, quando encontrar os outros caras, e se não tiver bala na arma, a gente vai decidir por outros meios.

Calma. Eu sei que já ultrapassamos muito o nosso tempo, mas eu não posso sair daqui sem contar a história toda.

Caramba, eu te pago o dobro da sessão de hoje, ok?

Agora atenda o próximo paciente, e diga que ele está dispensado. Diga pra voltar na semana que vem.

Pode ir, eu espero.

Pronto?

Olha, eu não quero saber se o próximo paciente é um suicida ou não. Se for, que se dane, ele estará fazendo um favor a todos nós quando se excluir da nossa presença. Ele vai encontrar Jesus mais rápido do que eu, e eu até sinto um pouco de inveja por isso.

Agora me deixa continuar.

Estou de pé no trem lotado, aguardando que o mesmo chegue logo ao meu próximo destino, imaginando que a polícia já deva ter identificado meu rosto nas câmeras de segurança da estação. Eu já podia visualizar a minha chegada ao bairro de Ramos, cinco viaturas policiais paradas do lado de fora da estação, com seus policiais protegidos pelas latarias de seus carros, apontando fuzis e se posicionando, e um deles com um megafone ordenando que eu me entregasse, como num filme. Felizmente não foi isso que aconteceu. Eu saio do trem, subo a passarela e desço as escadas em direção à rua; não vejo nenhuma autoridade local, nem mesmo um guardinha municipal.

Minhas mãos ainda tremem. Meu coração tá tão acelerado que tenho a sincera impressão de que vou desmaiar a qualquer momento. Então eu dou uma passada em uma padaria e compro um maço de Malboro pra relaxar. Saco um cigarro, fumo, e já me sinto um pouco mais controlado. Com o cigarro na boca e a arma roçando na minha virilha, me sinto tão forte…

É difícil explicar.

Reinaldo havia me dito, um pouco antes de morrer, que em noites de sexta-feira Rafa costumava ir tomar uma cerveja em um bar perto do Cacique de Ramos. Eu saio da estação e vou perguntando para as pessoas onde fica este lugar. Elas vão me explicando e eu vou me aproximando. Eu dobro à esquina e vejo um botequim sujo onde um amplificador toca um samba antigo. Uma mulher – uma coroa fina, magricela e de aspecto sujo – dança com um copinho de pinga na mão. Sentados em frente a uma mesa de plástico, dois homens bêbados dão risada enquanto a mulher se exibe; ela provavelmente deve tá achando que pelo menos um daqueles dois deve estar com o maior tesão em vê-la fazer aqueles movimentos ridículos, mas ela é só uma magrela estúpida e descerebrada que faria um favor ao mundo reduzindo a superpopulação, pulando em frente a um ônibus lotado.

Eu lembro de tudo. Eu lembro dos caras que comeram minha mina naquele dia, na van, me lembro da fisionomia de cada um deles, e um deles tá ali, rindo da velha sem vergonha que levanta uma saia que mais parece um pano de chão e expõe seu rabo seco.

Termino de fumar outro cigarro e aponto a pistola na direção de Rafa. Minha mão agora está firme como uma barra de ferro.

Eu disparo.

O tiro pega de raspão no pescoço dele. Outro alvoroço como aquele na Central se inicia, mas Rafa é mais esperto que Reinaldo, e ao invés de ficar parado tentando entender ele foge o mais rápido possível. Ele tenta tapar com a mão o rasgão que fiz em seu pescoço, mas o sangue vaza como se a goela dele fosse uma mangueira. Daí, mesmo sendo mais pesado e mais lento, e tendo um mar de gente correndo em direção oposta a minha, eu consigo alcançá-lo, porque minha vontade de terminar com meu sofrimento é maior que a vontade dele em continuar vivo. Assim que eu fico a um metro de distância dele, pulo e dou-lhe um chutão bem na espinha. Ele grita e cai para a frente, arrastando a cara no chão.

Eu sento em cima do corpo dele e dou-lhe um soco bem no pau do nariz. Segundos depois eu percebo que estou mordendo meus próprios lábios, e estou fazendo isso com tanta força que minha boca está sangrando e meus olhos estão cheios de lágrimas. Eu volto a tremer, mas não tenho tempo de fumar um cigarro.

– Eu já matei dois dos seus camaradas – eu digo para ele, ao pé do ouvido, como há pouco com Reinaldo. Quando ouvem tiros as pessoas têm a tendência de se desesperar a gritar, não dá pra ouvir nada. – Então eu peguei o trem e vim para cá. Sabe o que eu tava pensando, no meio do caminho?

Rafa está com dificuldades para respirar, então simplesmente não consegue gemer em voz alta. Respira como um asmático. Eu estou em cima dele, com o joelho escorado em seu tórax, a arma quase encostada na xota que eu fiz na garganta dele.

Eu digo: – Eu estava pensando no dom da morte. Isso mesmo: a morte é tipo um dom de Deus. Quando uma geração morre, um novo ciclo se inicia… um novo ciclo de ideias, entende? Deus se encarrega de retirar a pele velha da sociedade para substituí-la por uma nova, limpa e lisa. Imagine se o seu bisavô estivesse vivo… talvez ele fosse um assassino comum – um tipo de gente que não merece mais viver nestes novos tempos. É como você. Este planeta não devia ter espaço pra gente que nem você.

– Espera… cara – ele diz com uma voz rouca, e a cada sílaba pronunciada o rasgão em seu pescoço golfa um pouco de sangue. – O que… foi que… eu te fiz?

Eu balanço a cabeça.

– Isso é que é foda. Você não se lembra. Se você se lembrasse eu podia te dar uma morte rápida. Eu podia te exortar ao arrependimento. Mas você não se lembra. Você é tão porra louca que não se lembra das merdas que anda fazendo por aí.

Eu puxei o celular e dei uma olhada rápida na hora, e estabeleci dois minutos inteiros para oferecer sofrimento àquele indivíduo. Pra resumir a história: enfiei o cano da pistola no buraco do pescoço dele, torci, enfiei e tirei, retorci, enfiei e tirei, afundei com toda a força e atirei.

E vamos para o próximo.

 

13 de Fevereiro (Parte Dois)

 

AQUI ESTÁ.

Coloquei duas colheres de açúcar pra você. Sugiro que beba o café inteiro, pois ainda tem bastante resíduo no meu peito que eu preciso descarregar. Ainda tem muita coisa, e acho que não teremos mais oportunidade de nos vermos de novo. Não quero que você durma agora.

É, eu sei. Depois de tudo que eu disse seria mesmo difícil cair no sono.

Então… o próximo na minha lista era Jader – o primeiro que forçou sexo com a minha namorada, dizendo a romântica frase “você é um sonho de cachinhos vermelhos, sabia disso?”

Reinaldo tinha me dito que Jader agora trabalhava como segurança nas cercanias de um puteiro em Olaria, bem em frente a um supermercado. Eu fugi rápido do último lugar onde cometi um crime, do bar onde matei o Rafa, chamei um táxi e segui para lá. Fato curioso é que, mesmo ficando muito apreensivo em tirar algumas vidas, me estremecendo e tudo mais, assim que entro no táxi é como se eu estivesse indo embora de uma empresa após um longo dia de trabalho. Eu respiro fundo e então percebo que não me lembro mais das caras das pessoas que executei. Página virada. É como se eu estivesse destruindo suas identidades – eu aponto, atiro, e eles nunca existiram. Estranho, não? O que a Psicologia tem a dizer sobre isso?

Tirei um peso das costas?

Bom, deixa pra lá. Só que, pra pontuar o que eu estou dizendo, o motorista do táxi sorri, um velho com cara chupada de fumante, olhos afundados, meio caveira, olha para mim pelo retrovisor e diz: – Nada melhor que uma diversão depois do trampo, hein?

– Como assim? – pergunto.

– Você não pediu para eu levá-lo às primas?

– Ah, sim. É. Às vezes a gente tem que limpar a mente.

– Perfeitamente – ele diz, concordando comigo.

– Você sabe ver quantas balas ainda restam num pente? – pergunto eu a ele, sem saber muito bem o que estou fazendo. Minha cabeça ainda tá um pouco atordoada com a lembrança de todos os pedaços de osso, carne solta e sangue que admirei na última hora.

– Como é? – o motorista franze a testa.

– Esquece.

Nós chegamos ao nosso destino e eu jogo para o taxista uma nota de cinquenta que eu tenho no bolso. Pode ficar com o troco, eu digo. Mas a sua corrida deu pouco mais de dez reais, senhor, ele diz, e eu respondo: – Quer saber? Um pouco de boa ação numa noite tão bonita não vai aborrecer a Deus, ou vai?

Então ele fica feliz e diz: – Deus te dê em dobro.

Depois acelera e vai embora.

Me vejo sozinho na calçada do edifício onde fica o puteiro. Lá em cima, por fora do segundo andar do prédio, tem um outdoor com letras em neon amarelo exibindo o nome de alguma cidade do Oriente Médio. Donos de puteiro adoram o Oriente Médio. Bagdá, Babilônia, Marrakesh. Eu respiro fundo e lembro que faz anos que não entro em um lugar assim, e você entende, a gente acaba ficando intimidado por não saber muito bem sobre os protocolos do lugar.

Felizmente uma prostituta me vê meio perdido na rua e vem andando até mim. Está usando uma saia de couro sintético vermelha apertada, um top de couro para cobrir os peitos grandões e botas brancas que parecem ser de algum material aveludado. – Oi – diz ela pra mim. Até que ela tem um sorriso bonito, apesar da cara feia de cavalo. Num primeiro momento eu pensei que ela fosse travesti, só que depois que ouço a voz dela um pouco melhor percebo que nenhum homem poderia ter um timbre vocal tão bonito. Ela podia ser cantora.

– Oi – respondo.

– E aí? Quer se distrair?

– Na verdade eu tô procurando um cara.

Ela dá uma risadinha tapando a boca com a mão: – Tudo bem. E que tipo de cara você tá procurando? Moreno? Negro?

– Não é disso que eu tô falando. Eu gosto de mulher.

– Ué, não tem problema nenhum se você gosta de sair da rotina…

Eu seguro o top dela com uma das mãos e a trago pra perto de mim. Eu falo em voz baixa, tenho certeza, mas nos meus próprios ouvidos a minha voz chega como se fosse um berro agudo e ridículo: – Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é.

Ela me observa de cima a baixo, com os olhos arregalados.

Eu digo: – Me leva até o segurança dessa merda.

Ela segura a minha mão e vai me conduzindo em direção à entrada do prédio, calada. Se não fosse por ela, talvez eu ficasse tão intimidado com as luzes de neon e a placa indicando o maravilhoso mundo do prazer persa, que jamais teria conseguido completar o que tinha ido fazer. Como era o nome do lugar mesmo? Antioquia? Persépolis? Mas antes mesmo de chegar ao umbral da porta percebo Jader ali, usando camisa de abotoar e calça social preta. Ele está falando com alguém em um rádio. Ele também tem uma pistola presa ao cós da calça.

A mulher e eu chegamos à porta, e Jader diz para esperarmos. Ele termina a ligação que estava fazendo e diz que precisa me revistar. Ele começa por baixo – me apalpa as canelas e as coxas, e mexe na base do meu saco, para saber se não escondi alguma arma no cú, só pode ser. Eu percebo, é claro, que logo ele vai encontrar minha pistola, porém, por alguma razão que eu nem consigo tentar entender, eu permito que ele continue me revistando. Vê-lo assim, ajoelhado na minha frente, me dá uma sensação de revés… eu poderia muito bem sacar a pistola e fazer ele chupar o cano de aço do mesmo jeito que ele fez a minha mina chupá-lo, mais de dez anos atrás.

É como se ele tivesse lido meus pensamentos, porque, um segundo depois, ele se levanta, levando uma das mãos à pistola.

Ainda não sei muito bem o que houve, mas acho que ele me reconheceu. Bom, eu não quis nem saber: empurrei a puta que tava no meu caminho e tirei a pistola da cintura. Apontei antes que ele pudesse sacar a dele e furei ele bem no meio da barriga. Jader caiu com um grito alto e, acho que você já tá careca de saber, em uma situação assim sempre se cria uma confusão do inferno. Eu joguei minha arma no chão e nem perdi tempo em pegar a dele, que devia estar melhor municiada que a minha. Então finalizei dando um tiro na cabeça dele e me preparei pra correr.

A puta me segurou pelo pulso. Me puxou para junto de si, me deu um beijo no rosto e disse: “obrigada”. Mas não tenho certeza se ela fez isso mesmo. Posso estar confundindo com algum filme.

Eu já sei o que você vai dizer. A pistola é uma metáfora psicológica que representa o meu pau, e toda aquela matança representa a minha vontade de dizer o que eu penso, de sair do armário e todas essas merdas que vocês psicólogos se gabam de saber. Mas você não sabe de nada. Você não sabe de nada mesmo.

Se for pensar assim, acho que tudo começou com a hóstia.

Eu vou andando até o lugar onde deve estar o último deles, Esaú, e isso seria em Irajá. Sério: eu andei de Olaria até Irajá, porque se eu pegasse um ônibus ou um táxi talvez eu não pudesse saborear o momento; de poder caminhar livremente por aí sabendo que já tinha destruído quatro cânceres da sociedade, e faltava mais um. O último. Viaturas policiais passaram por mim durante todo o caminho e sequer me deram atenção, porque eu não tinha mais medo.

Ainda me lembro daquele dia na van. Tintim por tintim. Ainda me lembro como todos eles se aproveitaram da minha mina, mas Esaú foi o único que não o fez. Ao invés disso, preferia ficar dando socos e cotoveladas no rosto dela. Ele fechava as mãos, e como se portasse uma marreta, dava murros violentos no topo da cabeça dela toda vez que ela gritava. Enquanto ela tava sendo currada pelo Reinaldo, estando de quatro, Esaú lhe desferia chutes na boca do estômago. Quando ela era obrigada a ficar de joelhos e usar a boca, Esaú lhe dava caneladas nas costas.

É curioso pensar que aqueles canalhas eram homens comuns, e até bem simplórios. Quando eles saíam de casa, vestiam suas roupas de trabalho e colocavam suas máscaras. Beijavam a esposa e deixavam uma nota de dois reais na mesa da cozinha pra compra do pão. Eles eram pais de família, trabalhadores, religiosos. Um era voluntário em uma instituição que ajuda criancinhas com tuberculose. O outro, assistente social.

Esaú, por exemplo, ajudava dependentes químicos a se livrarem das drogas em uma instituição vinculada a uma igreja evangélica. Foi exatamente lá que eu o encontrei: em frente à entrada de uma igreja, fazendo um círculo com vários dependentes químicos que oravam apaixonadamente. De mãos dadas com dois magricelos que deviam ser ex viciados em crack ou algo assim, o Pastor Esaú, renascido em Cristo, perdoado pelo Senhor, recita: – Conhecemos as palavras em Gálatas, capítulo seis, versículo sete, que diz “não erreis, Deus não Se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”, embora a Salvação esteja ao alcance do homem que se arrepende… – ele continua – e somente está para o homem que verdadeiramente se arrepende, pois o Senhor “ao culpado não tem por inocente”. Naum, capítulo um, versículo três.

Eu vou chegando mais perto, acariciando a pistola que tenho na cintura, quando de repente a voz do pastor se eleva num volume muito mais alto que o anterior, e diz.

– Aqui, agora, nos aborda um homem que busca vingança. Seu coração está inflamado de ódio. Sua alma está perdida, caminhando devagar na lama, movendo-se invisível nas trevas.

Eu estico o braço e aponto a pistola; um objeto impregnado de violência, direto das mãos de Jader para causar dor a seu amigo mais selvagem. Esaú abre os olhos e observa diretamente a mim, enquanto seus cordeiros depravados permanecem de cabeças baixas, rezando baixinho.

– Em algum momento da vida – ele fala, mas sua fala é grito. Catarse – Deus envia o passado para que nós o confrontemos. Em algum momento, alguém vai oferecer um cigarro de maconha pra vocês, e a tentação será enorme. Em algum momento alguém vai dizer que cheirar uma carreirinha de pó, só pra se divertir, não vai fazer ninguém ficar viciado. Aquele seu amigo de infância vai acabar chamando você pra ingerir álcool numa sexta-feira, no happy hour, vocês sabem, só socialmente. No meu caso, vejam isso, Deus é tão bom que me deu a chance de pedir perdão pelos meus erros do passado.

Esaú solta as mãos dos dois viciados e caminha na minha direção. Fica a um metro de mim e abre os braços, como se quisesse me dar um abraço. Lembro-me de pensar: é assim que você quer meu perdão, filho da puta? Me dando um abraço?

Ele diz: – Aceite meu pedido de perdão, filho. Te digo isso, aceite meu pedido, pois sou um homem temente a Deus, e sua bala pode me matar, mas não poderá me machucar – então ele aponta para o céu com o dedo indicador e completa: – Ele pode fazer milagres.

– Então ele vai ter que escolher… porque eu sou um homem temente a Deus também. Minha namorada também era. Lembra-se dela?

Nesse instante eu aperto o gatilho, mas o gatilho não se mexe. Aperto duas, três vezes. O gatilho está duro como se estivesse emperrado. Eu fico olhando, incrédulo, para a arma que tenho na mão.

O pastor sorri, com uma expressão que tentava ser terna, mas na real era um sorriso de arrogância. As pessoas não mudam assim, da água pro vinho: – Eu avisei, filho. O Senhor é comigo…

Aconteceu enquanto eu andava em direção à minha última vítima. Eu vinha caminhando pelas ruas escuras, no coração da madrugada, pensando no sangue derramado e em quantas balas devia ter na minha nova pistola. Aproveitei o tempo livre para aprender a manipular o objeto, primeiro tirando o pente e verificando o número de cápsulas, e depois travando e destravando a arma.

Esqueci na posição em que se trava quando cheguei ao lugar onde Esaú se refugiava, atrás de sua fé, atrás de uma crença tão pouco sólida que logo estaria morto. Tão morto quanto qualquer pastor pode estar.

Destravei.

– O Senhor é meu pastor, portanto, nada me falt…

Antes que terminasse sua maldita frase feita o Pastor Esaú tem seu ombro perfurado por uma bala. Ele rodopia, mas ainda não cai. Ele dá dois passos capengas para trás e me olha, incrédulo. Até que eu admiro aquele Esaú, sabia? Era um cara crente de verdade. Crente até o fim.

Os drogados são arrancados de seus resmungos embriagados, de seu transe, mas não fogem ainda. Talvez estejam tão absortos quanto seu líder. O que foi? Eles achavam mesmo que Cristo taparia o cano da pistola com o dedo e faria a pólvora explodir de volta, na minha cara?

Eu aperto o gatilho novamente. O segundo tiro vai na barriga. O pastor ainda não cai. Cara obstinado.

Ele me dá as costas e diz para seus fiéis, com uma voz tão firme que eu fiquei até surpreso: – Não temam. Não fujam. Não se permitam acovardar ante o Inimigo.

Naquelas costas largas pelo paletó de ombreiras eu espeto mais dois tiros e ele cai no chão. Eu chego junto ao corpo estirado enquanto os cordeiros vão se afastando, passo a passo, até estarem a uma boa distância de mim. Eu empurro Esaú com o pé e quando ele se vira, percebo que ainda está vivo.

Com um aceno de mão, ele me pede para chegar mais perto.

Eu me ajoelho e uso uma das mãos para erguê-lo pelo pescoço. Esaú olha para mim de modo penetrante, seus olhos embaçados e cheios de lágrima fitam na verdade algum ponto próximo, bem atrás de mim. É estranho, mas é como se ele estivesse observando além de mim, por dentro da minha silhueta; possivelmente algo logo atrás da minha nuca. Eu viro a cabeça achando que algum dos drogados se aproxima, mas não há nada lá.

Ele olha pra mim, ou pra algum lugar acima de mim, e começa a chorar que nem uma criança.

Ele suplica: – Perdão. Eu imploro, Jesus, me perdoe.

E por fim morre.

Eu fecho as pálpebras dele e pouso sua cabeça no asfalto frio, faço o sinal da cruz, descarto a arma jogando-a sobre sua barriga e fico esperando que algum dos drogados faça alguma coisa. Fico esperando que tentem me agredir, ou que saquem seus celulares e chamem a polícia, mas ao invés disso eles ficam ali parados, olhando pra mim numa atitude quase indecifrável.

Mas eu sei muito bem no que eles estão pensando. Sei que eles sabem que no fundo são iguais a mim. Eles entendem com perfeição os motivos do meu espírito. Um bom coração numa mente difícil…

… mas muito difícil mesmo…

… de domar.

 

20 de Fevereiro

 

ENTÃO VOCÊ NÃO ME DENUNCIOU…

Obrigado por isso.

Acho que talvez você não tenha acreditado na minha última história, não é mesmo? Um cara como eu, incrivelmente inoperante em relação à própria vida privada, decidir tomar uma decisão que cabe exclusivamente a Deus, no caso matar alguém, pode parecer algo muito… muito apoteótico, sei lá. Eu sei, eu sei. Tudo bem. É melhor você não acreditar mesmo.

Assim a gente segue nesse nosso joguinho de “eu finjo que aconteceu” e você com: “eu finjo que acredito”. Como se fosse um xadrez para idiotas.

Gosta de xadrez?

No domingo bateram na porta da minha casa. Eu abri e vi que eram duas vizinhas minhas, que eu já havia visto de longe, circulando pelo condomínio, e agora estavam sorrindo para mim com sorrisos estranhos. Eram jovens, e estavam vestidas como beatas; saias longas até os joelhos, camisas de mangas longas até os pulsos. Cabelos lisos e ensebados escorrendo pelas costas até a cintura.

Gosto de sorrisos, principalmente de sorrisos de mulheres, mas não gostei nem um pouco do sorriso delas. Sorriso de fotos de políticos, tá ligado? Sorrisos desenhados por cima de uma cara branca e sem graça.

– Teria um momento para falar sobre Deus?

– Sim – respondi quase imediatamente. – Sempre tenho tempo para falar sobre Deus.

– O senhor já deve ter ouvido falar sobre o plano de Deus. Sobre a Salvação… – começou a dizer uma delas. Era ruiva e tinha sardas no rosto. Me lembrou muito a minha primeira namorada. Assim que ela se pronunciou, cheia de vida e cheia de gestos, eu tive uma visão: Esaú, Reinaldo, Ninho, Rafa e Jader, dando gargalhadas e suando, saindo de uma van e agarrando a menina, e lançando-a com truculência para dentro do veículo espaçoso. Enquanto está sendo carregada, ela diz “não façam isso, pelo amor de Deus”, e eles respondem em uníssono “estamos fazendo isso exatamente pelo amor que Deus nos deu”.

Eles falam ao mesmo tempo, em sincronia, como Lúcifer nos filmes de terror.

Eu fiquei parado, pensando nisso, viajando em memórias que talvez nunca mais fossem me deixar em paz, quando percebi que as duas estavam me olhando um pouco assustadas.

– Algum problema, moço?

– Problema? Porque?

– A irmã Bianca fez uma pergunta ao senhor.

– Ah, desculpa. Qual foi a pergunta?

– O senhor tem buscado a Salvação? – perguntou a ruivinha, um pouco tímida. Muito bonitinha.

Mais uma vez eu a vejo sendo arrastada para a van. Dou um passo a frente, decidido a salvá-la, mas um dos homens aponta uma pistola na minha direção, e diz: – Você não vai arriscar a vida por causa de uma buceta, ou vai?

Eles entram com ela no veículo e fecham a porta de correr. A van não sai do lugar. O único movimento que a van faz é pra cima e pra baixo, a mola única que suspende o veículo range pra caramba, uma barulheira infernal. Eu caminho lentamente em direção a ela e me aproximo do vidro das janelas laterais. Encosto o rosto no vidro e fecho as mãos em concha bem ao lado dos meus olhos, para enxergar melhor. O rádio da van toca uma dessas músicas indecentes de hoje em dia, que parece a coisa mais normal do mundo – na letra, uma menina com voz de puta pede para ser currada com raiva.

Que cretina. Era uma vagabunda dessas que devia estar na van, e não minha namorada. Pelo menos é o que eu acho. Minha mina era temente a Deus, doutor. Ia pra missa. Tomava a hóstia. Era essa vagabunda que devia estar lá, sendo violentada por aqueles homens, e não uma mulher temente a Deus.

– Sim, já estou salvo – eu garanto a elas. – E quanto a vocês? Vocês podem dizer que estão salvas?

– Desculpa dizer, senhor – me diz a outra, a que não era ruiva –, mas você não está salvo. Pode pensar assim, mas não está.

– E como sabe? – eu quis saber.

– Todos os moradores do condomínio sabem o que o senhor e suas amigas têm feito aqui. Sabemos que têm violado as leis de Deus. Macumba é, claro, coisa do diabo.

Eu ri.

Raciocina comigo: pelo menos uma dessas duas talvez já tenha cometido alguns pequenos pecados. Uma delas roubou uma bijuteria em uma loja, vai, e a outra talvez tenha feito uma chupetinha no namorado lá no banheiro da igreja. De repente o pastor da igreja delas tem duas mulheres, e além disso tem toda aquela história de pedir ofertas para os fiéis e enriquecer em cima disso, em troca de nada. Em troca de promessas.

Então o que há de errado com o que estou fazendo?

Elas não foram embora depois da minha risada. Como elas ainda estavam ali, e como eu não gosto de bater a porta na cara dos outros, falei: – Me explica então, moça, como é que eu tô violando as leis de Deus.

– Bem, senhor… – responde debilmente a ruiva que parece a minha  primeira mina, a suicida. – Sabe… iniquidade… fornicação…

Quando ela diz a palavra “fornicação”, vejo um dos homens da van por cima dela, arranhando suas costas. Consigo visualizar direitinho dois caras forçando seus pênis contra ela.

– Adoração a falsos deuses… sodomia…

Quando ela diz a palavra “sodomia”, vejo outro homem violentando-a por trás enquanto ela solta um gemido abafado. O rosto dela está escorado na janela da van; sua respiração deixa o vidro embaçado.

– Adivinhação… poligamia…

Espera. Até onde eu sei a bíblia não diz nada sobre poligamia. Não foi Salomão que teve dezenas de mulheres?

Enfim.

Eu fico ali esperando que a ruiva me aponte todos os meus supostos defeitos, e no fim respondo: – Eu sou um homem temente a Deus, e isso basta pra mim. Acham que essa informação é boa o suficiente para que me deixem em paz?

Sem dizer mais nada as duas viram as costas e vão embora. É mole? Batem na sua casa falando de amor e de salvação, e quando você as contradiz elas nem dão um “bom dia”. Nem um “desculpe o incômodo”.

 

 

27 de Fevereiro

 

Enfim acabou.

Não vou mais voltar aqui.

Todos os meus vizinhos estavam lá ontem. Você tinha que ver. Estavam lá com tocos de madeira nas mãos, com cabos de vassoura nas mãos. Disseram que eu não era bem-vindo no condomínio. Foi muito estranho. Muito medieval.

Quase não acreditei no que tava vendo.

Eu disse que tudo bem. Quer dizer, não tudo bem, eu tenho meus direitos, caramba. Há uma coisa chamada liberdade religiosa, certo? País laico não é isso?

Eles disseram que o condomínio fora erguido nos alicerces do cristianismo, por gente de bem, e o que eu estava fazendo era coisa do diabo.

Então uma mulher se aproximou de mim – era uma velha baixinha e gorduchinha. Estava sorrindo. Pousou uma das mãos em meu ombro e disse: – Ou você pode sair, ou você pode pedir perdão a Cristo pelo que fez em sua comunhão com Ele.

– Do que está falando? – perguntei.

A mulher levantou uma das mãos, e entre seus dedos pude ver uma hóstia. Ela segurava o alimento como se fosse uma moeda. Ela erguia a hóstia e a coisa parecia brilhar à luz do sol.

– Este é o corpo de Cristo – ela disse. – Abra a boca.

Não sei porque, mas obedeci.

Ela se aproximou e colocou a hóstia sobre minha língua.

Ela disse: – Agora ore, meu filho. Dez ave-maria e cinco pai-nosso.

E foi então que eu entendi o que faltava. O pecado sempre estivera ali, mas eu não tinha olhos para ver. E quando você não consegue enxergar, Deus o coloca no lugar certo, ainda que tudo pareça uma grande e confusa espiral de fracassos e decepções. Deus escreve certo por linhas tortas.

Eu renasci em Cristo.

E se você ainda não passou por isso, é porque não fez o sacrifício correto. Não doou sua alma como Davi fez. Não doou seu amor, como Abraão fez.

Eu morri.

E voltei.

O Grão-Mestre do Templo me disse que eu tinha o poder de governar os elementos, fazer cessar as tempestades, curar os doentes e ressuscitar os mortos.

E agora que eu estou de volta, me livrei de tudo o que estava ali me prendendo ao passado, atrasando minha evolução, bloqueando o meu espírito. Juntei os livros de magia negra, as velas, os tapetes, as camisinhas, as fotos pornográficas. Os objetos do meu passado se tornaram uma linda fogueira, cuja fumaça se mostrou um cogumelo em forma de coração a subir ao céu.

Bom…  é isso.

Isso é tudo.

Não acho que tenha acontecido mais nada de especial nestes últimos dias.

Mas acho que preciso confessar uma coisa.

Tudo isso que eu te contei é a mais pura verdade. O esquema no telemarketing filantrópico, as humilhações no suporte técnico de internet, a Ordem da Clavícula de Salomão, o incêndio na cracolândia, o assassinato dos homens que estupraram minha primeira namorada. Tudo isso é real. Minha outra namorada, a que me deu camisinhas de presente, foi lá em casa e, quem sabe, a gente possa reatar. Ela nem ficou bolada quando eu confessei que tava comendo a amiga dela, sério mesmo: ela disse que não se importava. Queria ficar comigo. Devolveu aqueles duzentos reais que eu tinha dado pra ela como compensação por ela ter gastado seu tempo precioso comigo.

É verdade também que eu pago os estudos do meu irmão. Agora, quase toda semana eu vou para a casa dos meus pais e tento oferecer ajuda em alguma coisa que estejam precisando. Na segunda-feira eu dei uma limpa no esgoto do quintal. Ontem eu limpei a caixa d’água.

Agora estou fazendo trabalho voluntário na igreja. Trabalho voluntário de verdade. No domingo nós saímos depois da missa e coletamos quilos e mais quilos de alimentos para distribuir nas instituições. A primeira das instituições que eu visitei foi exatamente o albergue onde ficaram os desabrigados do incêndio que eu, admito, fui o causador. Aquele casal que tinha me visitado pra me acusar do crime foram os mais beneficiados. Entreguei para eles duas cestas básicas.

Mas uma coisa é mentira.

Quando matei o Pastor Esaú, não joguei a pistola na barriga dele. Não abandonei a arma ali pra que qualquer imbecil, qualquer drogado, decidisse roubá-la e usá-la para o mal.

A arma era o sinal da minha vitória. Mereço-a como mereço o salário no final do mês. Como mereço a comissão por arrecadar donativos livres de impostos para a instituição de crianças com anemia falciforme. Ela está aqui comigo – vou tirá-la da minha cintura e apontá-la na sua direção, só por um momento. Pronto.

A verdade é que a igreja me libertou das minhas angústias, da minha depressão terrível, e você… você não fez nada. Não me ajudou em nada. Você nem mesmo agiu corretamente, como deveria ter agido: soube que eu cometi uma série de crimes, e não me denunciou. Permitiu que um demente como eu – não agora, agora estou curado – mas você permitiu que um bosta derramasse sangue como se fosse o dono da lei, como se a sua justiça pessoal fosse a justiça do mundo.

E o único justo de verdade é Deus.

Você, doutor… você não é útil. O mundo não vai progredir com pessoas frias, petrificadas com estátuas, que só ouvem e nunca falam. Pessoas como você.

Vou te matar porque eu preciso ser útil.

Todo dia eu preciso ser útil.

Pelo menos uma vez por dia.

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